07 outubro 2026

A Babysitter / A Enviada do Mal (The Babysitter, 1980)

Telefilmesquecidos #103

A família Benedict, recém-chegada a uma ilha na costa de Seattle, precisa se adaptar à sua nova residência. Embora pareçam ter tudo, não conseguem mostrar-se satisfeitos com suas vidas.

O pai, Jeff (William Shatner), é um dentista viciado em trabalho que ignora as necessidades da esposa Liz (Patty Duke), uma mulher frágil e amargurada, e da filha pré-adolescente, Tara (Quinn Cummings), que passa a maior parte do tempo sozinha e resmungando para uma boneca de pano. 



Brincando nos arredores da casa, enquanto passeava pela ilha, Tara faz amizade com uma moça misteriosa, porém simpática, chamada Joanna (Stephanie Zimbalist), que surge logo após Liz sofrer um acidente de carro sem consequências graves.



Liz — meio dondoca, sem muito com que se ocupar — acha desgastante cuidar da casa e criar uma criança de 12 anos, razão pela qual contrata Joanna para trabalhar como babá, cozinheira e governanta residente. De início, o marido Jeff é contra a ideia, mas muda de opinião ao conhecer Joanna e trocar olhares com ela pela primeira vez.



A bela, doce e prestativa Joanna, de apenas 18 anos, parece uma dádiva dos céus: acolhe Tara e não poupa comentários gentis e oportunos ao casal Liz e Jeff. Aos poucos, no entanto, ela começa a lançar olhares sedutores para Jeff e a empurrar Liz (que é alcoólatra) de volta para a bebida.



Quanto mais Joanna ganha espaço na casa, mais manipula a família e abre caminho para a ruína da relação do casal. Mas por que Joanna escolheu aquela inofensiva família para destruir? O que ela ganha com isso?

Por um breve momento, o telefilme tenta fazer com que Joanna desperte certa empatia (apesar de suas tramoias maldosas), retratando-a como uma jovem solitária e carente de afeto, cuja necessidade de aceitação tomou um rumo sombrio.



Histórias bastante semelhantes foram também abordadas no telefilme Summer Girl (1983) e no filme A Mão que Balança o Berço (The Hand That Rocks the Cradle, 1992). Todos eles têm em comum uma esposa que ousa contratar uma jovem atraente para cuidar de seus filhos, por não darem conta, sozinhas, de criá-los e administrar a casa. As jovens contratadas como babás (ou governantas) logo farejam inseguranças e vulnerabilidades e acabam assumindo o controle de toda a casa. Outra característica desse tipo de filme é que os homens são sempre presas muito fáceis, incapazes de se controlar diante de uma jovem bonita.

A Babysitter pode frustrar um pouco pela lentidão e pelo foco no melodrama do casal. O clima de suspense, mesmo sutil, está presente, mas a tensão de verdade só ganha contornos reais nos minutos finais da história.



O elenco é de primeira. Entre os principais, Patty Duke, que aos 15 anos ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker, 1962) e participou de uma infinidade de telefilmes entre as décadas de 1970 e 1990, como Meu Doce Charlie (My Sweet Charlie, 1970), A Maldição da Viúva Negra (Curse of the Black Widow, 1977), O Resgate de Jessica (Everybody's Baby: The Rescue of Jessica McClure, 1989) e muitos outros.

William Shatner, o eterno Capitão Kirk do seriado Jornada nas Estrelas (Star Trek, 1966–1969), construiu uma carreira lendária de quase seis décadas na TV e no cinema.

Quinn Cummings ganhou destaque como atriz mirim ao interpretar Lucy McFadden em A Garota do Adeus (The Goodbye Girl, 1977), papel pelo qual foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, tornando-se uma das pessoas mais jovens a receber uma indicação ao prêmio.

Stephanie Zimbalist fez muitos telefilmes (como Caroline?, de 1990) e seriados entre as décadas de 1970 e 2000, além de alguns filmes para o cinema, como Reencarnação (The Awakening, 1980).

O diretor, Peter Medak, havia acabado de dirigir o ótimo Intermediário do Diabo (The Changeling, 1980), que só chegou aos cinemas brasileiros em 1984 e foi posteriormente lançado em VHS com o título A Troca. O eclético currículo de Medak inclui A Classe Dominante (The Ruling Class, 1972), As Duas Faces de Zorro (Zorro the Gay Blade, 1981), Lágrimas para os Estranhos (Cry for the Strangers, 1982), O Sangue de Romeo (Romeo Is Bleeding, 1993) e A Experiência 2 - A Mutação (Species II, 1998), entre outros.

A Babysitter estreou na TV americana em 28 de novembro de 1980, na ABC. Demorou a estrear na TV brasileira, em 11 de maio de 1991, na Manchete.

A sinopse do filme, no Jornal do Brasil, chamou a trama de "melindrosa, com pretensão psicológica, mas desfecho frustrante" (Jornal do Brasil, 11 de maio de 1991). Quando o filme foi reprisado, em 1993, a sinopse de O Globo cutucou: "Soa familiar? Este telefilme narra de forma convincente quase a mesma história da recente produção cinematográfica A Mão Que Balança o Berço (1992). Confira." (O Globo, 14 de fevereiro de 1993).

Lançado em VHS no Brasil pela Globo Video, com o título A Enviada do Mal.

Não confundir com Uma Babá Objeto do Desejo (The Babysitter, 1995), com Alicia Silverstone.

29 julho 2026

Morte em Canaã (A Death in Canaan, 1978)

Telefilmesquecidos #102

Em 28 de setembro de 1973, Barbara Gibbons (Sally Kemp) foi brutalmente assassinada em sua casa, na cidadezinha de Canaan, Connecticut. Seu filho de 18 anos, Peter Reilly (Paul Clemens), encontra o corpo e é indiciado pelo crime. Não demora muito para que ele seja preso.

Nas mãos da polícia local, Peter é submetido a uma cruel pressão psicológica, que o força a confessar a autoria do crime. A comunidade, que acredita na inocência do rapaz, se une em uma campanha de nível nacional para pagar sua fiança de 50 mil dólares. 



Baseado em uma história real que ganhou grande repercussão nos EUA na década de 1970. Até celebridades como a atriz Elizabeth Taylor, o cineasta Mike Nichols e o dramaturgo Arthur Miller colaboraram com a campanha pela liberdade de Peter.

Paul Clemens

Tom Atkins

Stefanie Powers

Quem primeiro chamou a atenção do país para o caso foi a escritora freelancer Joan Barthel (Stefanie Powers), com sua reportagem sobre o crime. Recém-chegada a Canaan, Joan se junta aos moradores que acreditam na inocência de Peter e decide tomar parte no caso. Por meio de seu trabalho jornalístico, unindo pesquisa e investigação, dispõe-se a revelar a farsa judicial armada para condenar Peter injustamente. Mais tarde, duas reportagens investigativas no The New York Times levaram à reabertura do caso. Após dois julgamentos, as acusações contra o rapaz foram retiradas, em 24 de novembro de 1976. 



A Joan Barthel da vida real, que acompanhou o caso de perto, reconstituiu a história em seu livro A Death in Canaan, publicado em 1976 e adaptado com sucesso para este telefilme. (No Brasil, o livro foi lançado em 1977 pela editora Francisco Alves, com o título Massacre em Canaã - A estarrecedora história de um erro judiciário).



A adaptação para a TV mantém o foco nos dois temas centrais do livro: a insistência e a pressa da polícia estadual na condução do caso contra Peter Reilly; e a manifestação espontânea de apoio ao acusado por parte dos moradores de Canaan, ao perceberem a injustiça.



O elenco é excelente. Paul Clemens impressiona pela atuação sensível como o desprotegido Peter Reilly. Apesar de não muito lembrado hoje, Clemens participou de várias séries de TV entre as décadas de 1980 e 2000, além de filmes como Sangue Amaldiçoado (The Beast Within, 1982) e Estranhos Visitantes (Communion, 1989).


Stefanie Powers interpreta a escritora Joan Barthel. A atriz já tinha longa experiência na TV e no cinema desde a década de 1960, mas se tornaria popular mundialmente um ano depois de Morte em Canaã, ao protagonizar o seriado Casal 20 (Hart to Hart, 1979-1984) com Robert Wagner.  

Tom Atkins vive Bragdon, o policial inescrupuloso que tentou, de todas as formas, obrigar Peter a admitir algo que ele não havia feito. Atkins participou de inúmeras séries de TV e filmes, entre eles A Bruma Assassina (The Fog, 1980), Fuga de Nova York (Escape From New York, 1981), Creepshow - Show De Horrores (Creepshow, 1982), Máquina Mortífera (Lethal Weapon, 1987) e muitos outros.

No papel de Barney e Rita Parsons, pais do melhor amigo de Peter, que lutaram incansavelmente por justiça, Brian Dennehy e Conchata Ferrell, sempre ótimos (mesmo em papéis coadjuvantes). Dennehy virou presença constante em inúmeras séries e telefilmes a partir da década de 1970, além de ter participado de outros inúmeros filmes para o cinema, como Rambo: Programado para Matar (First Blood, 1982), Silverado (Silverado, 1985), Cocoon (Cocoon, 1985) e muitos outros. Ferrell é mais conhecida como a impagável Berta do seriado Dois Homens e Meio (Two and a Half Men, 2003-2015).

Brian Dennehy

Conchata Ferrell

Jacqueline Brookes, igualmente ótima como Mildred Carston, a advogada de desfesa de Peter, também tem vasto currículo desde a década de 1960, em séries, filmes para a TV e para o cinema como Histórias de Fantasmas (Ghost Story, 1981), A Entidade (The Entity, 1982), Corra que a Polícia Vem Aí 2½ (The Naked Gun 2½: The Smell of Fear, 1991), O Anjo Malvado (The Good Son, 1993) e outros tantos.

Paul Clemens e Jacqueline Brookes


Dirigido por Tony Richardson, prestigiado diretor inglês de teatro e cinema, com uma prolífica carreira de cinco décadas. Richardson tornou-se figura central entre dramaturgos e diretores britânicos na década de 1950. Seus filmes Odeio Essa Mulher (Look Back in Anger, 1959), O Anfitrião (The Entertainer, 1960), Um Gosto de Mel (A Taste of Honey, 1961) e A Solidão do Corredor de Fundo (The Loneliness of the Long Distance Runner, 1962) são considerados clássicos do kitchen sink realism ("realismo da pia de cozinha") — movimento cultural britânico do final dos anos 1950 e início dos 1960 que retratava, de forma crua e honesta, o cotidiano da classe trabalhadora, focando nos dramas domésticos e sociais. Em 1964, ganhou o Oscar de Melhor Diretor por As Aventuras de Tom Jones (Tom Jones, 1963), que também levou o Oscar de Melhor Filme.

Morte em Canaã estreou na TV americana em 1º de março de 1978, na CBS. Chegou à TV brasileira em 28 de abril de 1979 (bastante rápido, para os padrões da época) na Globo. Na década de 1990, foi reprisado na Manchete.