05 junho 2020

Estreia da TV Manchete com seu pacote de filmes

Há mais de dez anos fiz um post aqui sobre o pacote de filmes do SBT nos anos 1980. Acabou sendo a postagem mais acessada e comentada do blog, para minha surpresa. Algumas semanas atrás, o Luis Filipi Machado (@luis_filipi), leitor fiel do Porcos, Elefantes e Doninhas, me deu uma sugestão: falar sobre os filmes da Rede Manchete. Foi quando me dei conta de que, apesar de ter sido uma emissora de vida relativamente curta, seu pacote de filmes incluía muitas obscuridades que me fascinaram e marcaram minha infância e pré-adolescência.


Fundada no Rio de Janeiro, em 5 de junho de 1983, pelo jornalista e empresário Adolpho Bloch, a Manchete permaneceu no ar até 10 de maio de 1999, quando foi substituída pela RedeTV. Inicialmente, seu catálogo de filmes contava com títulos consagrados e premiados. Na noite de domingo em que fez sua primeira transmissão, a Manchete exibiu um show musical (Mundo Mágico) com vários artistas e, logo depois, o filme Contatos Imediatos do Terceiro Grau, "certamente uma atração mais forte que os gols do Fantástico", como proferido na extensa matéria publicada pela Folha de S. Paulo daquele dia. A escolha do filme eleito para ser o primeiro exibido pela emissora foi recebida com entusiasmo pela imprensa: 

A TV Manchete resolveu mostrar, já na inauguração, que não veio para brincadeira e programou para hoje "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", não só um filme de muito sucesso como de bom nível. Em vista disso, não há hesitação possível: é, disparado, o que há de melhor para hoje.
(Folha de S. Paulo, domingo, 5 de junho de 1983)



Da mesma matéria:

"Contatos Imediatos do Terceiro Grau" custou à Manchete 800 mil dólares e isso acaba, segundo Rubens Furtado [diretor-geral da emissora], com a história de "vamos passar enlatados porque sai mais barato". De acordo com a programação, diariamente serão exibidos longas-metragens — foram adquiridos 262 destes filmes no exterior — todos, na opinião do diretor-geral, de "alto nível". Estão programados filmes como "Momento de Decisão", "Kagemusha", "Julia", "Norma Rae" e "A Noviça Rebelde".


Dois dias depois, o jornalista Hugo Gomez, do Jornal do Brasil, fez um balanço sobre a exibição do filme na estreia da emissora:

A TV Manchete precisa criar com urgência um sinal sonoro que prepare o telespectador para a entrada dos anúncios. E dosar melhor os intervalos entre os comerciais. O primeiro segmento de "Contatos Imediatos de Terceiro Grau", o filme de estreia, durou apenas cinco minutos.



Em outro trecho:

A nova emissora tem filmes que agradarão a todos os paladares e serão exibidos num horário acessível (21h30min). Esta semana serão mostrados Julia, que deu um Oscar a Vanessa Redgrave, e no sábado Shirley MacLaine e Anne Bancroft esbanjam talento em Momento de Decisão, com Mikhail Baryshnikov, Márcia Haydée, Fernando Bujones e outros.

E conclui, sobre a transmissão de Contatos Imediatos do Terceiro Grau: "Na tela grande e com som Dolby, pode ter funcionado. Na tela pequena, simplesmente não houve contato." (Jornal do Brasil, 7 de junho de 1983)


Ao longo dos anos em que a Rede Manchete esteve em atividade, sua respeitável lista de filmes foi minguando e passou a contar, basicamente, com refugos da Globo, antigos clássicos em preto e branco, telefilmes ou produções obscuras. Foi aí que os filmes do canal me fisgaram. 


(Continua na próxima postagem.)

29 maio 2020

O Segredo de Kate (Kate’s Secret, 1986)


Telefilmesquecidos #19

"Ela vivia num mundo de sonhos, numa fantasia perigosa. O Segredo de Kate, um mistério que poucos conheciam." Assim anunciava a (deliciosamente) apelativa chamada do SBT para este telefilme que marcou época no Brasil. 


Kate (Meredith Baxter Birney) é uma dona de casa de classe média que leva uma vida aparentemente "normal". Esposa dedicada e mãe competente, o tal segredo ao qual o título se refere é que Kate sofre secretamente de bulimia nervosa (transtorno caracterizado pelo desejo incontrolável de ingerir uma quantidade excessiva de alimentos e provocar o vômito logo em seguida, para não ganhar peso).

Mesmo bonita, com uma família saudável e vida conjugal estável, Kate esconde muitas inseguranças. Sempre acha que pode emagrecer um pouco mais (mesmo já sendo esbelta, magra e linda) e sente-se ameaçada por outras mulheres, pois acha que o marido vai preferi-las.


Ao longo da história, vemos como a fachada de vida saudável da personagem esconde uma compulsão que pode ser fatal. Kate — como acontece com as pessoas que sofrem de bulimia — possui uma visão distorcida da sua aparência física e se preocupa excessivamente com seu peso corporal, o que afeta diretamente sua autoestima e suas relações familiares.

Dirigido por Arthur Allan Seidelman, o filme foi uma tentativa de retratar de forma realista a bulimia. Na época, o tema, ainda nebuloso, não era corriqueiro em telefilmes. Meredith Baxter Birney, experiente em televisão, está muito bem como Kate, assim como Ben Masters, também eficaz como o marido "perfeito", bonito e bem-sucedido, mas alheio à doença de sua esposa.





Mais de três décadas depois, pouca coisa mudou, de fato. Os mesmos velhos ideais que levam esses personagens à compulsão só pioraram, com a profusão de pílulas, remédios e produtos de dieta disponíveis hoje em dia e anunciados a todo momento na mídia e nas redes sociais.


O Segredo De Kate estreou na tevê americana em 17 de novembro de 1986, pela NBC. Aqui no Brasil, foi exibido no SBT "pela primeira vez na televisão" (como anunciavam as chamadas de filmes da emissora) em 26 de julho de 1989. Fazia parte do pacote de inéditos daquele ano, adquirido pela emissora de Silvio Santos.



24 maio 2020

A Iniciação de Sarah (The Initiation of Sarah, 1978)

Telefilmesquecidos #18

Há exatos 40 anos este telefilme clássico estreou na tevê brasileira. Exibido pela Rede Globo em 24 de maio de 1980, um sábado, na extinta sessão Primeira Exibição, logo depois da novela das 8 (Água Viva, na época). A Iniciação de Sarah tornou-se um daqueles campeões de reprise na tevê. Quem acompanha este blog sabe que menciono esse telefilme com certa frequência. Tanto que o nome do blog foi tirado de uma icônica fala do filme. O post de hoje é inteiramente dedicado a ele.



Impossível falar de A Iniciação de Sarah sem tocar em Carrie, a Estranha (Carrie), de Brian De Palma. Carrie descortinou um verdadeiro filão desde que estreou no cinema, em 1976. A partir de então, muitos filmes de terror valeram-se do mesmo mote da telecinesia (a habilidade de mover objetos por força paranormal, sem contato físico direto). Só em 1978 foram quatro longas: Jennifer (Jennifer), A Fúria (The Fury), Patrick (Patrick) e O Toque da Medusa (The Medusa Touch). E após o sucesso de Carrie no cinema, a televisão — sempre inclusiva no que diz respeito aos modismos — estava pronta para a combinação explosiva de telecinesia, angústia adolescente e vingança. Naquele mesmo ano de 1978, em 6 de fevereiro, o canal norte-americano ABC apresentou A Iniciação de Sarah.  


O diretor Robert Day, tarimbado na televisão, já tinha em sua lista diversos telefilmes, entre ele House on Greenapple Road (1970), Sortilégio (Ritual of Evil, 1970) e Caçada Mortal (Death Stalk, 1975), além de vários episódios de séries muito populares da época. Apesar de sua inspiração óbvia em Carrie, A Iniciação de Sarah, longe de ser uma cópia desleixada, é dirigido de forma admirável por Day. O roteiro adotou uma tática um pouco diferente do filme de De Palma e situou a personagem-título na faculdade, o que acabou fornecendo uma forte dose de 'empoderamento feminino', termo que ainda não existia naquela época. E Sarah, ao contrário de Carrie, é uma jovem madura, inteligente e consciente do mundo ao seu redor.

Boca Raton News, 6 de fevereiro de 1978

O filme garante o entretenimento do começo ao fim, principalmente devido ao ótimo elenco. Kay Lenz é a tímida Sarah, que vive na sombra da extrovertida irmã Patty (Morgan Brittany). Sarah é adotada e, embora ela e Patty sejam muito amigas e íntimas, ela se sente deslocada, acanhada. Entrar em Alpha Nu Sigma (ANS), a irmandade mais chique e bem conceituada do campus, significaria que as irmãs poderiam ficar juntas. Mas as esnobes e fúteis garotas da ANS, lideradas pela cruel Jenniffer Lawrence (Morgan Fairchild) olham para Sarah com desdém e sarcasmo. Patty, por outro lado, é recebida com entusiasmo por elas.



Sarah se candidata também à Phi Epsilon Delta (PED), a irmandade onde as descoladas, as "esquisitas", as nerds e as fora do circuito moram. O casarão da PED, triste e meio soturno, nem de longe tem o glamour da ANS. Como já era de se esperar, Patty é aceita em três irmandades, incluindo Alpha Nu Sigma. A única que aceitou de Sarah foi Phi Epsilon Delta.

Como caloura de Alpha Nu Sigma, Patty tem que passar por um teste de merecimento. Uma brincadeira cruel, espécie de trote. Jenniffer exige que Patty declare à Sarah, na frente de todos, no meio do campus, sua lealdade à ANS: "Manterei os altos padrões de Alpha Nu Sigma. Não comerei caminhando em público. Não vou me associar com PED — Porcos, Elefantes e Doninhas — em nenhum lugar."



Em inglês é pigs, elephants and dogs (porcos, elefantes e cachorros). Mas, para a dublagem em português na TV, precisavam encontrar um nome de animal começando com a letra d, que justificasse as iniciais PED. A solução foi substituir cachorros por doninhas. Daí a famosa frase "porcos, elefantes e doninhas", em uma das cenas mais memoráveis do filme. 

As garotas da PED são lideradas pela excêntrica Sra. Hunter (Shelly Winters, sempre ótima), que demonstra interesse imediato em Sarah. A Sra. Hunter também é conhecida por se interessar por bruxaria. Aos poucos, tenta atrair Sarah para esse universo, ao perceber que a garota possui habilidades sensoriais ocultas. A velha usa esses poderes para retomar a velha rixa existente entre PED e ANS, e Sarah se torna um joguete na disputa, que envolve vingança e bruxaria.



O filme tem muito a seu favor e, em grande parte, funciona porque os personagens oprimidos são carismáticos e empáticos. Tisa Farrow (irmã caçula de Mia Farrow) interpreta Mouse, uma jovem tão doce, recatada e melancólica que dá vontade de levá-la para casa. E ela faz jus ao apelido: parece mesmo um ratinho assustado. Em uma das melhores cenas, Sarah defende a amiga Mouse da crueldade sádica de Jenniffer Lawrence: "Assim que eu cheguei aqui, conheci você [Jenniffer] e achei bonita. Mas eu estava enganada. Sua única preocupação é ser popular. Todo mundo dá tudo a você! Não faz esforço para nada! Nem para fazer amizade. Não liga para o sentimento das pessoas, nao liga a mínima para nada a não ser sua aparência. Vou te dizer uma coisa, Jenniffer: um dia, talvez, essas garotas estúpidas que riem da sua crueldade vão enxergar você feia como é! E vão odiar você, virar as costas pra você. E não lhe restará nenhuma amiga!"


Atriz de fibra, Kay Lenz foi uma feliz escolha para o papel de Sarah. Embora tenha demonstrado seu talento nas telonas em Interlúdio de Amor (Breezy, 1973) — dirigido por Clint Eastwood — Moving Violation (1976) e A Casa do Espanto (House, 1986), Kay trabalhou principalmente na televisão. Ganhou dois Emmy Awards e várias outras indicações por papéis na TV. Mesmo atraente ela conseguiu, de fato, encarnar o “patinho feio”, o jeito tímido e retraído que muitas jovens têm enquanto tentam se encontrar no ambiente da faculdade. É ela quem consegue, sem planejar, reunir as meninas do PED de uma maneira que ninguém havia sido capaz antes. A personagem possui, de fato, uma força oculta que não depende de telecinesia ou de poderes paranormais. Sua incapacidade de manter seus poderes afastados é o que torna trágico o desenrolar e o consequente desfecho da história.



As duas Morgans do filme (Fairchild e Brittany) estavam igualmente ótimas. E ainda tem a grande Shelley Winters, que sabia, como poucas, interpretar senhoras cruéis e manipuladoras por trás da aparência insuspeita e até dócil. Robert Hays, o impagável piloto atrapalhado de Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu! (Airplane!, 1980), ganhou em A Iniciação de Sarah seu primeiro papel de (certo) destaque, como o namorado de Jennifer Lawrence. (Para informações adicionais sobre Morgan Fairchild, ver o post sobre o telefilme Baseado Numa História Irreal).



No roteiro original, as garotas da irmandade eram transformadas em quadrúpedes. Mas os executivos da ABC relutaram diante da ideia e apontaram que essa e outras sequências envolvendo mais efeitos especiais estavam além dos custos da produção e das limitações de filmagem disponíveis na época.

Não é de se surpreender que o filme ainda tenha boa repercussão hoje — não apenas entre os telespectadores que tiveram a sorte de vê-lo pela primeira vez em sua exibição original, mas também entre os novos iniciados, que continuam a descobri-lo mais de quatro décadas depois. Eu o descobri em 1996, quando o gravei da Sessão Livre, exibida pela Bandeirantes, no começo da tarde. Foi "amor à primeira vista".


A Iniciação de Sarah chegou a ser lançado em vídeo em alguns países, inclusive aqui no Brasil, no final da década de 1980, pela Video Ban. Nos Estados Unidos, é um dos telefilmes mais cultuados dos anos 1970. E há uma razão para isso: a história é atemporal e as atuações ótimas. No geral, dá até para dizer que o filme envelheceu de forma mais do que digna. É claro que o visual pode parecer datado hoje, mas a mensagem de aceitação e a emoção da vingança não envelhecem.


Anúncio da Video Ban: A Iniciação de Sarah estava entre os destaques (revista Set)

Ganhou um remake homônimo em 2006, também para a TV, exibido em 22 de outubro daquele ano pela rede ABC. Apesar da participação de Morgan Fairchild, trata-se de um remake meio fajuto, pois aproveitou apenas pontos do telefilme original, mudando completamente a personalidade dos personagens e a história.

Jornal O Globo, 24 de maio de 1980

Jornal do Brasi, 24 de maio de 1980

Jornal Folha de S. Paulo, 24 de maio de 1980


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A Iniciação de Sarah em outras postagens:



7 anos do blog (05/06/2015)



20 maio 2020

Mensagem para Minha Filha (Message to my Daughter, 1973)

Telefilmesquecidos #17

Miranda Thatcher (Kitty Winn) está passando por uma fase conturbada no fim de sua adolescência. Para piorar, o relacionamento com seu pai John (Martin Sheen) anda tenso. Após Miranda quase morrer em um acidente de carro, o pai decide finalmente entregar à filha uma caixa que sua falecida mãe, Janet (Bonnie Bedelia), pediu que ele lhe desse na hora certa. 


A caixa contém uma série de fitas que a mãe de Miranda fizera aos 21 anos, quando soube que iria morrer antes do crescimento da garota. No intuito de poder dar à filha a proximidade que elas não teriam devido à sua morte prematura, Janet legou as fitas ao marido, para que Miranda tomasse conhecimento depois de crescida.

Confusa, Miranda sai de casa e passa a viajar sem rumo pelos Estados Unidos, enquanto ouve as gravações de sua mãe, que a levam a uma jornada emocional de descobertas, felicidades e tristezas. Ao longo da narrativa, acompanhamos a jovem enquanto ela escuta as fitas e vamos, assim, vendo a verdadeira história da gravidez de Janet em flashback. 




Com reações de surpresa, revolta e, por vezes, comoção, Miranda toma conhecimento da vida de seus pais quando jovens, enquanto eles lidavam com o diagnóstico da doença de Janet e coma necessidade da mãe de deixar algum registro para a filha. Outras revelações importantes também são feitas ao longo do caminho.

Durante da jornada, a sabedoria transmitida pelas fitas ajuda a acalmar as angústias e dificuldades de Miranda e a faz encarar sua vida e sua relação com o pai de forma menos ressentida e mais madura.



Pode-se dizer que Mensagem para Minha Filha é um telefilme à frente de seu tempo, já que, naquela época, esse tipo de história — do pai ou mãe que morreu e deixou um legado gravado ou filmado para o(s) filho(s) — era novidade.

Martin Sheen

Bonnie Bedelia

Kitty Winn

O trio de protagonistas funciona muito bem. Martin Sheen teve uma prolífica carreira na TV nas décadas de 1960 e 1970. Participou de dezenas de seriados e telefilmes antes de se consagrar como um dos mais requisitados atores de Hollywood. Mesmo depois do reconhecimento, continuou sua carreira paralela na TV. Bonnie Bedelia também era figura frequente na TV americana. Kitty Winn, apesar de ter se dedicado muito mais ao teatro do que ao cinema e à TV, era um rosto familiar nos anos 1970. Seu filme mais conhecido é O Exorcista (The Exorcist), no qual atuou ao lado de Ellen Burstyn e Linda Blair. Curiosamente, Mensagem para Minha Filha estreou na TV americana em 12 de dezembro de 1973, pela CBS. Exatamente duas semanas depois, O Exorcista estreou nos cinemas dos EUA, tornando-se fenômeno mundial em pouco tempo.

Dirigido por Robert Michael Lewis, Mensagem para Minha Filha foi muito bem recebido pelos telespectadores americanos. Tanto que a história do telefilme foi vertida para livro, lançado pela Pyramid Books em março de 1975. Aqui no Brasil, o filme foi exibido pela primeira vez em  26 de setembro de 1976, na Globo, tendo ganhado as usuais reprises ao longo das madrugadas da década de 1970.