20 julho 2026

Obsessão Fatal (Obsessive Love, 1984)

 Telefilmesquecidos #101

Solteira e com trinta e tantos anos (normal hoje, mas ainda “estranho” na década de 1980), Linda Foster (Yvette Mimieux), funcionária de uma agência de turismo, tímida e apagadinha, é apaixonada pelo personagem central de uma novela de TV, Michael, vivido pelo galã Glenn Stevens (Simon MacCorkindale). O problema é que Linda acredita piamente estar em um relacionamento amoroso com seu amante fictício.

A música de abertura, o hit (na época, ainda bem recente) Every Breath You Take, do The Police, já dá a dica: apesar da pegada romântica da canção, a letra é clara: “Every breath you take / And every move you make / I'll be watching you” (Cada respiração sua / E cada movimento que você fizer / Estarei te observando), e por aí vai.


Yvette Mimieux

Simon MacCorkindale

Após um encontro às cegas desastroso, Linda decide aproveitar sua vida ao máximo: esvazia sua poupança, compra uma passagem de avião para a Califórnia e se presenteia com uma suíte de luxo em um hotel chique. Mente para a mãe, dizendo que vai passar uns dias com o namorado (que, na cabeça de Linda, é Michael, o galã da novela). Depois de uma transformação radical no visual, Linda parte em busca de Glenn/Michael.



Louise Latham e Yvette Mimieux

Entre uma forçadinha de barra aqui e outra ali, ela consegue se aproximar de seu objeto de desejo. Conversa vai, conversa vem e os dois acabam tendo uma rápida aventura. Aí começa a ruína de Glenn, que é casado, igualzinho em Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987). Aliás, corre à boca pequena que este despretensioso telefilme serviu de inspiração para Atração Fatal — e até para uma parte de Uma Linda Mulher (Pretty Woman, 1990)!



Com Glenn voltando à sua vida normal, ao lado da esposa Jackie (Constance McCashin) e do filho Bobby (Jerry Supiran), Linda surta (ainda mais) e, inconformada, passa a persegui-lo e a infernizá-lo. Se as coisas entre Glenn e sua esposa já não andavam bem antes, com as investidas de Linda a coisa degringolou de vez. Encurralado e vendo que o problema mental de Linda é irremediável, Glenn decide que a única maneira de se libertar de sua perseguidora é destruir Michael, o homem que ela realmente ama, isto é, o personagem que ele interpreta na novela. O jeito é convencer a roteirista-chefe a tirar Michael da novela para sempre, fazendo com que o personagem morra em cena. Será o fim da obsessão de Linda?



Constance McCashin e Yvette Mimieux

Dirigido por Steven Hilliard Stern, com uma longa carreira que inclui vários seriados, filmes para a TV e para o cinema, entre as décadas de 1970 e 1990. 



Lainie Kazan e Simon MacCorkindale

O elenco é bastante satisfatório, com Yvette Mimieux e Simon MacCorkindale nos papéis principais. Mimieux, que havia despontado em A Máquina do Tempo (The Time Machine, 1960), era bem-cotada nas décadas de 1960 e 1970 (apesar de ter sido sempre uma atriz do “segundo escalão”), tanto no cinema quanto na televisão. Entre a penca de filmes e telefilmes dos quais participou, estão Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (The Four Horsemen of the Apocalypse, 1962), Terror no Céu (Skyjacked, 1972), Exortação (Black Noon, 1971), O Monstro da Neve (Snowbeast, 1977), Cão do Diabo (Devil Dog: The Hound of Hell, 1978) e muitos outros. Ela também foi produtora-executiva de Obsessão Fatal.


Simon MacCorkindale, assim como seu personagem no filme, também foi galã de TV, com extensa carreira entre as décadas de 1970 e 2000, mas também costuma ser lembrado por longas como Morte No Nilo (Death on the Nile, 1978) e Tubarão 3 (Jaws 3-D, 1983).


Entre os coadjuvantes, Lainie Kazan, figura fácil em seriados americanos e comédias para o cinema, mais lembrada como a tia de Fran Fine (Fran Drescher) do seriado The Nanny (1993-1999) e pelos filmes Casamento Grego (My Big Fat Greek Wedding, 2002) e Casamento Grego 2 (My Big Fat Greek Wedding 2, 2016).

Lainie Kazan

Jerry Supiran, o "irmão" da menina-robô que dá nome ao seriado Super Vicky (Small Wonder, 1985-1989), também faz um pequeno papel em Obsessão Fatal. E, vivendo a mãe da personagem Linda, a veterana Louise Latham, presença constante em seriados dos anos 1960 aos 1980, além de filmes como Marnie - Confissões de uma Ladra (Marnie, 1964) e Louca Escapada (The Sugarland Express, 1974).

Jerry Supiran

Obsessão Fatal estreou na TV americana em 2 de outubro de 1984, na CBS. Aqui no Brasil, estreou em 24 de julho de 1988, na Bandeirantes, onde ganhou algumas reprises nos anos seguintes, antes de cair no esquecimento.



Após o sucesso de Atração Fatal nos cinemas, em 1987, Amor Obsessivo foi lançado em VHS em 1988 (inclusive aqui no Brasil, pelo obscuro selo Wera's Video Produtora). Apesar da premissa semelhante, Amor Obsessivo não chega ao nível "barra pesada" de Atração Fatal, no que diz respeito a cenas de violência, suspense e tensão. Mesmo assim, não deixa de ser divertido ver uma versão televisiva meio canastrona e romantizada da história.



23 agosto 2025

O Dia Seguinte (The Day After, 1983)

Telefilmesquecidos #100

O drama e o horror dos moradores de uma pequena cidade do Kansas, nos EUA, após um ataque nuclear.

A narrativa é apresentada em três partes, com a primeira metade apresentando os vários personagens e suas histórias. A parte do meio mostra o desastre nuclear e a segunda metade detalha os efeitos sobre os personagens.



De início, a população se ocupa de seus afazeres cotidianos tranquilamente enquanto, ao fundo, o noticiário anuncia a guerra. O médico do lugar, Dr. Russell Oakes (Jason Robards), diretor de um hospital local, é o ponto de referência, enquanto a ação vai sendo construída. 



Embora a cidade não tenha sido especificamente o alvo direto, a população sabe que a radiação invasora acabará matando a todos. À medida que os moradores das redondezas vão sucumbindo ao veneno, o fatalismo se abate sobre as família que tentam sobreviver a cada dia.

O medo e o desespero vão se instalando sutilmente, como aconteceria com uma população ameaçada por algo que parece muito distante de sua vida rotineira e cujas consequências não pode avaliar.



Essas consequências terríveis são retratadas de forma perturbadora e convincente, imergindo o telespectador em um clima de devastação e impotência. Os milhares de mortos e feridos, contaminados pela radiação, em um cenário de pesadelo e fim do mundo, repleto de dor, pavor e tudo de catastrófico que se possa imaginar nesse contexto.



Escrito por Edward Hume e dirigido por Nicholas Meyer, foi o telefilme de maior audiência da história. Tornou-se cult, conquistou a atenção da crítica especializada e dos fãs por ser um retrato singular do período imediatamente posterior a uma guerra nuclear.



Antes mesmo de ir ao ar, o telefilme gerou uma polêmica sobre quem teria atacado primeiro: a União Soviética ou os EUA. Nicholas Meyer queria que a resposta permanecesse ambígua, focando nos horrores da destruição nuclear. Sua ideia era que o mal fossem as armas nucleares em geral, não o governo.



A estreia de O Dia Seguinte na TV foi um grande evento midiático. Nenhum patrocinador comprou espaço comercial após o início da guerra nuclear no filme, razão pela qual a última metade foi ao ar sem comerciais.

As estimativas da época calculam a audiência do filme em mais de 100 milhões de americanos. A ABC colocou atendentes trabalhando em linhas telefônicas diretas especiais para acalmar as pessoas durante e após a exibição original.

De fato, a produção da ABC canalizou a consciência do público norte-americano na noite em que o filme estreou na TV dos EUA. No entanto, o canal não estava totalmente preparado para enfrentar a curiosidade e o pânico dos telespectadores no horário nobre. 

No letreiro final do filme, sobre uma tela preta, lê-se: "espera-se que as imagens deste filme inspirem as nações dessa terra, seus povos e seus líderes, a encontrar meios para evitar o dia fatídico.”

Imediatamente após o telefilme ter ido ao ar na ABC, um programa de notícias especial apresentou um debate ao vivo entre o cientista Carl Sagan, que se opunha ao uso de armas nucleares, e o escritor conservador William F. Buckley, que apoiava o conceito de "dissuasão nuclear".

O então presidente dos EUA, Ronald Reagan, assistiu ao filme com exclusividade um mês antes e revelou ter ficado deprimido com o que viu. Tanto que a experiência mudou sua forma de encarar um possível conflito nuclear. 

O Dia Seguinte repercutiu no mundo inteiro. Aqui no Brasil, foi capa da revista Veja pouco depois de sua exibição nos EUA. “O terror nuclear” foi a manchete da edição de 18 de janeiro de 1984, que contava aos leitores do que se tratava o fenômeno O Dia Seguinte.

Para dar um toque documental ao telefilme, o diretor Nicholas Meyer quis escalar atores completamente desconhecidos, embora o elenco inclua os experientes Jason Robards e John Cullum. Entre os novatos estavam Steve Guttenberg, Amy Madigan e Lori Lethin, além de JoBeth Williams e John Lithgow (ambos em início de carreira na época). 



Mesmo sendo um trabalho para a TV, o diretor Nicholas Meyer conseguiu uma projeção infinitamente maior do que em seus trabalhos anteriores para o cinema, Um Século em 43 Minutos (Time After Time, 1979) e Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan (Star Trek II: The Wrath of Khan, 1982).

Curiosamente, o filme O Testamento (Testament, 1983), com a mesma temática de O Dia Seguinte, estreou nos cinemas apenas duas semanas antes do telefilme de Meyer estrear na ABC. Ambas as produções são bastante parecidas em suas intenções, embora executadas de formas bem diferentes uma da outra. (O Testamento foi lançado em VHS no Brasil com o título Herança Nuclear).

Vale lembrar que, apesar de ser 1983, a Guerra Fria estava em seu auge, ainda que não como na década de 1960. 

Apesar de produzido para a TV, O Dia Seguinte foi exibido em diversas salas de cinema ao redor do mundo. Nos cinemas brasileiros, o longa foi exibido em janeiro de 1984, menos de dois meses depois de sua primeira exibição na TV americana. 

"Um mês antes da exibição, a revista Time consagrou-lhe [ao filme] reportagem de três páginas. Com essa consagração, o telefilme veio a ser distribuído nos cinemas de diversos países, inclusive o Brasil, onde foi exibido comercialmente em 1984." (Paulo Perdigão, coluna Os filmes de hoje na TV, jornal O Globo de 9 de abril de 1988).

Carlos Fonseca, em sua crítica sobre o filme publicada na coluna O bonequinho viu, do jornal O Globo de 20 de janeiro de 1984, analisou O Dia Seguinte positivamente:

O roteirista Edward Hume e o diretor Nicholas Meyer nos trazem uma visão realista do apocalipse oriundo de uma possível guerra termonuclear. Sem apelos melodramáticos, objetivamente, e em linguagem simples, quase jornalística, enfocam a síndrome nuclear. (...)

Em outro trecho, o crítico destaca que, "(...) ao contrário de similares no gênero, [o filme] não tem ostentação militar, não apela para efeitos de choque gratuitos. Mostra com realismo a encenação de uma guerra de mísseis materializando o inimaginável."

Fonseca comentou ainda o fato de se tratar de uma produção que extrapolou a tela pequena e alcançou as salas exibidoras, “transformando-se num sucesso, com repercussão na imprensa mundial”. E avalia que, “até certo ponto é uma produção modesta — fator positivo, possivelmente, pois a simplicidade o torna de uma grande empatia para o grande público.”

Também em 1984 O Dia Seguinte se destacou no Emmy, maior premiação da TV americana, recebendo indicações em 12 categorias e vencendo em duas: Edição de Som e Efeitos Especiais.

O Dia Seguinte estreou na TV americana em  20 de novembro de 1983, na ABC. Os brasileiros tiveram que esperar cinco anos para ver a primeira exibição do filme nana TV brasileira, em  9 de abril de 1988, na Globo. A chamada do canal  já anunciava: "Neste sábado, The Day After - O Dia Seguinte. Explode a guerra entre Rússia e os americanos. Mísseis atômicos são disparados. The Day After - O Dia Seguinte. Os horrores de uma guerra nuclear. O filme que abalou milhões de pessoas em todo o mundo. The Day After - O Dia Seguinte. Supercine, neste sábado, depois de Mandala".

Ainda na década de 1980, o filme foi lançado em VHS no Brasil, pela Video Ban. O guia Video News Filmes, da revista Video News (editora Sigla), escrito por Rubens Ewald Filho, registrou o lançamento da fita no mercado brasileiro:

Guia Video News Filmes - Número 32 A - Ano 3 (ed. Sigla)

Nos anos 2000, ganhou edições bem simplórias em DVD no Brasil. Em 2025, no entanto, o filme foi relançado em DVD, no box Clássicos Sci-Fi Pós Apocalipse Vol.2, da Versátil Distribuidora, em versão restaurada, do diretor, com quase sete minutos de cenas adicionais, acompanhada por vídeos extras.