15 maio 2020

Grito de Morte (Death Scream, 1975)

Telefilmesquecidos #16

Teledrama livremente inspirado em uma história verídica: o estupro e assassinato da jovem Kitty Genovese, ocorrido em 1964, em Nova York. O crime foi testemunhado por quinze de seus vizinhos, que ouviram tudo e nada fizeram para ajudar,  recusando-se a cooperar com a polícia. Todos fecharam suas janelas e portas e fingiram não ouvir nem ver nada, enquanto a jovem era esfaqueada e gritava por socorro.


À frente do caso está o detetive Nick Rodriguez (Raul Julia, ótimo no papel), que faz de tudo para descobrir o assassino. O filme trata justamente das investigações policiais do caso, apesar da relutância das testemunhas, que se omitem para não serem envolvidas.




Na época, o assunto ganhou interesse quando ficou notório que em Nova York, por exemplo, ocorreram muitos casos semelhantes. Aliás, no mundo todo, esse tipo de história, marcada pela apatia pública, acontece até hoje e mexe com o inconsciente coletivo. O enredo de Grito de Morte toma algumas liberdades com os fatos, mas a história ainda choca, mesmo tantas décadas depois.


Além do protagonista Raul Julia, um elenco de figurinhas carimbadas de telefilmes compõem este thriller, em papéis pequenos: Tina Louise, Art Carney, Cloris Leachman e Kate Jackson (a Sabrina de As Panteras), entre outros.  





Estreou nos Estados Unidos pelo canal ABC, em 26 de setembro de 1975. Aqui no Brasil, foi exibido pela primeira vez na Globo, em 5 de dezembro de 1976 (um tempo relativamente curto para a época, ppis os telefilmes americanos demoravam, no mínimo, dois anos para chegarem às tevês brasileiras).

Filmado como Homicide, foi reprisado na TV americana com o título The Woman Who Cried Murder e lançado em VHS nos EUA como Streetkill.



13 maio 2020

Castelos de Areia (Sandcastles, 1972)

Telefilmesquecidos #15

Um dos telefilmes mais peculiares e estranhamente fascinantes. Não há muitos no gênero como Castelos de Areia — o que considero uma coisa boa. O enredo é tão artificial e exagerado que, por alguma razão "telefilmística", acaba funcionando e nos fazendo embarcar na improvável narrativa. 


A história gira em torno de um restaurante de beira de estrada, o Papa Bear. Seu simpático proprietário, Alexis (Herschel Bernardi), torna-se o melhor amigo de Michael (Jan-Michael Vincent), um jovem de aparência angelical, artista, sonhador e sem destino. Alexis o coloca para trabalhar em seu estabelecimento, apesar dos problemas financeiros do empreendimento. 



Michael é encarregado de levar os cheques do restaurante ao banco e retornar com o dinheiro sacado, que pagaria as dívidas do Papa Bear. No entanto, sem nenhum motivo especial, Michael troca o cheque administrativo por dinheiro e foge. Depois, pensa bem, percebe a insensatez de seu ato, arrepende-se e decide voltar para o Papa Bear e devolver o dinheiro, pegando uma carona com um desconhecido. 


Para infelicidade de Michael, o tal sujeito que deu a carona, Frank (Gary Crosby),  sofre um acidente com um carro dirigido por uma jovem e inocente musicista, Jenna (Bonnie Bedelia). Michael é jogado para fora do carro, desacordado, e Frank foge do local. Enquanto Jenna conforta Michael, que agoniza, os dois experimentam o amor à primeira vista. Jenna tem a aparência da garota que sempre surgia nos devaneios românticos de Michael.



Alexis chega ao local logo após o corpo de Michael ser removido pelas autoridades e encontra Jenna perturbada. Sem saber da conexão da jovem com Michael, Alexis a leva para o restaurante, para que a moça se acalme e se recomponha. As circunstâncias deixam Alexis com a impressão de que Michael fugiu com os 20 mil dólares. Mais rocambolesco, impossível. 

Jenna passa a vagar pela praia nas redondezas do Papa Bear, onde conhece Michael — a quem ela não reconhece pelo acidente — e eles passam a ter encontros românticos, quase platônicos. O rapaz costuma ficar ali, fazendo esculturas de areia. Entre elas, grandes castelos e até a mulher de seus sonhos. Michael, então, lentamente se dá conta de que "ressuscitou" temporariamente para consertar as coisas no Papa Bear e reparar seu erro momentâneo.



Ou seja: trata-se de uma história de amor sobrenatural sobre um fantasma que retorna dos mortos para concluir negócios inacabados, por assim dizer. Bonnie Bedelia e Jan-Michael Vincent estão convincentes como o casal que vive um amor verdadeiro, porém impossível, talvez por causa da inocência doce e quase pueril com que desempenham seus papéis (que seriam difíceis de engolir, mas a gente engole porque é um telefilme). Ambos eram rostos jovens e já promissores na TV americana, e emendavam um trabalho no outro. Vincent faleceu ano passado. Bedelia continua na ativa. A atriz tornou-se conhecida nos anos 1980 por interpretar a mulher de Bruce Willis no filme Duro de Matar (Die Hard, 1988) e suas sequências.

Dificilmente teríamos hoje um telefilme tão excessivamente açucarado e sentimental feito Castelos de Areia. Como admirador confesso desse tipo de produção, reconheço que havia uma espécie de autoconsciência escalafobética nesses filmes. Sabemos que são melosos, alguns até canhestros. Mas a ideia é simplesmente aceitar que eles podem nos entreter muito. E aquela seriedade afetada conferia um clima ainda mais divertido. Isso é o que os torna especiais, na minha opinião. 



Dirigido por Ted Post (que dirigiu os ótimos O Bebê e Magnum 44 no ano seguinte), Castelos de Areia caiu na obscuridade, mas ficou marcado por sua técnica de filmagem. Foi o primeiro filme para a TV gravado com o método de videotape de câmera única, processo raramente usado em filmes.

Estreou na TV americana pelo canal CBS, em 17 de outubro de 1972. No Brasil, apareceu na Globo em 6 de novembro de 1975.





02 abril 2020

O Rapaz da Bolha de Plástico (The Boy in the Plastic Bubble, 1976)


Telefilmesquecidos #14

Apesar desta coluna ser sobre "telefilmes esquecidos", O Rapaz da Bolha de Plástico é uma exceção aqui. Não é exatamente esquecido. Pelo contrário, é um dos telefilmes dos anos 1970 mais lembrados, e um dos favoritos daquela geração. 


Estrelado por John Travolta, em um de seus primeiros papéis importantes, o filme foi livremente baseado nas histórias reais dos meninos David Vetter e Ted DeVita, que nasceram sem o funcionamento do sistema imunológico, razão pela qual precisavam viver permanentemente confinados em tendas estéreis de isolamento. As experiências da vida dos dois garotos foram suprimidas em um único personagem, Tod Lubitch, vivido por John Travolta.

O filme começa com o nascimento de Tod. Seus pais (interpretados por Robert Reed e Diana Hyland), que já haviam perdido um filho, ficam arrasados ​​ao saber que Tod nasceu "sem imunidade alguma". Na prática, se alguém espirrasse perto do garoto, por exemplo, ele poderia cair morto. Por isso não podia, de maneira alguma, ser exposto a germes ou vírus de qualquer espécie. 

Robert Reed e Diana Hyland
Embora Tod passe os primeiros quatro anos de sua vida no hospital, seus pais tomam a decisão de tentar cuidar dele em casa, com o devido isolamento do garoto na "bolha de plástico" montada em seu quarto. Tod se torna uma espécie de celebridade mirim local, atraindo todo tipo de curiosidade.

Doze anos se passam, Tod agora é um adolescente de 17 anos (embora seus pais não pareçam ter envelhecido um dia sequer) e vive totalmente adaptado à sua realidade. Mesmo bonito e de aparência saudável,  o rapaz sonha em, um dia, sair da "bolha" (seu quarto, totalmente adaptado, funciona como uma espécie de incubadora, de forma que o rapaz esteja sempre isolado e jamais tenha contato físico ou toque qualquer pessoa ou objeto externo).



Tudo corria como de costume até Tod descobrir-se apaixonado por sua vizinha Gina (Glynnis O'Connor). No começo a garota não o leva muito a sério, mas aos poucos começa a entrar no mundo do rapaz e a se interessar por ele. Tod, por sua vez, passa a se questionar e a querer viver em sociedade, enquanto espera que a ciência encontre a cura para seu problema. Frustra-se, revolta-se mas não consegue negar o desejo de viver seu amor com Gina. O que fazer? Seguir seu coração e enfrentar a morte prematura (que é quase certa)? Ou continuar em sua bolha protetora para sempre?

Gina (Glynnis O'Connor)

Os dois meninos das histórias reais, nas quais o filme se inspirou, tiveram uma vida curta. David Vetter morreu aos 12 anos de idade. Ted DeVita chegou à adolescência, morrendo aos 18 anos. Por se tratar de uma obra de ficção, O Rapaz da Bolha de Plástico se exime da "obrigação" de definir o destino do personagem, deixando em aberto qualquer resolução real. A ideia é atender aos propósitos dramáticos do filme, e aí se inclui uma generosa dose de açúcar e romance. Além disso, o fator kitsch dos anos 1970 é um bônus. Como resistir ao cabelo meticulosamente escovado de Travolta, mesmo dentro de sua bolha?



Aliás, grande parte do carisma do filme pode ser atribuída ao carisma do próprio Travolta, que já era um jovem galã da TV graças ao seriado Welcome Back, Kotter, que havia estreado no ano anterior e era extremamente popular nos EUA. A carreira de Travolta mostrava-se cada vez mais promissora. 

À esquerda, em Welcome Back, Kotter (1975); à direita em Carrie, a Estranha (1976)
Nos bastidores, um burburinho aguçou o set de filmagens. Travolta e Diana Hyland apaixonaram-se quase que instantaneamente durante as filmagens. O fato de representarem mãe e filho no filme não impediu que os dois oficializassem o namoro. Ele tinha 22 anos e ela 40. No entanto, o relacionamento, apesar de intenso, não foi longe. Diana faleceu no ano seguinte, em decorrência de um câncer de mama, deixando Travolta arrasado. A atriz ganhou um Emmy póstumo por sua atuação no filme. 

Diana Hyland e John Travolta
O Rapaz da Bolha de Plástico foi um enorme sucesso de audiência na TV e recebeu ótimas críticas. Além da série Welcome Back, Kotter, Travolta havia lançado um LP que já aparecia nas paradas e — mais importante — estava estreando um filme no cinema, Carrie, a Estranha, de Brian De Palma, sucesso imediato de bilheteria.

O LP intitulado John Travolta (1976)
Randal Kleiser, que dirigiu O Rapaz da Bolha de Plástico, faria outra parceria com Travolta dois anos depois, ao dirigir Grease - Nos Tempos da Brilhantina, musical que entrou para a história do cinema. Kleiser havia iniciado sua distinta carreira como diretor de televisão. Sua inclinação por histórias "sociais" levou-o a dirigir, também em 1976, o telefilme Retrato de Uma Adolescente Fugitiva (Dawn: Portrait of a Teenage Runaway), que foi ao ar dois meses antes de O Rapaz da Bolha… 


Travolta recebeu aproximadamente 750 mil dólares pelo filme, um valor inimaginável para um ator jovem e em fase inicial, ainda mais em um telefilme. Mas os produtores estavam certos. Apenas um ano após a transmissão de O Rapaz da Bolha de Plástico na TV, Travolta saltaria para o estrelato nas telonas com Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever) e ganharia o mundo.


A edição brasileira do DVD (com o título rebatizado para O Menino da Bolha de Plástico) é paupérrima, dessas vendidas em bancas, que mais parecem pirataria barata. Mas tem uma compensação: traz a dublagem clássica (para os aficionados).



O filme estreou no canal americano ABC, em 12 de novembro de 1976. Aqui no Brasil, a estreia foi na Globo, na noite de 28 de janeiro de 1978, na extinta sessão Primeira Exibição, logo depois da novela O Astro. O crítico da parte de filmes na TV do Jornal do Brasil escreveu, em tom desdenhoso: "O inédito O Rapaz da Bolha de Plástico talvez interesse aos sentimentais". Na mesma edição do jornal, ainda disse sobre o filme: "Dificilmente será grande coisa, mas pode ser visto." A Folha de S. Paulo foi mais positiva: "Bom argumento em produção despretensiosa, atraente pelo tema."



29 março 2020

Baseado Numa História Irreal (Based on an Untrue Story, 1993)


Telefilmesquecidos #13

A bela e bem-sucedida perfumista Satin (Morgan Fairchild), prestes a lançar sua nova fragrância, Puppy, descobre um gravíssimo problema: a perda de seu olfato. Ou, como explica seu médico, em termos técnicos, "uma disfunção nos nervos olfativos conhecida como anosmia". Para recuperar o olfato, a magnata dos perfumes precisa encontrar um doador na família, para um transplante do nervo olfativo. É quando ela descobre que é adotada. 


Sai, então, em busca de suas verdadeiras raízes e descobre suas duas irmãs, de quem havia sido separada no nascimento. Cada uma com a vida mais confusa que a outra, envolvidas em crimes e confusões. Mas são elas que, em meio a muitas reviravoltas e corridas contra o tempo, ajudam a resolver o doloroso mistério. 

A idéia é satirizar os famosos telefilmes "baseados em uma história real", com direito a todos os (irresistíveis) clichês e tramas paralelas rocambolescas. Pode parecer tarefa difícil parodiar um gênero que já é, por si só, um festival de clichês. Um telefilme americano debochando dos telefilmes americanos. Mas este aqui consegue. Tanto que rende inúmeros momentos hilários e muitas piadas rápidas (se piscar, você perde uma).




Morgan Fairchild está impagável no papel da trágica heroína Satin. O curioso é que a atriz foi uma das mais emblemáticas dos telefilmes, durante as décadas de 1970 e 1980, além de ter sido figurinha fácil nos seriados da época.




Com seu rosto de boneca de porcelana e olhar felino, Morgan foi considerada uma das atrizes americanas mais bonitas dos anos 1970. Começou a carreira como dublê de Faye Dunaway nas filmagens de Bonnie and Clyde - Uma Rajada de Balas (1967). Depois disso, fez várias participações em diversas séries de TV, até despontar como a cruel Jennifer Lawrence em A Iniciação de Sarah (1978) — o telefilme de onde tirei o nome para este blog. No mesmo ano, ganhou ainda mais visibilidade ao participar de um episódio da segunda temporada de Dallas, como Jenna, a amante do vilão J. R. (Larry Hagman).

Em 1978: à esquerda, em A Iniciação de Sarah; à direita, em Dallas. 

Quase sempre interpretando papéis de má ou de mulher fatal, Morgan garantiu seu posto na TV ao longo de mais de quatro décadas, e ainda continua na ativa. Engajada, está sempre atuando em prol de causas sociais, ambientais e políticas.

Morgan no passado e atualmente
As irmãs da personagem Satin em Baseado Numa História Irreal não ficam atrás, vividas por Ricki Lake (queridinha de John Waters) e Victoria Jackson (do Saturday Night Live). Até Dyan Cannon entrou na brincadeira, no papel da mentora executiva de Satin.  

Com Ricki Lake (à direita)

Victoria Jackson

Dyan Cannon


O filme, apesar de engraçadíssimo, não é muito conhecido aqui no Brasil. Chegou a ser lançado em vídeo, mas permanece obscuro para o grande público. Dirigido por Jim Drake, estreou na TV americana em 20 de setembro de 1993, no canal Fox. Aqui no Brasil, apareceu em 7 de fevereiro de 1998, na Globo, e foi bastante reprisado nas madrugadas da emissora.


23 fevereiro 2020

A Dália Negra (Who Is the Black Dahlia?, 1975)


Telefilmesquecidos #12

A aspirante a atriz Elizabeth Short, apelidada pelos jornais de "Dália Negra" (por causa de seu cabelo preto e seu suposto gosto por roupas pretas), foi brutalmente assassinada aos 22 anos. O caso é real, aconteceu nos Estados Unidos, em 1947, e tornou-se um dos assassinatos mais famosos da história do país.


A jovem foi torturada, violentada e teve seu corpo dilacerado e abandonado em um terreno baldio, na cidade de Los Angeles. Apesar de toda a atenção da mídia e de uma investigação intensa, que mobilizou o país, o responsável permanece uma incógnita e nunca foi capturado. Pouca coisa foi descoberta a respeito do crime. A história, porém, ganhou o mundo e inspirou livros e filmes, como Dália Negra, de James Ellroy, publicado em 1987 e adaptado para o cinema em 2006, por Brian de Palma. 




No telefilme A Dália Negra, Lucie Arnaz (filha da atriz Lucille Ball, popular na década de 1950 pelo seriado I Love Lucy) interpreta Elizabeth Short, a aspirante a estrela de moral questionável. O que tornou o caso particularmente inquietante foi a brutalidade: o corpo de Elizabeth foi cortado em dois, e o sangue foi drenado de seu corpo. 

O drama de mistério é eficiente e mantém um clima sombrio e melancólico, quase em tom de documentário, abordando a obsessão do detetive Harry Hansen (Efrem Zimbalist Jr.) em encontrar o assassino da jovem. Os jornais locais, ansiosos para explorar o crime extraordinariamente horripilante, começaram a tecer todo tipo de histórias sobre Elizabeth. A investigação policial gerou um número absurdo de suspeitos e uma profusão de malucos reivindicando a autoria do assassinato.



A história é, de fato, intrigante, embora a produção tenha adaptado alguns fatos que marcaram a vida de Elizabeth. Harry Hansen, um dos detetives designados para o caso na vida real, serviu como conselheiro técnico. Mas a mãe de Elizabeth se recusou a assinar um comunicado para permitir que sua vida fosse retratada no telefilme. Como resultado, os produtores tiveram que realinhar a biografia. Por exemplo, neste filme, um avô e neto encontram o corpo de Elizabeth Short. Na vida real, eram mãe e filha. Além disso, um fotógrafo tira a primeira foto do corpo de Short; na vida real era uma mulher.

O filme estreou pela NBC em 1 de março de 1975. Aqui no Brasil, foi exibido pela primeira vez em 7 de agosto de 1977, na Globo.