02 abril 2021

Os Três Desejos de Billy Grier (The Three Wishes of Billy Grier, 1984)

 Telefilmesquecidos #37

"Envelhecimento rápido, metabolismo acelerado. Resta-lhe menos de um ano", anuncia a médica. O adolescente Billy Grier (Ralph Macchio) tem sua vida arrasada ao descobrir que é vítima de uma doença rara que acelera o envelhecimento do corpo. O jovem se dá conta de que todos os seus sonhos serão derrubados, enquanto seu corpo vai envelhecendo depressa, em poucos meses, e ficando cada vez mais debilitado. 

Atordoado, Billy foge de casa, em busca da realização de suas três grandes ambições de vida: localizar o pai que abandonou sua família quinze anos antes, tocar saxofone em uma banda de jazz, e fazer amor com uma mulher. Tudo isso nos poucos meses que lhe restam. No começo, o adolescente embarca nesta jornada sozinho, para desespero da mãe. Depois, muda de ideia e se une à mãe novamente. 


Ralph Macchio e Laura Dern

O grande chamariz do filme, além do tema, foi a presença do ator Ralph Macchio como o protagonista. Macchio havia se tornado muito conhecido poucos meses antes, quando o filme Karatê Kid: A Hora da Verdade (The Karate Kid, 1984) estreou nos cinemas do mundo todo e o lançou como uma das promessas da década. O ator não fez feio em Os Três Desejos de Billy Grier e contracenou com um elenco igualmente bom. Nancy Grier, mãe de Billy, foi interpretada por Betty Buckley (a professora de educação física de Carrie, a Estranha). Conchata Ferrell (a Berta da série Dois Homens e Meio) vive a médica de Billy. Outros rostos conhecidos aparecem em participações pequenas, como o veterano Hal Holbrook, Season Hubley (na época, recém-divorciada de Kurt Russell) e Laura Dern, ainda desconhecida, em uma rápida aparição.

Betty Buckley


A maquiagem de envelhecimento do personagem Billy, vista hoje, deixa  a desejar. Mas para a época, não fez feio e até impressionou. Curioso ver o ídolo teen Ralph Macchio com a aparência de um ancião. Detalhe: no filme, Ralph vive um adolescente, mas na vida real já tinha 23 anos, apesar de aparentar dez anos a menos.

Nos EUA, foi exibido pela primeira vez na TV em 1º de novembro de 1984, na ABC. Aqui no Brasil, a estreia foi no SBT, em 24 de maio de 1989, com direito à clássica locução da emissora: “Ralph Macchio, o grande astro que derrotou seus inimigos em Karatê Kid, luta agora contra uma terrível doença. Uma história comovente.”




De fato, é um bom telefilme que vai direto ao ponto, sem enrolação e nem dramalhão. A mensagem é clara, como disse o próprio personagem: "A vida é curta, não importa o quanto você viva. Por isso, viva."

26 março 2021

Um Certo Verão (That Certain Summer, 1972)

Telefilmesquecidos #36

Doug (Hal Holbrook), na casa dos 40 anos e recém divorciado de Janet (Hope Lange), reconstrói sua vida em outra cidade. O filho Nick (Scott Jacoby), de 14 anos, apesar de não entender por que seus pais se separaram, tem uma boa relação com ambos. Ao passar as férias de verão com o pai, no entanto, o garoto se depara com uma nova situação: a presença de Gary (Martin Sheen), amigo de seu pai. 

Inicialmente, Doug tenta manter seu relacionamento com Gary escondido, mas Nick percebe que há algo "diferente" acontecendo ali. De forma inesperada, acaba descobrindo a verdade sobre a relação de seu pai com Gary: eles não são apenas amigos. Inconformado e confuso, o garoto foge. A mãe, Janet, vai até a casa do ex-marido para saber do paradeiro do filho e tirar satisfações. Sem ter mais como manter seu relacionamento com Gary encoberto, Doug vê-se obrigado a encarar o problema de frente, diante do filho, e a confrontar-se com seus temores e inseguranças.

Hal Holbrook, Scott Jacoby e Martin Sheen

Dirigido por Lamont Johnson e escrito por Richard Levinson e William Link, Um Certo Verão é um marco da televisão americana. O telefilme tornou-se muito importante por ter sido pioneiro, apesar de praticamente esquecido hoje em dia. Foi o primeiro filme para a TV a abordar a homossexualidade de forma sensível e com seriedade. Mas o filme não é "sobre" a homossexualidade. É sobre relacionamentos pessoais sendo afetados pelo fato de existir a homossexualidade.

Um Certo Verão é tocante e impressiona pela naturalidade com que trata a delicada questão, na época um tremendo tabu. O caminho foi traçado e aberto graças ao popular ABC Movie of the Week, sessão de filmes exclusivos que eram produzidos para a TV e apresentados semanalmente no popular canal americano ABC. Mas não espere beijos, carícias ou cenas que sequer insinuem sexo entre homens. Além de ser um assunto bastante controverso naquela época (o que, por si só, já exigia comedimento) trata-se de um filme para a TV.



Hal Holbrook e Martin Sheen, atores que, desde jovens, conquistaram respeito e reconhecimento tanto da crítica quanto do público, eram relativamente novos em Hollywood no começo da década de 1970. Foram, previsivelmente, desaconselhados a interpretarem personagens gays. Depois de recusar o papel, Holbrook pensou melhor, resolveu encarar o desafio e aceitou, após identificar-se, em muitos aspectos, com o papel que interpretaria. O ator, que na época havia se divorciado há pouco tempo, vivia suas próprias lutas pessoais. Mesmo hoje, o filme continua importante para ele porque significou muito para várias pessoas. "Essa é uma boa razão para ser um ator", ele disse, "quando você pode fazer algo decente que toca o coração e a mente das pessoas, então você sente que realizou algo, de fato."

Em uma entrevista de 2007 para o The Dallas Voice, o colega Martin Sheen relembrou o sucesso do filme e discutiu o processo de pensamento por trás de sua aceitação do papel de Gary: "Achei maravilhoso. Era sobre duas pessoas que se amavam e não podiam ter um relacionamento que envolvesse sua sexualidade. Eu tinha roubado bancos, sequestrado crianças, estuprado mulheres e assassinado pessoas em vários filmes. Agora eu ia interpretar um cara gay e isso era considerado o fim da minha carreira. Pelo amor de Deus! Em que tipo de cultura vivemos?”


A maioria das exibições de pré-transmissão de um telefilme era normalmente assistida por um ou dois críticos. Algumas, quando eram produções maiores, por exemplo, chegavam a atrair meia dúzia de interessados. Para Um Certo Verão, foi necessária uma semana inteira de exibições, agendadas tanto na ABC quanto na Universal Television (que produziu o filme). A maioria dessas pré-transmissões teve um grande público. Em termos de televisão, foi um verdadeiro evento.

Em 1º de novembro de 1972, Um Certo Verão foi ao ar se tornou o primeiro filme para a televisão a abordar — por meio de um retrato simpático e compreensivo — a homossexualidade. Detalhe: na época, a homossexualidade ainda era considerada doença. No ano seguinte, em 1973, deixou de ser classificada como tal pela Associação Americana de Psiquiatria. Em 1975, a Associação Americana de Psicologia adotou o mesmo procedimento, deixando de considerar a homossexualidade como uma doença.

Aqui no Brasil, em 1985, o Conselho Federal de Psicologia deixou de considerar a homossexualidade como um desvio sexual e, em 1999, declarou que "a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão". Mas foi só em 1990 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID).

Na época da exibição original de Um Certo Verão na TV americana, Marilyn Beck, do New York Times, chamou o filme de "um dos melhores dramas que você verá este ano na tela grande ou pequena." Judith Crist, da revista New York, descreveu-o como "um passo gigante para a televisão". O TV Guide declarou que "a televisão cresce" e, em sua crítica no Los Angeles Times, Charles Champlin atestou: "É o melhor filme para a TV que eu já vi... digno de ser exibido em telas de qualquer tamanho". J. O'Connor, na edição de 29 de outubro de 1972 do New York Times, analisou: "Obviamente, Um Certo Verão não é um sucesso só porque lida com o tema da homossexualidade. Assuntos 'polêmicos' são tão capazes de estimular a produção de porcarias quanto assuntos 'seguros'. Os envolvidos na produção de Um Certo Verão estavam bem cientes de que o caminho era evitar a polêmica. Para isso, foi preciso dedicar muito tempo, cuidado pensado e inteligente e maturidade ao projeto. Essa é a fórmula secreta para melhorar toda a televisão, em qualquer nível, em qualquer assunto."


O filme obteve vários prêmios e indicações para a TV. Ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Feito para a TV. Scott Jacoby ganhou um prêmio Emmy de Melhor Desempenho por um Ator em um Papel Coadjuvante. O diretor Lamont Johnson ganhou o prêmio do Directors Guild of America por Melhor Realização em Filmes para a Televisão. O elenco não poderia ter sido mais acertado. Tanto Hal Holbrook quanto Martin Sheen estão irrepreensíveis e totalmente naturais nos papéis. O menino Scott Jacoby, sempre excelente, equipara-se a seus colegas de cena no que diz respeito ao talento e espontaneidade, assim como os coadjuvantes Hope Lange e Joe Don Baker.

No Brasil, o histórico do filme foi complicado e sua transmissão adiada diversas vezes. Só foi exibido na televisão brasileira em 1984 (mais de dez anos depois da exibição original nos EUA!) e, mesmo assim, com muitos percalços. Dá para se ter uma noção com a extensa matéria do jornalista Antonio Gonçalves Filho, no caderno Ilustrada, publicada na Folha de S. Paulo em 31 de janeiro de 1984. Alguns trechos explicam:

Chegou ao Brasil com uma das mais expressivas cartas de recomendação já dedicadas a uma obra feita para a TV (Prêmio Emmy de 1972 e uma audiência de 15 milhões de telespectadores quando foi lançado, nesse mesmo ano, nos Estados Unidos, pela ABC Television).

O fato é que "Um Certo Verão" já rolou por todas as emissoras de televisão deste País e jamais chegou a ser exibido. Só na Bandeirantes ele foi programado — no período 77/78 — por três vezes e, misteriosamente, substituído na última hora por outro telefilme qualquer. Adquirido recentemente pela Rede Manchete, deveria ter sido exibido no último sábado, às 23h20, mas foi expurgado do vídeo para dar lugar a uma comédia inconsequente produzida por Hollywood em 1957, "Não Caia N'Água Marujo" (...). O que acontece, afinal?

O programador de filmes da Rede Manchete, Wilson Cunha, confere ao episódio pouca importância. Diz tratar-se de um fato rotineiro, o da substituição de filmes, explicando que "Um Certo Verão" não foi exibido por causa da transmissão do jogo Flamengo x Palmeiras (o primeiro da Copa Brasil 84, às 21h15, em rede nacional). "Foi uma decisão interna, que nada teve a ver com Censura. Apenas resolvemos exibir o filme em outra ocasião, porque ele esta liberado apenas para depois das 23 horas".

A matéria ainda esclarece que o filme havia sido proibido no Brasil há quase 10 anos, pelo Serviço de Censura Federal, para ser exibido nos cinemas: "Um Certo Verão foi novamente apresentado à apreciação dos censores por volta de 1976, conseguindo os distribuidores a sua liberação para a TV. Teve início a saga do filme. O que haveria de tão incômodo numa obra feita especialmente para a televisão e, portanto, sujeita às limitações da mídia uniformizadora?"

Em outro trecho, o jornalista argumenta:

Johnson [diretor do filme] não faz apologia da emoção homófila, apenas luta para destruir estereótipos: Sheen e seu amante são homens comuns, que pagam impostos, comem pipoca e não usam meias de nylon com liga. Isso incomodou centenas de famílias norte-americanas, que se deram ao trabalho de escrever cartas à ABC protestando contra o "excesso" de normalidade dos dois personagens centrais do telefilme. Estranhavam que fossem "normais demais". (...)

Deveria ter sido essa, provavelmente, também a expectativa das forças ocultas de Brasília, que tentaram boicotar, por diversas vezes, a exibição do filme em outras emissoras (em particular, na Bandeirantes). Não se sabe, apenas, se essas "forças" continuam atuantes, a ponto de destinar o filme ao limbo televisivo. A Manchete garante que não. (...) Parece compreensivel que num pais onde a homossexualidade é considerada "doença" (ver codigo do Inamps) tal boicote ainda aconteça. 

De fato, naquela vez, a programação não foi alterada e finalmente Um Certo Verão foi ao ar no Brasil, pela primeira vez, pela Rede Manchete, em 18 de fevereiro de 1984. Cinco anos depois, em 9 de dezembro de 1989, a Manchete o reprisou. Curiosamente, menos de um mês depois, o filme foi parar na Globo e a emissora o exibiu no Corujão II, em 2 de fevereiro de 1990. 


O escritor e roteirista Burton Wohl fez uma adaptação do filme em livro, publicado pela Bantam Books em 1973. "O comovente romance sobre um menino que descobre que seu pai é homossexual — baseado no drama de TV mais importante e aclamado em anos!", como atestou o site Goodreads.


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Agradecimento: Lufe Steffen, do canal Naftalufe.

18 março 2021

Apenas Uma Velha e Doce Canção (Just an Old Sweet Song, 1976)

Telefilmesquecidos #35

Devido a problemas de saúde da avó, uma família negra decide fazer uma visita à velha senhora, que mora em uma pequena cidade do Sul dos EUA. O casal Nate (Robert Hooks) e Priscilla (Cicely Tyson) viaja com os três filhos para passarem duas semanas com a avó, mãe de Priscilla.

A família reluta em visitar o Sul, amargurados por velhas lembranças e preconceitos arraigados. Embora hesitantes, Priscila os convence a saírem de Detroit, onde moram, por alguns dias. A visita acaba mudando a vida de todos. A pequena cidade onde Priscilla nasceu fortalece os laços familiares que estavam começando a se desgastar. Embora unidos e amorosos, havia indícios de problema com o filho mais velho, que estava sendo influenciado por más companhias. 

Com a convivência em uma cidade pequena, na casa da avó doente, e em condições diferentes das vividas no centro urbano onde moravam, conflitos, anseios e divergências afloram. A família começa, então, a ter uma visão diferente do lugar, enquanto passa por risos e lágrimas, separação e reconciliação. 



O telefilme foi originalmente planejado para ser o piloto de uma série da MTM (produtora independente fundada em 1969 por Mary Tyler Moore e seu então marido Grant Tinker). Kinfolk (que pode ser traduzido como "parentes") seria o nome da série. Apesar dos rumores de que a série estava em produção, nenhuma das redes se interessou em comprar o programa. A CBS seria a opção mais lógica, por ser parceira da MTM, mas o projeto acabou sendo engavetado.

O arco dramático de Apenas Uma Velha e Doce Canção tinha tudo para render uma série que seria uma espécie de equivalente negro de Os Waltons. A ideia era apoiada até pelo autor, Melvin Van Peebles, que na época chegou a discutir uma sequência da produção. O romance Just an Old Sweet Song, publicado por Van Peebles em 1976, foi então adaptado por ele mesmo para a TV como um especial. 


Elementos que provavelmente seriam entendidos por um público específico ou mais sofisticado tiveram que ser mais claramente definidos para o público de massa. Foi ao ar originalmente como parte de uma série de especiais do General Electric Theatre.

A escolha do casal de protagonistas — Robert Hooks e Cicely Tyson (falecida no último dia 28 de janeiro, aos 96 anos) — não poderia ter sido mais acertada. Tanto Hooks quanto Tyson foram extremamente importantes e emblemáticos para toda uma geração de atores e atrizes negros nos EUA, nas décadas de 1960 e 1970. Apesar de seus nomes não serem tão conhecidos aqui no Brasil, com certeza seus rostos são familiares.

Robert Hooks é conhecido pelos mais de 100 papéis no cinema, na televisão e no teatro. Junto com Douglas Turner Ward e Gerald S. Krone, fundou, em 1967, a companhia de teatro The Negro Ensemble Company, responsável pelo lançamento das carreiras de vários artistas negros de diversos campos das artes. 

Atuante na valorização da comunidade negra nas artes dramáticas, Cicely Tyson (que foi casada com o trompetista e compositor de jazz Miles Davis) lutou contra estereótipos em filmes e séries. Em 1972, foi indicada ao Oscar de melhor atriz graças à sua performance no drama Lágrimas de Esperança (Sounder). Em mais de 70 anos de atuação, foram 11 Emmys e um Oscar pelo conjunto da obra.

Cicely Tyson e Robert Hooks 

Apenas Uma Velha e Doce Canção estreou na TV americana em 14  de setembro de 1976, pela CBS. No Brasil, foi ao ar pela primeira vez em 17 de julho de 1978, na Globo. Nos anos 1980, foi reprisado pela Manchete.

04 fevereiro 2021

A História de Karen Carpenter (The Karen Carpenter Story, 1989)

Telefilmesquecidos #34

Os Carpenters estão entre os artistas mais representativos da década de 1970. Os irmãos Richard e Karen Carpenters tinham lugar cativo nos primeiros lugares das paradas de sucesso com sua música suave, romântica, harmoniosa e bem distinta, que os colocou na lista dos maiores vendedores de discos de todos os tempos.

Durante aproximadamente 14 anos de carreira, os Carpenters gravaram onze álbuns, derramaram dezenas de hits e rodaram o mundo em turnês. O duo se desfez em 1983, quando Karen faleceu precocemente, aos 32 anos, devido a uma parada cardíaca, sofrida em função de complicações da anorexia nervosa.

O filme começa com o colapso de Karen na casa de seus pais, em Downey, Califórnia, em 4 de fevereiro de 1983. Ela é levada às pressas para o hospital. Enquanto o paramédico está colocando a máscara de oxigênio no rosto da cantora, desacordada, vemos imagens de Karen adolescente se mesclando ao presente. O filme corta para a adolescente Karen patinando em câmera lenta e olhando para si mesma enquanto a Karen atual, de 32 anos, está morrendo no hospital. A partir daí, o filme volta no tempo e reconta os altos e baixos da vida de Karen e da carreira dos Carpenters, entre os anos 1960 e o começo dos 1980.


A ideia de um filme baseado na vida de Karen Carpenter era algo que estava na cabeça de Richard desde que a irmã falecera. Mas foi quase impossível encontrar alguém que escrevesse o roteiro do jeito que ele queria. Até que a versão de Barry Morrow foi aprovada pelo estúdio e por Richard. Ainda assim, o roteiro foi muito mexido e sofria alterações quase diariamente, com cenas várias reescritas ou inteiramente removidas, segundo Cynthia Gibb e Mitchell Anderson, que interpretam, respectivamente, Karen e Richard no filme.

Karen (Cynthia Gibb) e Richard (Mitchell Anderson), os Carpenters


A intenção de Richard foi suavizar a imagem controladora e pouco flexível de Agnes Carpenter (interpretada por Louise Fletcher), sua mãe, assim como a relação de Agnes com a filha Karen. A versão final do filme, na opinião de Cynthia Gibb, faz um relato "maquiado" da vida de Karen. A atriz também disse que muitas das informações foram "diluídas ou totalmente removidas" a pedido de Richard. Ele também solicitou que Cynthia usasse as roupas originais de Karen Carpenter, que ele emprestou, e que ela perdesse o peso necessário para caber nessas roupas. "Perdi peso como Richard queria e ele estava lá monitorando todas as cenas", declarou Cynthia. “Era enervante ter que usar as roupas de Karen, suas camisetas justas e calças boca de sino. Usei uma peruca e a maquiagem de Karen. Quando terminei, senti que eu ERA Karen."

Agnes (Louise Fletcher)



O filme se divide em três camadas que se entrelaçam na narrativa: a história dos irmãos Carpenters e de como eles tiveram sucesso; os problemas com a anorexia de Karen e o vício de Richard em pílulas para dormir. Embora A História de Karen Carpenter seja um ótimo entretenimento, cheio de canções conhecidas dos Carpenters, é um filme mais para fãs de sua música do que para aqueles que querem conhecer a fundo a verdade sobre as lutas íntimas de Karen contra a anorexia e do irmão contra o uso abusivo de remédios para dormir.

Harold (Peter Michael Goetz) e Agnes (Louise Fletcher), pais dos irmãos Carpenters

Em alguns momentos, o filme se permite algumas “licenças poéticas”, para efeitos de dramaticidade, que funcionam bem na TV. Como quando Karen desmaia no palco enquanto canta Top of the World. A cena é fictícia, assim como aquela em que Richard passa mal e cai de um lance de escadas — consequência do uso excessivo de comprimidos para dormir.




Apesar de oficialmente dirigido por Joseph Sargent, Richard Carpenter esteve junto durante todo o processo de filmagem e foi também produtor do filme, bem como da trilha sonora. Nas notas de capa do CD Carpenters Gold: 35th Anniversary Edition (2004), Richard disse que se arrependeu de fazer parte da produção do filme. E também confirmou que muitas cenas foram fictícias.

A História de Karen Carpenter estreou nos EUA em 1º de janeiro de 1989, pelo canal CBS. Alcançou ótima popularidade na época de sua exibição. Foi o telefilme de maior audiência do ano e um dos mais comentados da TV americana no final dos anos 1980. Aqui no Brasil, foi exibido pela primeira vez em 6 de fevereiro de 1993, na Globo. Não chegou a ter lançamento oficial em VHS e nem em DVD nos Estados Unidos, mas foi lançado em laserdisc no Japão.