13 novembro 2016

Além da trilha oficial de Selva de Pedra (1972)


É curioso observar como as novelas de antigamente se apropriavam de músicas pré-existentes para utilizá-las como trilha incidental das tramas. Essas muito comuns "músicas de fundo", como também são conhecidas, pontuam as narrativas e criam um ambiente para as cenas. Especialmente nas novelas da primeira metade dos anos 1970, muitos desses temas eram tirados de trilhas de filmes americanos ou europeus da época. As músicas incidentais de Selva de Pedra formam uma verdadeira miscelânea de trilhas de filmes estrangeiros daquele período.

Os LPs nacional e internacional de Selva de Pedra
Naqueles tempos de recursos limitados, quando a venda de discos de novelas ainda não havia atingido o ápice da popularidade, era comum ouvir, a cada capítulo, canções que não faziam parte da trilha oficial da novela, mas que estavam muito presentes na trama. No caso de Selva de Pedra (1972-73), uma novela emblemática, de grande sucesso e com o mais marcante tema romântico das telenovelas brasileiras — Rock and Roll Lullaby — não foi diferente. 


Os LPs nacional e internacional de Selva de Pedra vieram recheados de sucessos que marcaram época. Das faixas importadas, além da já mencionada Rock and Roll Lullaby, de B. J. Thomas, canções de Michael Jackson, The Supremes, Giorgio (Moroder) e Françoise Hardy, entre outros, fizeram enorme sucesso. Até faixas instrumentais — muito populares na época — viravam hits. Sleepy Shores, do compositor e orquestrador britânico Johnny Pearson, é um bom exemplo. Pearson comandou a orquestra do programa de TV britânico Top of the Pops por 16 anos e teve várias de suas composições usadas como temas de séries e telefilmes.


À frente da Johnny Pearson Orchestra, Pearson alcançou altas colocações na parada britânica em 1972, com Sleepy Shores, tema da série de televisão Owen, M.D. (1971–73). Para a trilha internacional de Selva de Pedra, o maestro, compositor e arranjador brasileiro Waltel Branco providenciou uma regravação de Sleepy Shores bem fiel à original. No comando da Free Sound Orchestra, ele interpretava e compunha faixas para as novelas da Globo, especialmente na primeira metade da década de 1970. "Tenho música em todas as trilhas internacionais dessa época. É que estão assinadas por W. Blanc, Bianco e por aí vai", explica Branco no livro Teletema, de Guilherme Bryan e Vincent Villari (Dash Editora, 2014). "Como eram trilhas internacionais, não podia pôr nome brasileiro. Daí inventamos a Free Sound Orchestra, que em português quer dizer Orquestra Som Livre. Eu sou o responsável por tudo que aparece como Free Sound Orchestra."

O LP original da Johnny Pearson Orchestra (1972)
O compacto da Free Sound Orchestra (1972)
Houve até uma pequena confusão quando saiu a primeira leva de LPs Selva de Pedra internacional, em 1972. Sleepy Shores, composta por Johnny Pearson, aparecia em gravação da Free Sound Orchestra. "Na primeira edição do disco, a faixa, que embala a dor de Fernanda [Dina Sfat] após ser abandonada no altar por Cristiano [Francisco Cuoco] e o desespero que a conduz à loucura, aparece com o título If You Want More e o crédito de composição a Waltel Branco e Antônio Faya. Na edição seguinte, o erro é corrigido e a canção surge com seu título original e com o crédito ao devido autor." (Teletema, de Guilherme Bryan e Vincent Villari. Dash Editora, 2014).

Compacto A Taste of Excitement, lançado no Brasil em 1972

Outra faixa instrumental muito tocada na novela (e que também fez parte da trilha internacional oficial) foi A Taste of Excitement, da orquestra britânica Carnaby Street Pop Orchestra And Choir, liderada por Keith Mansfield. Originalmente composta para o obscuro filme Taste of Excitement (1969, do diretor Don Sharp), a faixa que também dava nome ao filme entrou para o LP internacional de Selva de Pedra e se tornou um dos temas mais marcantes da trama. O álbum da Carnaby Street Pop Orchestra And Choir havia sido lançado na Inglaterra, em 1969. Apesar de ser hoje um disco bem raro, suas faixas são instantaneamente reconhecidas por qualquer brasileiro por um simples motivo: a Rede Globo, a partir dos anos 1970, passou a utilizar várias delas em seus programas e novelas. 

Além de A Taste of Excitement compondo a trilha internacional de Selva de Pedra, a música Drum Diddley tornou-se o tema da vinheta de "estamos apresentando" da novela (embora não tenha entrado no LP). Outra faixa da orquestra, Dr. Jeckle and Hyde Park, também foi ouvida na trama. Rebatizada apenas de Hyde Park aqui no Brasil, a faixa foi imortalizada ao virar também tema do programa Esporte Espetacular, em 1973, e continua até hoje. 

Vinheta "estamos apresentando"


A Taste of Excitement chegou a ser lançada em compacto aqui no Brasil (com Drum Diddley no lado B). Apesar de instrumental, fez tanto sucesso que ganhou uma gravação em português, com letra e tudo, cantada por Agnaldo Rayol: Na Selva de Pedra. A versão em português, composta por Nazareno de Brito, saiu no LP Imagem, lançado por Rayol em 1972. Afinal, capitalizar em cima de algo que está fazendo sucesso não é coisa de hoje. Ainda mais tratando-se de Selva de Pedra, telenovela que hipnotizou o Brasil e conseguiu a façanha de obter 100% de audiência, quando a personagem de Regina Duarte foi desmascarada.


The London Theme (1969), o álbum original da Carnaby Street Pop Orchestra And Choir, de onde saíram essas três faixas (A Taste of Excitement, Drum Diddley e Hyde Park), não foi lançado no Brasil na época. Estranhamente, a gravadora Top Tape adquiriu os direitos em 1978 e lançou o LP aqui, com quase dez anos de atraso. E tratou de rebatizá-lo de A Taste of Excitement, com nova capa, totalmente diferente da original, e ainda com a ordem das músicas trocada.

O álbum original da Carnaby Street Pop Orchestra and Choir (1969)
O mesmo álbum, lançado no Brasil em 1978, com capa diferente e ordem das músicas alterada
Boa parte da música Hyde Park foi usada no capítulo em que a artista plástica Rosana Reis (personagem de Regina Duarte) volta de Paris e é apresentada à sociedade carioca, em uma exposição com suas obras. No petit comité realizado depois, a canção Family Affair, hit de 1971 do grupo norte-americano de funk Sly and the Family Stone, também é escutada na festinha (embora não faça parte da trilha oficial da novela). 

A exposição da artista plástica Rosana Reis (Regina Duarte)


Além das faixas dos LPs nacional e internacional, várias outras eram executadas na trama de Janete Clair. Da trilha sonora do filme Ladrão que Rouba Ladrão (Dollar$, 1971), a novela pegou emprestada cinco faixas: Snow Creatures, Candy Man e Money Runner (muito usadas em cenas de suspense ou tensão), e também Rubber Ducky e Kitty With the Bent Frame, todas compostas especialmente por Quincy Jones para o filme. Dirigido por Richard Brooks, o longa foi estrelado por Warren Beatty e Goldie Hawn.

Quincy Jones


Trilha sonora do filme Ladrão que Rouba Ladrão (Dollar$)
Da trilha sonora do filme Sol Vermelho (Soleil Rouge, 1971), dirigido por Terence Young e estrelado por Charles Bronson, Alain Delon e Ursula Andress, mais cinco faixas foram tomadas emprestadas para criar climas em Selva de Pedra: Commanches e Les Roseaux En Feu, muito utilizadas em cenas de suspense, além das dramáticas Le Sabre, L’enterrement, Samourai e da apoteótica Vers La Montagne. Todas compostas por Maurice Jarre para a trilha sonora oficial do filme.


Trilha sonora do filme Sol Vermelho (Soleil Rouge)
Um terceiro filme, também de 1971, teve suas músicas usadas na novela. Da trilha sonora de Sacco e Vanzetti, composta por Ennio Morricone, foram usadas como temas de suspense Nel Carcere e E Dover Morire, além das pungentes Libertà Nella Speranza e Speranze Di Libertà. O filme, do diretor italiano Giuliano Montaldo, é baseado na história real dos imigrantes italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, presos em 1922, acusados de participação em um assalto e assassinato de dois empregados de uma firma em Boston. 

Ennio Morricone


A "trilha não oficial" de Selva de Pedra ainda teve Nadia's Theme, composta por Barry De Vorzon e Perry Botkin Jr. em 1971. Originalmente intitulada Cotton's Dream, a música já havia sido composta pela dupla como tema incidental para o filme Abençoai as Feras e as Crianças (Bless the Beasts and Children, 1971), de Stanley Kramer. A música também se tornou o tema da soap opera (telenovela) americana The Young and the Restless, que estreou em 1973 na CBS. Toda essa salada de temas instrumentais enriqueceram as cenas e o tom dramático de Selva de Pedra, numa época em que as tramas tinham trilhas incidentais fortes e muito bem utilizadas (às vezes até em excesso).  




Para saber mais sobre a novela Selva de Pedra, acesse o site Teledramaturgia.



05 novembro 2016

Um galã entre os tubarões


Andrés García, nascido na República Dominicana, é um ator bastante conhecido na América Latina e nos Estados Unidos, apesar de ter desenvolvido sua carreira principalmente no México. Aqui no Brasil, é conhecido pela novela mexicana O Privilégio de Amar, exibida pelo SBT em 1999 e reprisada em 2002, 2008 e 2013. Na trama, García viveu André Duval.



A fama do ator, no entanto, não é recente. Ele estreou no cinema em 1967, no filme mexicano Chanoc, em que vivia o papel-título, um mergulhador sempre pronto para deter as maldades perpetradas pelos vilões. Desde então, García passou a atuar em uma penca de filmes, todos os anos, não raro mais de uma produção por ano. Também esteve em várias fotonovelas.



Símbolo sexual nas décadas de 1970 e 1980, encarnava com sucesso o tipo "macho latino e sedutor", razão pela qual foi galã de várias telenovelas mexicanas. (Não é à toa que ele é pai de nada menos que 16 filhos! Dois deles também atores). Entre as muitas passagens dignas de novela de sua vida (sobreviveu a um acidente de helicóptero, a um câncer de próstata e a uma tentativa de assassinato, entre outras coisas), foi o primeiro e único homem a arriscar a própria vida nadando com tubarão-limão, tubarão-cabeça-chata e tubarão-tigre, espécies perigosíssimas de tubarões que chegam a medir até 6 metros de comprimento. Talvez, por isso, tenha participado de uma série de filmes sobre tubarões — um tema muito em voga e explorado ao extremo — nos anos 1970.




Andrés hoje, aos 75 anos
E agora chegamos ao verdadeiro tema deste post: quatro pérolas trash daquela década, estreladas por Andrés García e por… tubarões. O mais impressionante é que, entre 1977 e 1978, García estrelou nada menos que QUATRO desses filmes, sendo três do diretor mexicano de filmes exploitation René Cardona Jr.: Tintorera! (abril de 1977), O Triângulo Diabólico das Bermudas (março de 1978), A Caverna dos Tubarões (junho de 1978) e O Ciclone (outubro 1978). Todos os quatro filmes têm tramas inverossímeis, diálogos que parecem ter sido escritos por crianças de 10 anos e atuações canastríssimas. Por tudo isso, são clássicos obscuros irresistíveis (para os amantes do gênero, claro). Vamos aos ditos-cujos:


Tintorera! 
(¡Tintorera! / Tintorera: Killer Shark, 1977)
Direção: René Cardona Jr. 
Com: Susan George, Andrés García, Hugo Stiglitz, Roberto 'Flaco' Guzmán, Fiona Lewis




Apesar da época e do título (que se refere a um tipo perigoso de tubarão), definitivamente não se trata de mais uma cópia latino-americana de Tubarão (Jaws, 1975). Claro que o nome do filme e o poster pegam carona na moda dos tubarões assassinos para atrair atenção, mas Tintorera! é um filme arrastado e sem suspense algum. É uma espécie de chanchada sobre dois caçadores de tubarões e suas aventuras amorosas/sexuais com várias mulheres fáceis. No meio disso, um tubarão gigante (que dá nome ao filme) supostamente aterroriza a costa leste do México. Mas isso é meramente pano de fundo, já que o centro do filme (se é que ele tem algum centro) é a improvável amizade que surge entre Miguel (Andrés García) e Steven (Hugo Stiglitz), formando um triângulo amoroso consentido com a inglesa Gabriella (Susan George). O filme não tem uma história bem definida. Os diálogos, de tão primários, chegam a ser embaraçosos. A impressão que temos é a de que precisavam encher duas horas de película com cenas de praias deslumbrantes, fundo do mar, moças espevitadas, festinhas em barcos e personagens superficiais que entram e somem sem explicação. Tintorera! também funciona como uma ótima vitrine para a beleza física de Andrés García (que aparece só de sunga quase o tempo todo, e até nu), explorada ao máximo. O final insólito coroa essa canastrona produção mexicana. 


O Triângulo do Diabo 
(The Bermuda Triangle, 1978)
Direção: René  Cardona Jr.
Com: John Huston, Andrés García, Hugo Stiglitz, Gloria Guida, Claudine Auger




Cheguei a falar sobre esse filme em outra postagem, no começo do ano passado: 4 filmes para morrer antes de ver. O que dizer (mais) sobre essa canastrice sem eira nem beira? Tudo se resume ao seguinte: o motivo de todos os acidentes e desaparecimentos inexplicáveis com navios e aviões no Triângulo das Bermudas é... uma boneca! Sim, uma boneca possuída. Os passageiros e a tripulação de um barco à deriva no Triângulo das Bermudas começam a testemunhar coisas estranhas a bordo. São duas horas de uma monotonia interminável, diálogos vazios e uma história que não vai a parte alguma. E, de repente, termina com uma pergunta que soa pouco auspiciosa: "Who will be the next?" (Quem serão os próximos?). Como me sujeito a assistir e a prestigiar esse tipo de filme, é bem provável que eu esteja entre "os próximos".


A Revanche do Último Tubarão 
(Bermude: la fossa maledetta / Cave of the Sharks, 1978)
Direção: Tonino Ricci (Anthony Richmond)
Com: Andrés García, Janet Agren, Arthur Kennedy, Pino Colizzi, Máximo Valverde




Desta vez o pastiche é italiano. Aliás, a Itália adorava ganhar uns trocados com filmes de tubarões, no final dos anos 1970/começo dos 1980, na esteira do sucesso de Tubarão (Jaws, 1975), como não podia deixar de ser. Novamente o tema do Triângulo das Bermudas se associa à influência diabólica de uma boneca aleatória. Andres (Andrés García), dado como morto após vários meses desaparecido no mar, reaparece, trazido pela maré. Mas o rapaz volta completamente sem memória. O navio onde ele estava, assim como a tripulação, desapareceram. Em sua recuperação, Andres conta com a ajuda do irmão Ricardo (Máximo Valverde) e da noiva Angelica (Janet Agren), que acabou iniciando um caso com Ricardo quando Andres foi dado como morto. Mas isso não tem qualquer relevância na trama (se é que existe alguma trama). Rapidamente Andres se recupera e, juntamente com Enrique (Pino Colizzi), seu parceiro de pesca submarina, aceita uma inesperada proposta de trabalho. Mr. Jackson (Arthur Kennedy) contrata a dupla para resgatar um avião que afundou na região do Triângulo das Bermudas. Próximo ao local, no fundo do oceano, Andres e Enrique encontram a entrada de uma misteriosa caverna submersa, cercada por tubarões adormecidos. Andres fica impressionado, já que tubarões não dormem. Logo, ele chega à conclusão de que há algum tipo de civilização antiga vivendo no fundo do mar e controlada por tubarões. Como ele chegou a essa conclusão foge de qualquer tentativa de explicação racional. Acontece que Mr. Jackson é um mafioso desonesto e tenta matar a dupla de mergulhadores. Enrique, baleado, desaparece, provavelmente morto. Andres escapa da emboscada, mesmo baleado, milagrosamente. Mas quer voltar ao sombrio local, nas profundezas do oceano, para tentar desvendar o mistério e o sumiço do parceiro. No meio disso tudo, há também uma sub-trama sem qualquer ligação com a história. Em uma estranhíssima cena, um grupo de hippies tocando violão em um barco sente um impulso incontrolável de se jogar no mar, como se estivessem hipnotizados. Há ainda uma boneca sinistra que também cai no mar e solta sangue. Faz algum sentido? Nenhum. Mas o que importa é ver Andrés García sempre metido em alguma encrenca submarina. E, claro, um típico desfecho abrupto, sem pé nem cabeça. Lançado em VHS no Brasil com o título A Caverna dos Tubarões.


O Ciclone
(Cyclone, 1978)
Diretor: René Cardona Jr.
Com: Arthur Kennedy, Carroll Baker, Andrés García, Lionel Stander, Hugo Stiglitz




Neste suprassumo dos filmes B dos anos 1970, o diretor faz uma mixórdia caótica e mistura desastre aéreo, catástrofe natural, naufrágio, tubarões assassinos e canibalismo. Primeiro, somos apresentados a um grupo de turistas, em um barco, apreciando a vista, conduzidos pelo capitão interpretado por Andrés García. Há também os passageiros de um avião que sobrevoa a região. E, para completar, um barco menor de pesca e sua pequena tripulação. Mas uma inesperada tempestade atinge a paradisíaca costa e bagunça tudo. O avião é atingido por um ciclone, cai e afunda no mar. Alguns sobreviventes se refugiam em um pequeno barco. Os pescadores são forçados a usar um bote, ao mesmo tempo em que o barco com os turistas fica à deriva. Os três grupos acabam juntos no barco dos turistas, sem ter para onde fugir. Jogados à deriva no mar aberto e com pouquíssima comida e água potável, começam a morrer de fome, sob o sol escaldante. A costumeira seleção de clichês — o padre, o médico, a socialite e seu cãozinho mimado, o empresário ambicioso, a mulher grávida etc. — forma, agora, um único grupo. Sem saída, os sobreviventes não têm outra solução a não ser apelar para o canibalismo, na tentativa de prolongar a existência. E ainda se defender de perigosos tubarões! Como dá para perceber, é uma espécie de Sobreviventes dos Andes em versão marítima. (René Cardona, pai de René Cardona Jr., já havia explorado o tema no filme Supervivientes de los Andes, de 1976). Mas o maior problema deste filme são os diálogos tenebrosos e o ritmo insuportavelmente lento. Sem dúvida, um dos mais monótonos. Um verdadeiro festival de sensacionalismo barato em um filme exageradamente longo. Quase dá para sentir a angústia e o tédio dos infelizes sobreviventes unidos e fustigados pela desastrosa circunstância.

26 outubro 2016

Convenção bruxólica


Há pouco mais de 25 anos estreou, na extinta Rede Manchete, a minissérie Ilha das Bruxas. Com direção de Henrique Martins e Álvaro Fugulin, foi a primeira e única escrita pelo ator Paulo Figueiredo.


Inspirada na obra do pesquisador catarinense Franklin Cascaes (1908-1983), era a história dos mistérios da Ilha de Santa Catarina, envolvendo cultos de bruxas e o sobrenatural. Cascaes utilizou seu talento para registrar o universo legado pelos antigos colonos açorianos através de seus descendentes. Em sua incansável pesquisa, desenvolvida ao longo de 30 anos, preservou a memória da cultura popular da Ilha de Santa Catarina.


Os relatos documentados por Cascaes serviram de base para o roteiro da minissérie, feito por Paulo Figueiredo, com argumento de Bebel Orofino Schaefer. Várias das histórias foram sabiamente costuradas e formaram a trama de Ilha das Bruxas.

Paulo Figueiredo
Pedro (Irving São Paulo), um jovem pescador, namora Alice (Daniela Camargo), filha de Giuliano (Eduardo Conde) e Alma (Denise Del Vecchio). A moça é neta de dona Ludovica (Miriam Pires), a dominadora e misteriosa mãe de Giuliano. Mas o jovem Washinghton (Nelson Freitas), filho do truculento agricultor Geraldo Sem Medo (Umberto Magnani) e de Aquilina (Maria Helena Dias), também é apaixonado por Alicinha.

Alicinha e Pedro
O romance de Pedro e Alicinha é conturbado, pois o rapaz é alvo da cobiça de Selena (Dedina Bernardelli), uma jovem bruxa que sai durante a noite para enfeitiçá-lo e seduzi-lo. Aparentemente vinda do passado, Selena esconde um poderoso segredo, que faz com que ela e Pedro sejam intimamente ligados. O pai do rapaz, o doutor Benzedor (Isaac Bardavid), médico aposentado e curandeiro da região, desconfia que o filho esteja sob "influência bruxólica".

Selena
A verdade é que, no dia a dia, as bruxas da remota ilha são mulheres comuns, esposas submissas e insuspeitas. À noite, secretamente, se reúnem para suas convenções bruxólicas e seus rituais diabólicos, regados a sangue de bebês. Ludovica é, na verdade, a líder das bruxas da ilha. É ela quem influencia Aquilina, Domingas (Desireé Vignolli) e Mariana (Ana Cecília Costa), além de várias outras mulheres do lugarejo. Revoltadas com a opressão masculina e com seu papel inferiorizante, elas se reúnem na floresta e celebram seus poderes ocultos e maléficos, enfeitiçando homens e se vingando deles.

Dona Ludovica

Domingas

Aquilina
Só quem pode desmascarar as bruxas e enfrentá-las de igual para igual são o doutor Benzedor e Constância (Wanda Cosmo), a benquista benzedeira da ilha, uma espécie de "bruxa do bem". No meio disso, o assassinato de um velho gringo pesquisador, William (Rubens Corrêa) tem que ser solucionado. Ele chegou perto de descobrir o segredo das bruxas e acabou misteriosamente assassinado. Cabe ao frouxo delegado Leandro (Camilo Bevilacqua) a difícil missão de desvendar o crime. O filho de William, David (Leonardo Franco), e Jessica (Julia Lemmertz), a jovem viúva do pesquisador (de quem David era amante) chegam à ilha para tentar esclarecer as circunstâncias misteriosas da morte do gringo.

Dona Constância e doutor Benzedor
Apesar de sua produção modesta, a minissérie conseguiu manter um raro clima sombrio de mistério e suspense ao longo de seus capítulos, reminiscente dos antigos filmes de terror. Um feito não muito comum em séries brasileiras de TV na época. Mas a Manchete gostava de ousar em sua teledramaturgia e não poupou temas polêmicos em Ilha das Bruxas: cenas fortes, mostrando rituais de magia negra, bebês de verdade tendo seu sangue sugado, pragas das bruxas envolvendo cobras, aranhas e morcegos, cenas picantes de sexo. Tudo isso deixou a trama mais pesada, mas inegavelmente assustadora.

Anúncio no Jornal do Brasil, na semana de estréia da minissérie

O elenco é ótimo. Entre veteranos e rostos pouco conhecidos, alguns jovens em início de carreira também participaram da minissérie, como André Gonçalves, em seu primeiro papel da TV, e o então novato Nelson Freitas.



Nelson Freitas como Washington
André Gonçalves como Tonico