23 dezembro 2022

A Rena do Nariz Vermelho (Rudolph the Red-Nosed Reindeer, 1964)

O clássico natalino do SBT

Quem (com mais de 40 anos) não se lembra do clássico natalino A Rena do Nariz Vermelho? Muito reprisado nos primeiros anos do SBT (na época, ainda TVS), na década de 1980, era presença garantida nas programações de fim de ano da emissora. 



Para os mais novinhos que não pegaram essa tradição televisiva, A Rena do Nariz Vermelho é um especial da televisão americana, produzido em stop-motion pela Videocraft International, Ltd. (mais tarde conhecida como Rankin/Bass Productions) e atualmente distribuído pela NBCUniversal Syndication Studios.

Stop-motion ou quadro-a-quadro é uma técnica de animação que usa recursos de máquina fotográfica ou de computador. É o mesmo princípio da animação tradicional: vários frames com pequenas diferenças entre si, exibidos em alta velocidade para dar a impressão de movimento.

A Rena do Nariz Vermelho foi ao ar pela primeira vez em 6 de dezembro de 1964, na rede de televisão americana NBC, com patrocínio da General Electric para a General Electric Fantasy Hour.



O especial foi inspirado pela canção Rudolph the Red-Nosed Reindeer, de Johnny Marks. Mas a canção já era um clássico natalino muito antes de ser usada na animação. Havia sido composta em 1939 por Robert L. May (cunhado de Marks) e sua popularidade disparou em 1949, na gravação de Gene Autry.

Aqui no Brasil, o canal de Silvio Santos exibiu a animação pela primeira vez em 21 de dezembro de 1985. Como mostra a sinopse do Jornal do Brasil daquele dia: “Rudolph é uma rena que tem vergonha de seu nariz vermelho. Com dois amigos, se mete em mil aventuras e, graças ao nariz, consegue que Papai Noel chegue à sua cidade, apesar da forte nevasca.”

Mas o que pouca gente se lembra é que a animação já havia estreado na tevê brasileira alguns anos antes, ainda em 1979, na Rede Globo. Mas sem o cartaz que Silvio Santos daria no SBT. Tanto que a primeira exibição no Brasil, pela Globo, em 23 de dezembro de 1979, ao meio-dia, no Festival de Desenhos Inéditos, passou quase batida.

Já na TVS/SBT, o horário – às 21h30 – foi um tanto quanto ingrato (pelo menos para as crianças dos anos 1980), como observou Paulo A. Fortes em sua coluna Os filmes da TV, Jornal do Brasil, em 21 de dezembro de 1985: "Sentimentalismo também é o que não falta à Rena do Nariz Vermelho, desenho animado com bonecos, numa história natalina infantil. Pena que, neste horário, a criançada pequena já esteja na cama."

Em outubro de 1985, um anúncio grande do SBT na Folha de S. Paulo já antecipava os filmes adquiridos pelo canal e os especiais de fim de ano da emissora — incluindo A Rena do Nariz Vermelho — cuja audiência vinha crescendo.




Depois de sua estreia na tevê americana, em 1964, A Rena do Nariz Vermelho demorou 15 anos para chegar à tevê brasileira, em 1979. Mas só se popularizou de verdade por aqui quando foi exibido na TVS/SBT, em 21 de dezembro de 1985, com grande divulgação nos intervalos comerciais do canal.



A novidade é que a emissora de Sílvio Santos contratou o estúdio Elenco e as músicas ganharam versões em português, compostas por Mário Lúcio de Freitas. (Na exibição da Globo, em 1979, a dublagem era da Herbert Richers e as canções eram tocadas em suas versões originais em inglês, com legendas). 

Em 1976, foi produzida uma continuação para A Rena do Nariz Vermelho, intitulada O Ano Novo Brilhante de Rudolph (Rudolph's Shiny New Year), que estreou na tevê americana em 10 de dezembro de 1976 na ABC.

O especial A Rena do Nariz Vermelho é transmitido todos os anos desde 1964, tornando-se o especial de Natal de TV mais longo e contínuo nos EUA. No 50º aniversário do especial, em 2014, uma série de selos postais com Rudolph foi emitida pelo Serviço Postal dos Estados Unidos. Uma exposição especial também foi montada no Masterworks Museum nas Bermudas, onde os bonecos originais estão guardados.

Em 2004, o grupo Destiny's Child gravou uma versão pop da canção Rudolph the Red-Nosed Reindeer para a reedição de seu álbum 8 Days of Christmas, de 2001. Foi acompanhado por um vídeo feito em animação stop-motion, com cenas de arquivo da animação original, bem como novas cenas das integrantes da banda interagindo com os personagens originais.

Dois dos bonecos originais usados na produção (Papai Noel e Rudolph) foram vendidos em um leilão em novembro de 2020, por 368 mil dólares, para um colecionador desconhecido.

A partir de 1972, o especial passou a ser exibido pela CBS.



Com a morte do produtor Jules Bass, em outubro deste ano, 2022 é o primeiro Natal em que todos os criadores, escritores e produtores deste especial já estão mortos, assim como todos os principais dubladores. O encanto atemporal de A Rena do Nariz Vermelho, no entanto, permanece vivo.


14 dezembro 2022

Bem-vindo ao Lar, Bobby (Welcome Home, Bobby, 1986)

 Telefilmesquecidos #55


O adolescente Bobby (Timothy Williams), de 16 anos, é preso por posse de drogas em frente a um bar gay. Não, ele não é usuário de drogas, mas acabou envolvido, ingenuamente, em um mal-entendido.

A investigação que se segue revela que ele teve contato sexual com um homem de 35 anos. Quando a fofoca se espalha, seus colegas do colégio passam a evitá-lo e pedem sua expulsão da escola. Seu pai Joe (Tony Lo Bianco), um operário rústico e conservador, também o rejeita, enquanto sua mãe, Rose (Gisela Caldwell), tenta oferecer apoio.


O fato de ser bom aluno, premiado em matemática e membro da equipe de natação do ensino médio não impede que Bobby seja hostilizado. Seus únicos aliados são sua ex-namorada problemática (Nan Woods), um professor compreensivo (John Karlen) e um motoqueiro rebelde que abandonou os estudos (Adam Baldwin).



Bobby chega a se aconselhar com um padre. Tempos depois, tenta um relacionamento com um homem mais velho, mas a relação dá errado e torna tudo ainda mais difícil. Além de ter que lidar com preconceito e sentimentos de confusão sobre sua própria sexualidade, Bobby terá que enfrentar seus algozes e tentar achar seu caminho na vida, da forma mais dolorosa. 

Dirigido por Herbert Wise, austríaco de nascimento que se mudou cedo para a Inglaterra, onde teve uma prolífica carreira como produtor de televisão e diretor, ao longo de cinco décadas. Wise dirigiu também A Mulher de Preto (The Woman in Black, 1989), tema da postagem anterior aqui no blog.



O SBT (que na época ainda era TVS) tinha o dom de fazer as chamadas mais sensacionalistas e assustadoras para os filmes exibidos em sua programação. Sempre com a voz do locutor em tom dramático e apelativo. Especialmente na década de 1980 isso era notório. Silvio Santos reprisava os filmes ao extremo e as chamadas também eram exibidas em todos os intervalos comerciais.

Bem-vindo ao Lar, Bobby era um desses casos. A chamada me arrepiava, principalmente a cena em que Bobby coloca brincos e maquiagem para afrontar seu pai, em uma violenta discussão durante o jantar. Eu tinha 10 anos e entendia aquilo como algo ameaçador, extremamente “errado e proibido”.





Trata-se de um caso clássico de telefilme que marcou uma época muito específica, mas que caiu no obscurantismo, desapareceu da TV e da memória do público (provavelmente por ter se tornado bastante datado na abordagem das questões sexuais).

Quase não há informações sobre este telefilme na internet e as poucas disponíveis não são muito precisas ou detalhadas. No entanto, na época, apesar de simplório, o filme foi uma tentativa sincera de mostrar que aquele tipo de situação era uma realidade, apesar de ainda ser um tema tabu nos anos 1980.


Estreou na TV americana em 22 de fevereiro de 1986, pela CBS. No Brasil, estreou em 29 de setembro de 1989, no SBT, no famigerado Cinema em Casa (que na época era exibido à noite). Quase dez anos depois, após ser reprisado algumas vezes pelo SBT, o filme foi para a Rede Manchete.

O Globo, 29 de setembro de 1989



Em sua crítica para o jornal LGBT The Washington Blade, Noel Gillespie disse que o filme é "bem atuado, escrito de maneira inteligente e convincente, dirigido de maneira suave e desenvolvido de forma objetiva". Também elogiou Timothy Williams por tornar o personagem principal "atraente e crível e recebe forte apoio de um elenco excelente (...). O roteiro evita respostas prontas e situações que podem ser esperadas."

As colunas de sinopses dos jornais brasileiros não ajudaram muito: "O elenco, desconhecido, tenta dar algum sentido a este desarticulado drama sobre intolerância sexual, que atira em várias tramas paralelas." (Jornal do Brasil, 22 de julho de 1991).



Ao ser exibido pela Manchete, já na fase final da emissora, a sinopse foi bem simplista: "Rapaz de família surpreende os amigos, a noiva e os seus familiares, ao ser preso num clube para homossexuais". (O Globo, 21 de novembro de 1998).

07 dezembro 2022

A Mulher de Preto (The Woman in Black, 1989)

Telefilmesquecidos #54

O jovem advogado Arthur Kidd (Adrian Rawlins) é designado por seu chefe a viajar até Crythin Grifford, remoto vilarejo da costa inglesa. Lá ele deve cuidar dos trâmites legais para a venda da casa de Alice Drablow, misteriosa e reclusa viúva que faleceu sem deixar herdeiros.

Kidd decide passar alguns dias na casa da viúva recém-falecida, uma mansão isolada conhecida como Eel Marsh. Começa a ser atormentado por barulhos e visões assustadoras. Aos poucos, vai descobrindo que o local esconde segredos sobre uma mulher que assombra a aparentemente pacata cidadezinha. 



O roteiro para a TV, de Nigel Kneale, foi adaptado do livro homônimo de Susan Hill, romance sobrenatural publicado originalmente em 1983. Kneale tinha em seu currículo o roteiro de A Face do Demônio (The Witches, 1966), clássico da Hammer com Joan Fontaine. A direção, sólida, é do experiente Herbert Wise, que dirigiu muitas séries e médias-metragens. 

Embora a história pareça familiar – o jovem de mente racional, empurrado para situações assustadoras de natureza paranormal, em um lugar onde é tratado como forasteiro – as performances são convincentes. O filme é eficiente em criar uma atmosfera intencionalmente lenta, que se revela pouco a pouco.


O desempenho impecável de Adrian Rawlins (mais conhecido por interpretar o pai de Harry Potter nos filmes da franquia Harry Potter) sustenta a espinha dorsal por trás de A Mulher de Preto. O elenco é todo muito bom, com destaque também para Bernard Hepton no papel de Sam Toovey, um fazendeiro local que se surpreende ao saber que Kidd passará um tempo na mansão da falecida Sra. Drablow.


Feito para a TV britânica (produzido pela Central Television para a rede ITV), o filme foi lançado pela BBC na véspera do Natal de 1989. Foi um sucesso inesperado na TV, embora a autora Susan Hill tenha discordado de algumas pequenas mudanças do roteirista Nigel Kneale. Outra versão, cinematográfica, foi lançada em 2012, com Daniel Radcliffe no papel principal.



Uma disputa pelos direitos de distribuição no Reino Unido entre a Central Television e membros da equipe de produção original do filme (que possuíam uma parte dos direitos) impediram que A Mulher de Preto fosse exibido novamente na televisão após 1994 ou relançado em mídia doméstica após 1991. Os direitos de distribuição tornaram-se ainda mais complicados quando a versão para o cinema, de 2012, entrou em produção.

Foi lançado em VHS no Reino Unido em 1990, pela Futuristic Entertainment. No ano seguinte, foi relançado em VHS pela Video Collection International como exclusivo das lojas WHSmith. Em 2000, houve também um lançamento norte-americano em DVD, pela BFS Entertainment.

No Reino Unido, a Network Distributing conseguiu garantir os direitos de relançar o filme em Blu-Ray e DVD em 2020, para o qual foi restaurado e remasterizado em alta definição.

O remake de 2012 não teve a aclamação esperada, mas a badalação em torno de seu lançamento serviu para que o livro homônimo de Susan Hill — até então inédito no Brasil — fosse lançado aqui, com quase 30 anos de atraso, pela editora Record.

O crítico Rodolfo Lucena confirma em sua coluna, publicada em 24 de fevereiro de 2012 na Folha de S. Paulo: “Tristeza e dor, mais do que medo e assombrações, povoam A Mulher de Preto, romance da britânica Susan Hill que deve ganhar mais visibilidade com a estreia do filme homônimo.”

Crítica de lançamento do livro no Brasil (Folha de S. Paulo, 24/02/2012)

Curiosamente, Machado de Assis tem um conto também chamado A Mulher de Preto, sem qualquer relação com o filme. Faz parte do primeiro livro de contos de Machado, Histórias Fluminenses, publicado em 1870.

Em 2022, a Obras-Primas do Cinema lançou o filme em DVD no Brasil, pela primeira vez.