24 julho 2022

Trilogia de Terror (Trilogy of Terror, 1975)

Telefilmesquecidos #50

Como fica evidente pelo próprio título, são três mini-histórias, todas protagonizadas pela atriz Karen Black e escritas pelo prolífico Richard Matheson. Autor de inúmeros e memoráveis contos de terror e suspense, Matheson era um mestre em arquitetar situações assustadoras. As primeiras duas histórias (“Julie” e “Millicent and Therese”) foram adaptadas para a TV por William F. Nolan, enquanto a terceira (“Amelia”) foi adaptada pelo próprio Matheson.

Na primeira (“Julie”), Karen Black é uma tímida professora universitária que passa a ser chantageada por um de seus alunos, Chad (Robert Burton), após ter sido drogada e estuprada por ele. O rapaz a chantageia para que ela o obedeça sem restrição, sob ameaça de expô-la no campus. No entanto, ele logo vai perceber que mexeu com a mulher errada. A inesperada reviravolta no desfecho mostra que esse jogo sexual não é exatamente o que parece.


A segunda história (“Millicent e Therese”) usa uma fórmula manjada e nem tão surpreendente: duas irmãs que dão nome à história (ambas também interpretadas por Karen Black) se encontram em constante disputa e desacordo. Uma é recatada e reprimida, enquanto a outra é devassa e perversa. O Dr. Ramsey (George Gaynes) percebe que aquela batalha esconde mais do que uma simples rivalidade entre irmãs. 


A terceira história (“Amelia”) é um clássico do terror e foi a responsável pelo sucesso do filme. Black interpreta uma mulher que compra um boneco africano que, segundo reza a lenda, contém a alma de um guerreiro selvagem da tribo Zuni. Quando ela acidentalmente desencadeia o espírito do mal que estava preso no boneco, ele ganha vida e a persegue com fúria e violência.


O bloco “Amelia” mostra que um filme de terror feito para a TV pode sim ser assustador, valendo-se da natureza básica deste gênero, em vez de ir pelo caminho dos banhos de sangue e das cenas explicitamente chocantes. Tanto que a luta entre Amelia e o boneco Zuni, que tinha tudo para cair no ridículo, tornou-se um dos maiores segmentos de terror na TV. Os efeitos especiais são primários, mas “Amelia” ainda é a sequência mais pesada, e a cena final cumpre o objetivo de assustar.

Fica claro que a inspiração para Trilogia do Terror veio dos filmes que a produtora Amicus vinha produzindo até então na Inglaterra. O foco aqui está no tormento psicológico (que aterroriza) e não propriamente no terror convencional ou nos sustos reais.


Dirigido por Dan Curtis, que emplacava um sucesso atrás do outro naquele período, à frente de séries e telefilmes. Produziu Pânico e Morte na Cidade (The Night Stalker, 1972), dirigiu A Noite do Estrangulador (The Night Strangler, 1973), Drácula, O Demônio das Trevas (Dracula, 1974), A Mansão Macabra (Burnt Offerings, 1976) e A Maldição da Viúva Negra (Curse of the Black Widow, 1977), entre muitos outros.

Trilogia de Terror é um prato cheio para fãs de Karen Black. O elenco se apoia sobre ela, que desempenha quatro papéis diferentes em três histórias. Mas Karen  havia conquistado o posto de estrela do cinema antes de Trilogia de Terror. Em 1975 ela já era uma atriz respeitada e bem-sucedida. Só naquele ano, estava em dois filmes no cinema: Nashville (1975), de Robert Altman, e O Dia do Gafanhoto (The Day of the Locust, 1974), de John Schlesinger. Trilogia de Terror foi sua estreia em telefilmes. O filme recebeu críticas positivas, ganhou uma legião de admiradores e virou  cult ao longo dos anos, em especial pelo enredo do bloco  “Amelia”.

Os mais atentos também reconhecerão George Gaynes, o pai adotivo de Punky, do seriado Punky, a Levada da Breca (Punky Brewster, 1984-1988), exibido pelo SBT nas décadas de 1980 e 1990.

Trilogia de Terror foi ao ar pela ABC em 4 de março de 1975. Foi o piloto de uma série de histórias de terror no estilo de Além da Imaginação (The Twilight Zone, 1959-1964) que acabou não vingando. No Brasil, foi ao ar pela primeira vez em 18 de março de 1981, na Globo.


E aqui chegamos a um fato curioso. Quando o filme foi exibido pela primeira vez na televisão brasileira, a censura exigiu que o terceiro segmento ("Amelia") fosse totalmente cortado. Por conta disso, a Globo foi obrigada a mudar o título em português para Duas Histórias de Terror (o que fazia a palavra trilogia, do título original, ficar sem sentido). A coluna Filmes na TV, de Fernando Morgado, publicada na Folha de S. Paulo do dia 16 de março de 1981, deu destaque à polêmica estreia do filme na Globo:

Entre as sete estreias da semana, a que deverá despertar maior curiosidade é "Duas Histórias de Terror", que a Globo vai apresentar na noite de quarta-feira. O motivo do interesse ficará por conta de um aspecto extracinematográfico, que nada tem a ver com a qualidade ou falta de qualidade do filme, produção de TV, feita em 1974, na linha horrorífico-psicopatológica, com a atriz Karen Black interpretando quatro papeis diferentes, em episódios abordando temas de terror, sobrenatural, dupla personalidade, autodestruição, enfim, o habitual do gênero. A fita não é má, se comparada com o resto do que se vê na televisão.

A novidade e o absurdo estão no título nacional: "Duas Histórias de Terror". Acontece que o nome original é "Trilogia do Terror" e aí o leitor e o telespectador atentos vão perceber alguma coisa errada, pois como ninguém ignora, "trilogia" quer dizer trio, conjunto de três, para que fique bem claro. Teria o tradutor brasileiro se distraído tanto, a ponto de confundir três com dois? Afinal, trilogia não é palavra das mais comuns. Mas não foi isso que aconteceu. O que houve é que entrou em cena a primária aritmética da Censura brasileira e proibiu um dos episódios na televisão, até agora ninguém sabe por que, obrigando a empresa distribuidora do filme a alterar também a matemática do título, depois de mutilada uma obra que, independentemente de seu valor estético, cultural ou cinematográfico, passa a ser a mais recente vítima da burrice oficial cabocla, que cada vez mais vai deixando em todos a certeza de ser incurável.

Curiosidade: o boneco de “Amelia” voltou em  Trilogy of Terror II (1996), sequência feita para a TV a cabo e mais uma vez dirigida por Dan Curtis. 


A Anchor Bay Entertainment lançou o filme em DVD em 1999, e em VHS em 2000. Em 2006, a Dark Sky Films/MPI Home Video lançou uma edição especial em DVD. O filme também foi lançado em Blu-ray e em DVD remasterizados pela Kino Lorber Studio Classics, em 2018.

Não confundir com Body Bags (1993), telefilme dirigido por John Carpenter e Tobe Hooper e lançado em VHS no Brasil com o título Trilogia do Terror.


06 julho 2022

A Lenda de Lizzie Borden (The Legend of Lizzie Borden, 1975)

Telefilmesquecidos #49

Um dos crimes mais famosos da história americana diz respeito a Lizzie Borden, uma solteirona de 32 anos de Massachusetts, acusada de matar o pai e a madrasta a machadadas, em 1892.

O filme entrelaça cenas de julgamento e flashbacks, revelando, aos poucos, a natureza da relação distorcida de Lizzie (Elizabeth Montgomery) com seu pai, Andrew (Fritz Weaver). Fanático e malicioso, ele vivia repreendendo a filha, mesmo depois de adulta. Chega até a matar os pássaros de estimação de Lizzie, aparentemente pelo simples prazer de infligir dor. 

O filme retrata todos os momentos-chave do registro histórico do julgamento e também usa a licença criativa para explorar a mente de Lizzie. Esta versão mostra Borden como uma mulher que sofreu abuso e revidou em um momento de insanidade temporária. 

Elizabeth Montgomery

Fritz Weaver

Mas as evidências são confusas. Se Lizzie cometeu os crimes, por que não foi encontrado sangue em suas roupas ou em si mesma? Como ela poderia ter cometido assassinatos daquele tipo sem deixar nenhuma evidência física para trás? E, não menos importante: qual teria sido exatamente a motivação de  Lizzie?

Há ainda a presença da governanta Bridget Sullivan (Fionnula Flanagan), que suspeita que Lizzie cometeu os assassinatos, e da irmã de Lizzie, Emma (Katherine Helmond), que teme o pior, mas espera o melhor.

Katherine Helmond

Fionnula Flanagan

No julgamento, um intrincado quebra-cabeça foi reorganizado para expor a possível versão do crime. Culpada ou inocente? No final das contas, não temos certeza de nada, do que é real ou imaginário, e tampouco do estado mental de Lizzie. Embora o filme a retrate cometendo os assassinatos, na vida real ela foi absolvida, principalmente porque nenhum júri em 1893 (ano em que foi julgada) poderia acreditar que uma mulher pudesse cometer tal selvageria. 

Lizzie herdou a propriedade do pai e viveu no luxo e reclusão até sua morte, em 1927. Mas, assim como aconteceria com O.J. Simpson um século depois, Lizzie foi amplamente considerada culpada e condenada ao ostracismo pela sociedade. Seja a especulação verdadeira ou não, o filme faz um trabalho eficaz ao vendê-la, e é altamente envolvente.


Tudo é complementado pelo forte desempenho de Elizabeth Montgomery. Sua Lizzie Borden não é mentalmente estável, mas também não é tola, e há uma frieza assustadora em sua interpretação que faz o telespectador acreditar que ela realmente pode ser culpada. A atuação de Fritz Weaver como seu pai (em flashbacks) também é muito boa.

Montgomery ficou muito conhecida pelo papel de Samantha, no seriado A Feiticeira (Bewitched, 1964-1972). Extremamente popular, A Feiticeira se tornou um clássico da TV. Quando estrelou A Lenda de Lizzie Borden, o término da série ainda era relativamente recente. Elizabeth, no entanto, nem de longe lembrava a carismática feiticeira do seriado, provando que era uma atriz de mão cheia.Seu desempenho ousado contribuiu muito para o sucesso do filme.


A versão do filme para os cinemas europeus mostra Elizabeth Montgomery nua, durante a cena em que ela mata os pais, na qual aparece coberta de sangue, segurando um machado. Na versão da ABC, a edição cuidadosa sugere sua nudez, mas nunca realmente a mostra.

Escrito por William Bast e dirigido por Paul Wendkos. Aliás, Wendkos tem um extenso e respeitável currículo de trabalhos na TV desde a década de 1950, incluindo centenas de episódios de seriados e telefilmes. A Irmandade do Sino (The Brotherhood of the Bell, 1970), A Morte da Inocência (A Death of Innocence, 1971) e Terror na Praia (Terror on the Beach, 1973) são só alguns deles, além do longa Balada Para Satã (The Mephisto Waltz, 1971), feito para o cinema.

O filme rendeu ao roteirista William Bast o Prêmio Edgar de 1975 de Melhor Longa-Metragem/Minissérie de TV. O filme também ganhou dois prêmios Emmy, por Figurino e Edição, e recebeu indicações em três outras categorias: Atriz Principal (Montgomery), Direção de Arte e Edição de Som.


O filme também foi indicado ao Globo de Ouro como Melhor Filme Feito para Televisão, em 1976.

A Lenda de Lizzie Borden, como bem pontuou Paul Mavis, do site Drunk TV, “(...) é um dos melhores filmes feitos para a TV nos anos 1970 — e isso não é pouco, considerando que foi lançado durante a ‘era de ouro’ desse formato.”

A história ganhou várias adaptações, entre elas a minissérie The Lizzie Borden Chronicles (2015), do canal Lifetime, estrelada por Christina Ricci. A ideia surgiu do telefilme A Arma de Lizzie Borden (Lizzie Borden Took an Ax, 2014), também protagonizado por Ricci.

Nos EUA, a estreia do filme foi em 10 de fevereiro de 1975, na ABC. Antes da exibição, um aviso alertava os telespectadores: "Devido ao conteúdo adulto, recomenda-se discernimento dos pais."

No Brasil, foi exibido pela primeira vez em 5 de março de 1977, na Globo.

Segundo Caderno (O Globo), coluna Os filmes da semana - Paulo Perdigão (27/02/1977)

27 junho 2022

Verão do Medo (Stranger in Our House / Summer of Fear, 1978)

Telefilmesquecidos #48

Após perder os pais em um acidente, a jovem Julia (Lee Purcell), vinda de outro estado, é acolhida pelos tios Tom (Jeremy Slate) e Leslie Bryant (Carol Lawrence). Sua prima Rachel (Linda Blair), mais ou menos da sua idade, também a recebe de braços abertos.

As duas têm tudo para se tornarem amigas. Mas, embora pareça tímida e recatada no início, Julia gradualmente passa a se apoderar do espaço de Rachel e a seduzir os que a cercam. Rachel, por sua vez, começa a encontrar evidências de que a prima não é aquela figura tão angelical e indefesa como aparenta. Pior: Julia pode ser uma bruxa. Será que alguém vai acreditar em Rachel?



É divertido ver Linda Blair interpretando a "certinha" da história, para variar. A atriz assumiu o papel depois de passar por uma série de problemas pessoais. Com este filme, ela provou suas habilidades de atuação mais uma vez. Interessante notar como a maioria dos melhores trabalhos de Linda pós-Exorcista foi em telefilmes.

A história de Verão do Medo foi tirada do livro Summer of Fear, da escritora norte-americana Lois Duncan, publicado em 1976. Tornou-se best-seller entre o público juvenil na época. Duncan era uma prolífica autora de livros para adolescentes. Vários de seus romances de mistério foram adaptados para a TV e o cinema, como Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (I Know What You Did Last Summer), publicado originalmente em 1973 e transformado em filme em 1997. No mesmo ano, seu livro Vamos Matar o Professor? (Killing Mr. Griffin, de 1978) virou telefilme, com o título brasileiro O Terror Ronda a Escola.

Explorando o universo da insegurança adolescente, mesclado a um instigante suspense, Duncan lançou as bases para autores como John Saul, autor de sucessos como Suffer the Children (não publicado no Brasil) e  Chorai Pelos Estranhos (Cry for the Strangers), este segundo adaptado para telefilme.

O roteiro de Glenn M. Benest e do produtor executivo Max A. Keller foi fiel ao original de Lois Duncan, tanto que a maior parte dos diálogos do filme foi extraída literalmente do livro.


O telefilme recebeu o nome de Stranger in Our House. Ao ser exibido nos cinemas da Europa (como acontecia com alguns telefilmes), o título original do livro, Summer of Fear, foi resgatado. Teve boa bilheteria internacional.

Verão do Medo é curioso por ser uma das raras vezes em que seu diretor, Wes Craven, abre mão do banho de sangue típico do gênero, e uma de suas marcas registradas. Nem seria possível, por se tratar de um filme feito para a TV. Depois de dirigir dois filmes que ganharam notoriedade, Aniversário Macabro (The Last House On the Left, 1972) e Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977), Craven aproveitou a chance de fazer um filme mais mainstream com Verão do Medo, seu primeiro telefilme.



O longa combina três ótimos elementos: uma boa história, Wes Craven e Linda Blair. É a prova de que (apesar de algumas falhas) nem todos os filmes de suspense feitos para TV são ruins. Com uma história que prende a atenção e uma equipe comprometida, o filme é um ótimo entretenimento, apesar de algumas soluções juvenis e ingênuas para os padrões de hoje.

Estreia de Fran Drescher — a inesquecível babá do seriado The Nanny — na TV. Sua primeira aparição no cinema tinha sido no ano anterior, em Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever, 1977). Em Verão do Medo, ela faz o papel de Carolyn, melhor amiga da personagem de Linda Blair.


A primeira exibição de Verão do Medo na TV americana foi pela NBC, na noite de Halloween, 31 de outubro de 1978. O sucesso de audiência foi tão grande que a rede o reprisou seis meses depois. A CBS então comprou os direitos e o transmitiu mais duas vezes em menos de dois anos.

Na mesma noite, a CBS também apresentou sua estreia para a noite de Halloween, com Cão do Diabo (Devil Dog: The Hound of Hell, 1978). Ambos se tornaram clássicos telefilmes de suspense/terror.

Guia da TV com os anúncio dos dois telefilmes que estreariam naquela noite (31 de outubro de 1978)

Aqui no Brasil, a estreia na TV demorou 15 anos. A Globo o exibiu pela primeira vez à 1 hora da madrugada de 18 de maio de 1993, no Corujão. A resenha na coluna Filmes da TV, publicada naquele dia pela Folha de S. Paulo, alfinetou: "O filme é feito para a TV e inédito. Se fosse tão bom assim, a Globo não o estrearia numa quinta-feira, neste horário."

Quatro meses depois, a Globo o reprisou, às 4 horas da madrugada, também no Corujão. O jornal O Globo não foi menos desdenhoso na resenha da reprise: "Telefilme de terror diet dirigido pelo especialista Wes Craven antes de seu sucesso A Hora do Pesadelo (1984). Não é lá grande coisa." (O Globo, 11 de setembro de 1993).

Foi relançado em blu-ray em 2017 pela Doppelganger Releasing.


30 janeiro 2022

6 filmes esquecidos da Disney da “era de ouro” da Sessão da Tarde

Vez por outra a Sessão da Tarde é tema de postagens saudosistas em blogs e redes sociais. Eu mesmo escrevi um post alguns anos atrás, quando surgiu um boato de que a Globo tinha planos de extinguir a mais tradicional sessão vespertina de filmes da nossa TV. No final das contas, a Sessão a Tarde foi mantida e continua na grade da emissora, apesar de não ter mais — nem de longe — o apelo que tinha nas décadas de 1980 e 1990.

A Sessão da Tarde era um deleite no final dos anos 1980 e começo dos 1990. Um verdadeiro paraíso dos filmes da Disney. Era muito comum ver produções das décadas de 1960 e 1970 na programação. Quem quiser saber sobre a origem da Sessão da Tarde e outras curiosidades, indico dois vídeos: O Adeus da Sessão da Tarde, do amigo Lufe Steffen (canal Naftalufe), e O fim da "antiga" Sessão da Tarde, do amigo Esmejoano Lincol (canal Safra 92).

Na postagem que fiz sobre esse tema, comentei como eram divertidos os filmes da Disney que a Globo costumava exibir nas tardes do canal. Vários deles marcaram minha infância e pré-adolescência. Por outro lado, algumas dessas produções da Disney caíram no esquecimento e quase não são comentadas ou encontradas hoje em dia. Listei, em ordem cronológica, seis dos meus favoritos da época de ouro da Sessão da Tarde:


Aquele Gato Danado

That Darn Cat, 1965

Direção: Robert Stevenson

Apesar de não estar entre os mais icônicos da Disney, a história é muito divertida. O FBI segue um gato, na esperança de que o bichano ajude os detetives a levá-los a uma quadrilha de criminosos. O gato, malandríssimo, dá um banho de esperteza em todos.

Hayley Mills, queridinha dos filmes da Disney dos anos 1960, está serelepe e engraçada no papel de Patti, a dona do “gato danado” do título. Adicione a isso performances inspiradas de Roddy McDowall, Elsa Lanchester e Tom Lowell, além de Dean Jones em seu primeiro filme da Disney (o ator se tornaria estrela regular em produções do estúdio a partir deste filme). 

Aquele Gato Danado é baseado no livro Undercover Cat (1963), do casal Mildred Gordon e Gordon Gordon. O filme estreou no cinema em 2 de dezembro de 1965. Na década de 1990, quando a Disney começou a refazer alguns de seus filmes mais memoráveis, refilmou Aquele Gato Danado. O título brasileiro foi O Diabólico Agente D.C. (1997) e o remake foi estrelado por Christina Ricci, com Dean Jones em papel coadjuvante. 


A Montanha Enfeitiçada

Escape to Witch Mountain, 1975

Direção: John Hough

O menino Tony (Ike Eisenmann) e sua irmã Tia (Kim Richards) são órfãos com dons telepáticos e outros poderes sobrenaturais. O cruel e ambicioso milionário Aristotle Bolt (Ray Milland) os adota, com a ajuda de seu sócio Deranian (Donald Pleasence). O intuito é explorar os poderes das duas crianças e usá-los para um plano diabólico. Ao se mudarem para a mansão de Bolt, os irmãos, que não têm nada de bobos, começam a desvendar o mistério sobre seu nascimento e sobre as reais intenções do velho. 

Baseado no livro homônimo de Alexander H. Key, de 1968, esta adaptação para o cinema fez bastante sucesso na década de 1970. Em 1978 ganhou uma sequência bem-sucedida, Perigo na Montanha Enfeitiçada (Return from Witch Mountain, 1978), com ninguém menos que Bette Davis. Nos anos 1980 e 1990, ainda gerou mais dois filmes feitos para a TV, além do remake A Montanha Enfeitiçada (Race to Witch Mountain), em 2009, estrelado por Dwayne Johnson (The Rock) e com a história modernizada.


O Tesouro de Matecumbe

The Treasure of Matecumbe, 1976

Direção: Vincent McEveety

Aventura com clima dos livros de Robert Louis Stevenson e Mark Twain, mas de forma mais superficial. Não por acaso, também baseou-se em um livro, A Journey to Matecumbe, de Robert Lewis Taylor, publicado em 1961. 

A narrativa se passa em 1869, pré-Guerra Civil. Dois garotos, Davie (Johnny Doran) e Thad (Billy “Pop” Atmore), embarcam em uma verdadeira odisséia para tentar encontrar um velho tesouro escondido nos pântanos da Flórida. 

Mesmo com a atuação de Peter Ustinov, o filme envelheceu mal. Representações raciais questionáveis e reviravoltas cansativas ofuscaram o clima de aventura, que se estendeu demais e deixou a história meio atravancada.          

Além de Ustinov, o elenco é cheio de nomes que estavam em alta nos anos 1970 como Joan Hackett, Robert Foxworth e Vic Morrow. Mas hoje em dia seria inconcebível um filme da Disney que incluísse coisas como alusão ao racismo, assassinato, tentativa de estupro coletivo, tentativa de linchamento pela Ku Klux Klan e profanação de um cemitério indígena.

Se fosse exibido hoje no serviço de streaming Disney+, provavelmente teria um aviso do tipo “Esta obra é apresentada como foi originalmente criada. Pode conter representações culturais ultrapassadas.”


Um Dia Muito Louco / Se Eu Fosse Minha Mãe

Freaky Friday, 1976

Direção: Gary Nelson

De longe um dos meus favoritos daquele período da Disney. Mãe (Barbara Harris) e filha (Jodie Foster) têm suas personalidades trocadas e passam a viver a vida uma da outra. A mãe no corpo da filha e a filha no da mãe. Inspirado no livro Freaky Friday, de Mary Rodgers, lançado em 1972. (No Brasil, foi publicado na década de 1990 pela editora Ática, com o título Que Sexta-feira Mais Pirada!).

Quando Se Eu Fosse Minha Mãe estava em desenvolvimento, George Lucas ofereceu a Jodie Foster o papel de Princesa Leia em Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977), mas a atriz era contratada da Disney e sua mãe decidiu honrar o contrato. “Estou orgulhosa por tê-lo feito. Achei ótima a história do filme”, disse a atriz, à época do lançamento de Se Eu Fosse Minha Mãe. “Muitos dos meus amigos acham que é meu melhor filme. Eu realmente gosto de trabalhar para a Disney.”

O longa gerou todo um subgênero de filmes de troca de corpos na década de 1980, como Tal Pai, Tal Filho (Like Father Like Son, 1987), Quero Ser Grande (Big, 1988) e vários outros nas décadas seguintes.

Jodie Foster era uma superestrela da Disney na década de 1970 e é uma das poucas que ficaram famosas com os filmes do estúdio e se tornaram adultos bem-sucedidos. Outra estrela infantil da Disney que manteve o sucesso na idade adulta foi Kurt Russell.

Charlene Tilton faz uma ponta como uma das amigas da personagem de Jodie Foster. Foi a estreia de Tilton no cinema. Pouco depois ela ficaria muito conhecida pelo papel de Lucy, na novela Dallas (1978-1991).

Ganhou um remake em 2003, protagonizado por Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan. O título em português foi Sexta-Feira Muito Louca.


Candleshoe - O Segredo da Mansão

Candleshoe, 1977

Direção: Norman Tokar

Livremente inspirado em Christmas at Candleshoe (1953), livro de Michael Innes, esta adaptação da Disney mostra o trambiqueiro Harry Bundage (Leo McKern) à procura de um tesouro escondido dentro da mansão Candleshoe. Lá vive a simpática senhora Lady St. Edmund (Helen Hayes em seu último papel para o cinema). 

Com a ajuda da órfã Casey Brown (Jodie Foster), Harry coloca o plano em prática. Casey finge ser a neta desaparecida da velha senhora. A propriedade, falida, sobrevive graças à ajuda do fiel mordomo Priory (David Niven) e de quatro crianças adotivas que se viram para manter Candleshoe.

Em meio a peripécias e descobertas, a personagem de Jodie Foster vai levar adiante o plano do ganancioso Harry? Ou vai mudar de opinião após chegar a Candleshoe?

O elenco maravilhoso de veteranos como Helen Hayes, David Niven e Leo McKern dá um charme especial ao filme. Jodie Foster teve apenas três semanas de intervalo entre o término de Se Eu Fosse Minha Mãe (1976) e o começo da produção de Candleshoe, o Segredo da Mansão (1977). Após este filme, a atriz fez uma pausa de três anos e só voltou ao cinema em 1980, quando estrelou Gatinhas (Foxes, 1979) e O Circo da Morte (Carny, 1980).


Loucuras em Plena Madrugada

Midnight Madness, 1980

Direção: Michael Nankin e David Wechter

A trama gira em torno de uma elaborada caça ao tesouro. Um nerd criador de jogos desafia cinco equipes de sua universidade a rodar Los Angeles da meia-noite ao amanhecer, tentando encontrar pistas enigmáticas. Cada pista leva a outros enigmas que devem ser resolvidos. A equipe que conseguir decifrar todas as charadas e chegar primeiro ao destino final será a vencedora. 

Muitos acidentes, trapaças, confusões e mal-entendidos. Quanto aos personagens, há vários estereótipos. O protagonista, interpretado por David Naughton, era o rosto mais conhecido do filme. O intérprete de seu irmão caçula, no entanto, tornou-se um dos atores jovens mais populares dos anos 1980: Michael J. Fox. Aqui ele faz sua estreia, em um papel pequeno.

Essa comédia frenética (que de realmente engraçada não tem quase nada) ilustra bem aquele período meio confuso de transição da Disney. No finalzinho dos anos 1970 e começo dos 1980, o estúdio queria variar seu catálogo e ir além da oferta infantil e familiar, abocanhando também o público jovem. 

Eu tinha uns 12 anos quando o assisti pela primeira vez na Sessao da Tarde. Muitos anos depois, quando assisti novamente, não passou no teste do tempo. Miraram na comédia juvenil picante, inspirados pelo então sucesso de Clube dos Cafajestes (National Lampoon's Animal House, 1978). Mas Loucuras em Plena Madrugada é muito leve para o público-alvo que pretendia atingir e muito cansativo para o público infantil da Disney.