07 dezembro 2022

A Mulher de Preto (The Woman in Black, 1989)

Telefilmesquecidos #54

O jovem advogado Arthur Kidd (Adrian Rawlins) é designado por seu chefe a viajar até Crythin Grifford, remoto vilarejo da costa inglesa. Lá ele deve cuidar dos trâmites legais para a venda da casa de Alice Drablow, misteriosa e reclusa viúva que faleceu sem deixar herdeiros.

Kidd decide passar alguns dias na casa da viúva recém-falecida, uma mansão isolada conhecida como Eel Marsh. Começa a ser atormentado por barulhos e visões assustadoras. Aos poucos, vai descobrindo que o local esconde segredos sobre uma mulher que assombra a aparentemente pacata cidadezinha. 



O roteiro para a TV, de Nigel Kneale, foi adaptado do livro homônimo de Susan Hill, romance sobrenatural publicado originalmente em 1983. Kneale tinha em seu currículo o roteiro de A Face do Demônio (The Witches, 1966), clássico da Hammer com Joan Fontaine. A direção, sólida, é do experiente Herbert Wise, que dirigiu muitas séries e médias-metragens. 

Embora a história pareça familiar – o jovem de mente racional, empurrado para situações assustadoras de natureza paranormal, em um lugar onde é tratado como forasteiro – as performances são convincentes. O filme é eficiente em criar uma atmosfera intencionalmente lenta, que se revela pouco a pouco.


O desempenho impecável de Adrian Rawlins (mais conhecido por interpretar o pai de Harry Potter nos filmes da franquia Harry Potter) sustenta a espinha dorsal por trás de A Mulher de Preto. O elenco é todo muito bom, com destaque também para Bernard Hepton no papel de Sam Toovey, um fazendeiro local que se surpreende ao saber que Kidd passará um tempo na mansão da falecida Sra. Drablow.


Feito para a TV britânica (produzido pela Central Television para a rede ITV), o filme foi lançado pela BBC na véspera do Natal de 1989. Foi um sucesso inesperado na TV, embora a autora Susan Hill tenha discordado de algumas pequenas mudanças do roteirista Nigel Kneale. Outra versão, cinematográfica, foi lançada em 2012, com Daniel Radcliffe no papel principal.



Uma disputa pelos direitos de distribuição no Reino Unido entre a Central Television e membros da equipe de produção original do filme (que possuíam uma parte dos direitos) impediram que A Mulher de Preto fosse exibido novamente na televisão após 1994 ou relançado em mídia doméstica após 1991. Os direitos de distribuição tornaram-se ainda mais complicados quando a versão para o cinema, de 2012, entrou em produção.

Foi lançado em VHS no Reino Unido em 1990, pela Futuristic Entertainment. No ano seguinte, foi relançado em VHS pela Video Collection International como exclusivo das lojas WHSmith. Em 2000, houve também um lançamento norte-americano em DVD, pela BFS Entertainment.

No Reino Unido, a Network Distributing conseguiu garantir os direitos de relançar o filme em Blu-Ray e DVD em 2020, para o qual foi restaurado e remasterizado em alta definição.

O remake de 2012 não teve a aclamação esperada, mas a badalação em torno de seu lançamento serviu para que o livro homônimo de Susan Hill — até então inédito no Brasil — fosse lançado aqui, com quase 30 anos de atraso, pela editora Record.

O crítico Rodolfo Lucena confirma em sua coluna, publicada em 24 de fevereiro de 2012 na Folha de S. Paulo: “Tristeza e dor, mais do que medo e assombrações, povoam A Mulher de Preto, romance da britânica Susan Hill que deve ganhar mais visibilidade com a estreia do filme homônimo.”

Crítica de lançamento do livro no Brasil (Folha de S. Paulo, 24/02/2012)

Curiosamente, Machado de Assis tem um conto também chamado A Mulher de Preto, sem qualquer relação com o filme. Faz parte do primeiro livro de contos de Machado, Histórias Fluminenses, publicado em 1870.

Em 2022, a Obras-Primas do Cinema lançou o filme em DVD no Brasil, pela primeira vez.

23 novembro 2022

Djavan em Anjo Mau (1976)

Uma das coisas mais divertidas ao assistir a novelas antigas são as surpresas curiosas nas quais a gente esbarra. Atualmente assistindo à primeira versão de Anjo Mau (1976), de Cassiano Gabus Mendes, na Globoplay, me deparei com ninguém menos que Djavan.


Não, não tem nenhuma faixa do Djavan na trilha sonora de Anjo Mau. Mas o cantor (que na época ainda não era famoso) apareceu no capítulo 22 (exibido originalmente em 26 de fevereiro de 1976), bem no primeiro mês da novela.


Ele aparece rapidamente, só por alguns segundos, na cena em que Rodrigo (José Wilker) leva Nice (Susana Vieira) à boate 706, no Leblon, Zona Sul carioca. Na boate estão também Ricardo (Luiz Gustavo) e Paula (Vera Gimenez).


Djavan (de camisa xadrez, de costas)

Na banda, que tocava e cantava ao vivo na casa noturna, estava ninguém menos que Djavan. O grupo cantou If I Ever Lose This Heaven, sucesso recente de Quincy Jones na época. A faixa faz parte do álbum Body Heat, lançado pelo selo A&M em 1974.



Enquanto se desenrola a ação entre os personagens, Djavan canta, junto com o grupo, outro hit da época: Feel Like Making Love, de Roberta Flack, do álbum homônimo lançado pela cantora em 1975.


Então com 27 anos, o cantor, natural de Maceió, havia chegado ao Rio de Janeiro poucos anos antes, para tentar a sorte no mercado musical. Foi naquele período que Djavan trabalhou como crooner de boates famosas como a Number One e a 706. 

Djavan na 706

A biografia do cantor, em seu site oficial, conta:

Com a ajuda de Edson Mauro, radialista e conterrâneo, conhece João Araújo, presidente da Som Livre, que o leva para a TV Globo. Passa a cantar trilhas sonoras de novelas, para as quais grava músicas de compositores consagrados como "Alegre Menina" (Dori Caymmi, com letra de Jorge Amado), da novela Gabriela, "Qual é" (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle), da novela Os Ossos do Barão (1973), e "Calmaria e Vendaval" (Toquinho e Vinícius de Moraes).

Em três anos, entre 1972 e 75, nas horas vagas do microfone, compõe mais de 60 músicas, de variados gêneros. Com uma delas, o samba “Fato Consumado”, tira segundo lugar no Festival Abertura, realizado pela TV Globo em 1975, e chega ao estúdio da Som Livre. De lá sai com seu primeiro disco, das mãos do mítico produtor (de Carmen Miranda a Tom Jobim) Aloysio de Oliveira. A voz, o violão, a música de Djavan, de 1976, é um disco de samba sacudido, sincopado e diferente de tudo que se fazia na época. 

A 706 ficava na rua Ataulfo de Paiva, uma das principais do Leblon. A boate era também chamada de Piano Bar 706 e o local era frequentado por músicos, artistas e cantores renomados, além da elite carioca. Curiosamente, Djavan já havia aparecido — também cantando na 706 — na novela Corrida do Ouro, de Lauro César Muniz e Gilberto Braga, exibida pela Globo entre 1974 e 1975.  

Djavan em Corrida do Ouro (1974)

Como o próprio Djavan explica, entrevistado por Irlam Rocha Lima para o jornal Correio Braziliense em 2017:

"Por três anos, eu cantei na noite carioca, nas boates Number One e 706. Eu era crooner da banda de Osmar Milito, músico de muito prestígio. Mas eu só me tornei conhecido naquele meio."

"Inicialmente, não tive facilidade. Não conhecia ninguém, mas procurei me situar. O Adelson Alves era um radialista famoso naquela época que apresentava o programa O amigo da madrugada, na Rádio Nacional. Fui à emissora incontáveis vezes para mostrar o que estava fazendo. Até que um dia, me ouviu cantar. Mas me desencorajou, ao dizer que seu programa era voltado para o samba tradicional e que a música que eu fazia não se adequava à programação. Aí sugeriu que eu procurasse o João Melo, na Som Livre."


Com o LP A voz, o violão e a arte de Djavan, lançado em 1976, Djavan emplacou a música Flor de Lis e deu início à sua carreira de sucesso, tornando-se um dos maiores cantores da música popular brasileira.

18 novembro 2022

Os Dois Mundos de Jennie Logan (The Two Worlds of Jennie Logan, 1979)

Telefilmesquecidos #53

Jennie Logan (Lindsay Wagner) muda-se com o marido Michael (Alan Feinstein) para uma velha mansão na fictícia cidade de Chesapequa, nos arredores de Nova York. A história se passa na época atual do filme, em 1979. O casal está tentando começar de novo, após Jennie ter descoberto uma traição do marido. Apesar de dizer que o perdoou, ela não consegue esquecer o caso.

Logo depois de se mudarem, Jennie encontra um antigo vestido branco no sótão. Insatisfeita com o casamento, ela passa a vivenciar situações fantásticas quando veste o velho traje recém-achado. Começa a ter visões de pessoas e da casa em tempos passados. Durante essas visões, Jennie descobre-se em pleno século 19, encarnada na imagem de uma certa Pamela. E conhece um homem estranho, David Reynolds (Marc Singer), que a confunde com a tal Pamela e clama por ela, em desespero. 

Jennie (Lindsay Wagner) e Michael (Alan Feinstein)

Lindsay Wagner

O vestido é o gatilho para Jennie experimentar uma realidade completa e alternativa, ocorrida 80 anos antes. Nessa outra realidade, David lamenta a perda de seu amor, Pamela, enquanto afasta o afeto de outra mulher, Elizabeth Warrington (Linda Gray).

Em sucessivas voltas ao passado, Jennie acaba conhecendo melhor David, antigo morador da casa. O pintor havia sido dado por desequilibrado após o estranho desaparecimento da noiva, Pamela, logo depois do casamento. O próprio David morreu em circunstâncias misteriosas, durante um duelo com seu padrasto, em 31 de dezembro de 1899, no baile de réveillon da passagem do século. 

David (Marc Singer)

Elizabeth (Linda Gray)

Sentindo-se amorosamente atraída por David, que materializa seus sonhos românticos, Jennie se afasta cada vez mais de sua vida presente e de Michael. Também não encontra respostas satisfatórias para suas "alucinações" na ajuda psiquiátrica. 

Nesta "outra vida" no passado, Jennie acaba sabendo que o sogro de David, Mr. Harrington (Henry Wilcoxon), o acusava de ter assassinado Pamela para obter a herança familiar. Descobre também que a cunhada do pintor, Elizabeth, nutria por ele um amor obsessivo e não correspondido. Investigando o caso no tempo atual e no passado, Jennie busca decifrar a morte de David. Mais que isso, tenta evitar o ocorrido e levar uma vida plena e feliz, em companhia do homem amado.


A questão então é se Jennie realmente vê e participa dessa realidade ou se estaria tudo apenas em sua cabeça. Seria uma projeção para uma vida e um amor que ela já teve, ou pensou que tinha e perdeu?

Baseado no romance Second Sight, de David L. Williams, publicado em 1977. Curiosamente, nunca foi traduzido aqui no Brasil. A direção e o roteiro (baseado no livro) são de Frank De Felitta, que havia dirigido As Duas Vidas de Audrey Rose (Audrey Rose, 1977) no cinema.

O elenco é bom e o destaque é para Lindsay Wagner no papel-título. A atriz era conhecida pelo seriado A Mulher Biônica (The Bionic Woman, 1976-1978), que fez grande sucesso na década de 1970. Linda Gray, a eterna Sue Ellen de Dallas (1978-1991), também se destaca, em um papel de época, bem diferente da personagem que vivia em Dallas.

Impossível não notar a semelhança entre este telefilme e o conhecido e popular Em Algum Lugar do Passado (Somewhere In Time, 1980), estrelado por Christopher Reeve e Jane Seymour. 

Há notáveis semelhanças entre Os Dois Mundos de Jennie Logan e Em Algum Lugar do Passado (que estreou nos cinemas americanos em 3 de outubro de 1980). Ambos têm um enredo quase idêntico, com a diferença de que, no segundo caso, era o homem viajando no tempo para reviver o romance com a moça. Um feito para a TV, outro feito para o cinema. Duas obras muito semelhantes, lançadas com quase exatamente um ano de diferença, ambas baseadas em diferentes livros, mas muito similares entre si, que também foram escritos e publicados mais ou menos na mesma época.

Em Algum Lugar do Passado é baseado no romance de Richard Matheson, publicado originalmente com o título de Bid Time Return, em 1975, e mais tarde republicado como Somewhere in Time

Os Dois Mundos de Jennie Logan estreou na TV americana em 31 de outubro de 1979, noite de Halloween, pela CBS. Na TV brasileira, foi exibido pela primeira vez em 31 de julho de 1982, na sessão Primeira Exibição, da Globo.


Na Folha de S. Paulo de 31 de julho de 1982, a sinopse informava que "os críticos americanos gostaram desta curiosa mistura de romance, crime, mistério e sobrenatural feito para a televisão."

Na coluna Os filmes de hoje, do Jornal do Brasil da mesma data, Hugo Gomez destacou que o filme "tem uma história fantástica que, se for bem desenvolvida, poderá agradar aos espíritos românticos". Mas concluiu que "tudo leva a crer que não passa de produção superficial, enfeitada pela beleza de Lindsay Wagner".

Os Dois Mundos de Jennie Logan foi lançado em VHS no Brasil em 1987. Em 2022, a distribuidora Obras-Primas do Cinema lançou o filme em DVD aqui, em edição caprichada.


11 novembro 2022

Sacrifícios Inúteis (Before and After, 1979)

Telefilmesquecidos #52

“Você não é gorda, só precisa perder alguns quilos,” diz Jack (Bradford Dillman), marido de Carole (Patty Duke). Na verdade, o casal passa por uma crise. Jack chegou aos 40 e dá sinais claros de desinteresse pela esposa, cuja autoestima não é das melhores.

Lá pelas tantas, Jack sai de casa e abandona Carole, que passa a viver reclusa, em companhia da mãe. Sentindo-se gorda e fisicamente desprezada, compartilha seus dramas com as amigas Penny (Barbara Feldon) e Marge (Conchata Ferrell). Penny é obcecada por emagrecimento e nem seus sacrifícios impediram que o marido também a abandonasse. 


Marge, por outro lado, é gordinha e feliz em seu casamento. Mas Carole, em vez de confiar no otimismo de Marge, entra na paranoia de Penny e passa a frequentar um grupo de emagrecimento, espécie de “Gordos Anônimos”. O tal grupo, no entanto, impõe humilhações aos participantes tais como usar máscaras de porco.



Ainda descontente, Carole resiste até mesmo às paqueras do bonitão Mike Farmer (Art Hindle), jovem artista com quem tem contato na escola de arte para cegos onde ensina. Com o apoio das amigas, Carole refaz sua forma física, por meio de dieta para melhorar a estética e ginástica. Finalmente, aceita as atenções amorosas de Mike e os dois iniciam um romance sincero.



Patty Duke

Mas Carole descobre que beleza física, de fato, não traz felicidade. E, quando Jack reaparece querendo refazer o casamento (depois de ver a “nova versão” de Carole), ela tem que escolher: retornar ao passado problemático ou seguir em frente com sua nova independência? 

Este telefilme expôs claramente o impacto que a comida e o peso tinham na vida das mulheres, naquele final de década de 1970. O problema ainda existe, mas hoje é conhecido e tratado de outra forma.

Apesar do bom elenco, Sacrifícios Inúteis ficou extremamente datado. Não se trata de um filme ruim, mas a música cafona e os diálogos previsíveis não ajudam. Usa também estereótipos e conceitos machistas – o que na época era algo naturalizado. Embora os transtornos alimentares já existissem, eram retratados de maneira diferente e não eram conhecidos como hoje. No filme, as palavras "distúrbio alimentar" nunca foram pronunciadas, mas a mensagem era clara. 

Patty Duke era uma atriz sensacional. Mas aqui ela interpreta uma mulher supostamente acima do peso, o que é meio difícil de engolir. Talvez, por isso, quase todos no filme digam à sua personagem que ela está acima do peso. Provavelmente para que o telespectador também acreditasse.


Sacrifícios Inúteis não está entre os melhores filmes de Patty Duke – e ela fez vários muito bons – mas funciona como curiosidade sobre um tempo (não muito distante) em que questões como o corpo feminino, padrões de beleza e distúrbios alimentares eram tratadas de forma bastante cruel.

Conchata Ferrell e Barbara Feldon 

Duke, Barbara Feldon e Conchata Ferrell funcionam maravilhosamente juntas como as três amigas. Aliás, a presença de Conchata Ferrell (a Berta do seriado Dois Homens e Meio) é um deleite. Pena que, por culpa do roteiro, as personagens não tivessem nada mais interessante para discutir além de homens e peso.

Participação rápida de Betty White no papel de “coach” do absurdo grupo de emagrecimento. Betty é mais conhecida no Brasil pelo seriado Supergatas (The Golden Girls), que foi ao ar entre 1985 e 1992.

Betty White

Primeiro telefilme da diretora Kim Friedman, que na época já havia dirigido algumas séries de TV. A estreia de Sacrifícios Inúteis na TV americana foi em 5 de outubro de 1979, na ABC. No Brasil, foi ao ar pela primeira vez em 14 de outubro de 1981, na Globo, na sessão Première 81.

Não confundir com Antes e Depois, filme de 1996 estrelado por Meryl Streep e Liam Neeson, cujo título original também é Before and After