Minha febre que nunca passou


Dizer qual é seu filme favorito não é tarefa simples. Primeiro, porque é praticamente impossível eleger um único filme como o seu preferido. Segundo, porque nossa percepção e até nosso gosto mudam ao longo dos anos. Mas existem aqueles filmes que nos acompanham a vida toda e pelos quais temos um afeto especial, mesmo depois de muitos anos. Para mim, Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever) é esse filme. 


Não vou me ater às informações de produção, especulações de bastidores ou curiosidades das gravações. Elas são muitas e podem ser facilmente encontradas aos montes na internet. Além disso, mesmo quem não curte ou nunca viu, sabe que esse foi o filme que revelou John Travolta para o mundo e fez as canções dos Bee Gees serem incessantemente tocadas em todo o planeta. 

Devia ter uns 13 anos quando assisti pela primeira vez. Foi no Festival de Férias, da Globo. (A Sessão da Tarde virava Festival de Férias nos meses de férias escolares das crianças). Gravei o filme e realmente peguei a 'febre' dos embalos. Fiquei tão fascinado que passei a ver o filme quase todos os dias. De quebra, ainda obrigava meu irmãozinho a assistir também, pobrezinho. 



As músicas e as danças me cativaram logo de cara. Desde a infância, sempre fui obcecado pela década de 1970. Com o passar do tempo, comecei a enxergar o filme além do ritmo das canções de discoteca. Mas não parei mais de ouvir a trilha sonora, até hoje um dos 10 discos mais vendidos de todos os tempos. Como o aniversário da estreia do filme está bem próximo, resolvi falar um pouco sobre ele.

Naquele distante 16 de dezembro de 1977, ninguém imaginava que Saturday Night Fever se tornaria o epíteto de toda uma geração. Tampouco que arrebataria o mundo. Um filme despretensioso e sem grandes astros - na época Travolta ainda não era o ícone que viraria logo após a estreia do longa (que, no Brasil, só aconteceu em 3 de julho de 1978). É claro que esse sucesso, em grande parte, se deve ao carisma e beleza de Travolta e às músicas dos Bee Gees, compostas especialmente para o filme.



Muitas vezes erroneamente classificado como "musical", Embalos é, na verdade, um drama. A discoteca, assim como as músicas que pontuam a história, servem de pano de fundo. Dizem muito sobre o personagem principal, Tony Manero, imortalizado por Travolta, mas não fazem do filme um musical propriamente, daqueles em que os personagens literalmente cantam a história.

E a narrativa, ao contrário do que muitos pensam, vai além de passos de dança espetacularmente coreografados numa discoteca. Lida com aquela dura fase na vida dos jovens: a hora de encarar o começo do amadurecimento que antecede a chamada vida adulta. A busca por melhores oportunidades e reconhecimento, a aceitação entre os amigos, a diferença entre amizade e sexo, a vontade de vencer e as inseguranças em relação ao futuro. Aliás, ainda no começo do filme, o personagem Tony diz: "Dane-se o futuro". Ao que seu chefe responde: "Não, Tony. O futuro nunca se dana. Ele dana você". Já de cara sentimos o pessimismo adulto que perpassa a história, contrapondo-se aos anseios românticos e inconsequentes da juventude.

Saturday Night Fever era também o filme favorito do crítico de cinema Gene Siskel. Diz a lenda que Siskel o assistiu dezenas de vezes. Quando li isso, há alguns anos, me identifiquei imediatamente. Todos nós temos filmes assim, que transcendem o mero julgamento de 'bom' ou 'ruim' e ganham espaço cativo entre nossos prazeres mais queridos.

Siskel gostava tanto que arrematou o lendário terno de poliéster usado por Tony Manero, em um leilão, em 1979. Quando morreu, em 1999, o terno foi arrematado em outro leilão por outro aficionado, que optou por se manter anônimo. "O ritual [do personagem de Travolta] de escolher as roupas para sair à noite, em um mundo só dele, e desconectado da realidade de sua vida, ressoou em mim", contou o novo dono do terno ao jornal britânico The Guardian. "Foi o primeiro filme que eu amei de verdade".


Detalhe: originalmente, a cena da reta final do filme, em que Tony Manero dança no concurso da discoteca, seria feita com um terno preto. Mas a figurinista, Patrizia Von Brandenstein, insistiu no branco, que ela havia comprado por uma bagatela em uma loja do Brooklyn, mesmo bairro onde morava o personagem de Travolta.

A diferença entre Os Embalos de Sábado à Noite e outros filmes que exploravam a era disco é que Embalos usou a moda das discotecas como background para contar um drama juvenil. Outros filmes da época, como Até Que Enfim É Sexta-Feira (Thank God It's Friday), só para citar um exemplo, tinham o foco no modismo da discoteca em si. Eram filmes feitos apenas para explorar a disco music. Aliás, não tenho nada contra esses filmes, pelo contrário. Vi muitos e me diverti com todos deles. Mas, no que diz respeito à história e aos personagens, são absolutamente irrelevantes (o que não significa que não sejam também entretenimento, ainda que mais pueris).  

Trecho da crítica não muito positiva da revista Veja
Curioso pensar em Saturday Nigth Fever hoje. Nos últimos vinte e poucos anos, revi o filme incontáveis vezes e fui juntando tudo que conseguia: recortes, revistas, livros, discos... Minha surrada fita de vídeo com a versão dublada, gravada do Festival de Férias, deu lugar ao VHS original, legendado, que por sua vez cedeu espaço ao DVD, com direito à edição especial e tudo. E, há alguns meses, passei pela maravilhosa experiência de assistir à cópia restaurada do filme no cinema, no telão do Cinemark. Me empolguei como se estivesse vendo pela primeira vez. De fato, no cinema, foi a primeira vez mesmo.


Semana que vem o filme completa 37 anos. Jovem para ser chamado de 'coroa' e envelhecido para ser chamado de 'atual'. É, sem sombra de dúvida, o retrato dos anseios e catarses de uma geração. Uma coisa, no entanto, permanece atual em Saturday Night Fever: o desejo que os jovens têm de fugir de uma realidade sem grandes perspectivas, socialmente 'imposta', e alcançar o que consideram sua versão de sucesso na vida. Para muitos, essa é uma febre que pode ir muito além dos juvenis embalos de sábado à noite.

2 comentários:

  1. Adorei o texto, Daniel. Sou fã de Embalos de Sábado à Noite também. Mas, diferente de você, a primeira vez que vi o filme foi no Intercine, com meus pais, numa sexta-feira. Lembro que a cena em que o amigo de Tony despenca da ponte me deixou chocado e eu tardei (mais ainda) a dormir. rsrsrs

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