08 maio 2017

Novelas pouco memoráveis, trilhas internacionais marcantes


Sabe aquelas novelas das quais pouca gente se lembra? Ou até se lembra, mas não sente muita vontade de rever. O fato de não terem emplacado e nem entusiasmado o público fez com que caíssem no esquecimento rapidamente. No entanto, se as novelas em si não deram certo — por um motivo ou outro — , suas trilhas sonoras internacionais eram recheadas de hits da época. Muito tocados nas rádios, programas de TV e festas, esses hits ainda estão vivos na memória do público, mesmo que as novelas não sejam tão memoráveis. Listei sete dessas trilhas internacionais:


1. Supermanoela (1974)


Mesclando temas românticos com outros dançantes, como é comum em trilhas de novelas, este LP trouxe duas baladas de enorme sucesso: uma foi I’m Falling in Love With You, do grupo de soul norte-americano Little Anthony And The Imperials. O conjunto, na ativa desde a década de 1950, era veterano quando lançou o álbum On A New Street (1973), que trazia a faixa em questão. Curiosamente, a música estourou no Brasil, mas não foi tão marcante fora daqui. O próprio grupo é pouco lembrado hoje em dia. Outra balada, Betcha By Golly, Wow, do grupo também norte-americano de R&B The Stylistics, é muito executada ainda hoje. Até meados da década de 1970, o conjunto (formado no final dos anos 1960) dominou as paradas de sucesso com suas canções românticas, emplacando hit atrás de hit. Betcha by Golly, Wow estava no LP de estreia, lançado em 1971, que também incluía outro grande sucesso: You Are Everything. No LP internacional de Supermanoela, a faixa aparece na famosa gravação de Diana Ross & Marvin Gaye. Outro megasucesso no LP é Goodbye Yellow Brick Road, de Elton John, comumente considerada sua melhor canção. Passando para as faixas dançantes, Hey Hey, do conjunto francês Pop Concerto Orchestra, também estourou no Brasil, além de Witch Doctor Bump, do grupo Chubukos, funk apelidado aqui de "Melô do Pato" (devido aos vocais distorcidos, lembrando o Pato Donald). The Love I Lost, sucesso de 1973 do grupo Harold Melvin & The Blue Notes, também entrou no LP, porém em gravação genérica de Allen Brown. Sylvia, que Stevie Wonder havia lançado em seu álbum de 1966, Down to Earth, também teve destaque na trilha da novela e nas paradas de sucesso. Detalhe: todas essas citadas são apenas as faixas do lado A, que sobreviveram ao tempo e continuam vivas na memória do público.


2. Sinal de Alerta (1978-79)



Como explicam Guilherme Bryan e Vincent Villari em seu livro Teletema: a História da Música Popular Através da Teledramaturgia Brasileira - Vol.1 - 1964 a 1989 (Dash Editora, 2014), as faixas dançantes não foram prioridade neste LP: "Contrariando a tendência da época, esta trilha se baseou mais no pop internacional do período do que na disco music, que realmente nada tinha a ver com o clima da trama (...)". Mesmo assim, três sucessos do gênero marcaram presença: Boogie Oogie Oogie, um dos maiores hits da disco music e o maior do conjunto A Taste of Honey (aqui em versão genérica de Black Symphony); Love’s in You, Love’s in Me, parceria de Giorgio Moroder, papa da música eletrônica, com a cantora Chris Bennett; e Shadow Dancing, o maior hit de Andy Gibb (irmão caçula dos Bee Gees), que liderava as paradas de sucesso da época. Fool (If You Think It’s Over), maior sucesso do britânico Chris Rea (considerado one-hit-wonder), foi outra faixa marcante. Rita Coolidge, que emplacava várias canções românticas na época, era presença constante nas trilhas de novelas da época. Aqui a escolhida foi Love Me Again, tirada do álbum de mesmo nome, lançado naquele ano. O guitarrista, cantor e compositor Eric Clapton teve um de seus maiores hits nesta trilha: Lay Down Sally, faixa country extraída do LP Slowhand (1977), um dos mais emblemáticos e bem aclamados de sua carreira. A canção também fez parte da trilha de Álbum de Família (August: Osage County), um dos filmes mais elogiados de 2013. Falando em filme, dois temas de filmes de 1977 entraram neste LP: o primeiro, Goodbye Girl, de David Gates, tema do filme A Garota do Adeus (Goodbye Girl, 1977) — que rendeu a Richard Dreyfuss o Oscar de Melhor Ator; o segundo, A Distant Time, de Freya Crane, tema de Haunted, filme de terror de quinta categoria do diretor Michael A. de Gaetano. Still the Same, grande sucesso do americano Bob Seger, também é muito lembrada até hoje e aumentou a lista de canções marcantes deste LP. 


3. Os Gigantes (1979-80)



A "ovelha negra" das telenovelas brasileiras ganhou uma trilha internacional bem eclética, com hits que até hoje são muito ouvidos e executados. Teve um pouco de tudo: jazz-funk, rock, disco music, românticas, instrumentais. Praticamente todo o lado A é bem conhecido e ainda tocado em rádios e programas de TV: Good Times, do Chic; I’ll Never Love This Way Again, de Dionne Warwick; Rise, de Herb Alpert; Sultans of Swing, do grupo Dire Straits; e Still, dos Commodores. O lado B envelheceu mais, com faixas hoje obscuras. Mas ainda assim tem She Believes in Me, grande sucesso de Kenny Rogers — no ápice de sua carreira — extraído do álbum The Gambler (1978). 


4. De Quina Pra Lua (1985-86)



Esta trilha teve uma enxurrada de hits que marcaram os anos 1980 e ainda permanecem bastante lembrados. Praticamente todas as faixas foram muito tocadas nas rádios: Don't Close Your Eyes Tonight, de John Denver; Forever Young, do Alphaville; Rock Me Amadeus, do austríaco Falco; Hurts To Be In Love, de Gino Vanelli; Remember I Love You, de Jim Diamond; Tarzan Boy, do grupo italiano Baltimora; I Miss You, do Klymaxx; Never, do Heart; e Saving All My Love for You, de Whitney Houston. Da novela pouca gente se lembra, mas considero esta trilha uma das melhores da época. O LP é ideal para quem quer dar uma festinha "anos 80", com uma boa dose de pop, rock e canções românticas.


5. O Sexo dos Anjos (1989-90)



Eu gostava muito desta novela (talvez por ser criança) e também das trilhas sonoras nacional e internacional. O LP internacional trazia um monte de sucessos que marcaram época. O lado A é bem conhecido: Sweet Child o' Mine, do Guns N' Roses; Listen To Your Heart, do Roxette; A Little Respect, do Erasure; You Got It, de Roy Orbison; Boys (Summertime Love), da italiana Sabrina; If You Don't Know Me By Now, originalmente do grupo Harold Melvin & the Blue Notes, aqui regravada pelo Simply Red; e I'll Be Loving You (Forever) do New Kids On The Block. Boys é frequentemente incluída em coletâneas baratas dos anos 1980. Originalmente lançada em 1987, a faixa explodiu no mundo principalmente por causa do provocante videoclipe da música (um dos mais bregas que já vi). No vídeo, Sabrina aparece dançando na piscina de um movimentado hotel, vestindo um biquíni sem alça. Ao dançar, espevitada, a parte superior do biquíni ficava caindo — o que revelava seus mamilos. A impressão que dá é que o vídeo foi improvisado e mal editado, talvez propositalmente, para exibir os atributos da ragazza. A rede britânica BBC chegou a proibir o clipe de Boys, que depois foi editado para exibição na emissora. O fato é que a música, até hoje, é bem conhecida.


6. Gente Fina (1990)



Impressionante como não me lembro de quase nada desta novela, a não ser da abertura e de algumas cenas soltas. Mas me recordo de ter tentado assisti-la e de tê-la achado bem chata. No entanto, a trilha internacional tocava muito nas rádios. Praticamente todo o lado A foi bastante executado: Another Day in Paradise, de Phil Collins; Running, do Information Society; Sealed With a Kiss, hit dos anos 1960 aqui na versão gravada pelo australiano Jason Donovan (que a recolocou no topo das paradas); Janie's Got a Gun, do Aerosmith; e Advice For The Young At Heart, da dupla Tears For Fears. O lado B não tem tantas faixas marcantes, mas três delas foram grandes hits: Oh L'Amour, do duo Erasure; How Am I Supposed To Live Without You, de Michael Bolton; e All I Wanna Do Is Make Love To You, do Heart.


7. Mico Preto (1990)



Apesar de ter ficado datado, o lado A deste LP quase todo foi de hits que marcaram aquele período: Sending All My Love, do grupo Linear; My My My, de Johnny Gill; Move This, do Technotronic; Still Got the Blues, de Gary Moore; U Can't Touch This, do MC Hammer (faixa até hoje muito popular, sampleada do hit Super Freak, que Rick James lançara em 1981) e The Emperor's New Clothes, de Sinead O'Connor. No lado B,  três sucessos resistiram ao tempo: Oh Girl, de Paul Young; The Power, da banda alemã Snap!; e Star, do Erasure, todas conhecidíssimas. Me lembro de quando ganhei a fita cassete de Mico Preto internacional e de como a escutava sem parar.


PARTE 2

29 abril 2017

Baile de Formatura


Gene Siskel, o lendário crítico norte-americano de cinema, chamou esse filme de "versão pobre de uma mistura de Halloween com Carrie - A Estranha". Outro crítico o chamou de "uma combinação de  Sexta-feira 13 com Os Embalos de Sábado à Noite". Com essas dicas, os mais familiarizados com o gênero slasher já sabem que estou falando de Baile de Formatura (Prom Night, 1980), de Paul Lynch. Sem dúvida, meu favorito do gênero.

Lembro-me bem de quando me apaixonei por esse filme, ainda na adolescência. Aluguei a fita (lançada em VHS no Brasil pela Globo Video, com o título A Morte Convida Para Dançar) e passei a revê-la praticamente todo final de semana. Na mesma época, o SBT também costumava exibir o filme no Cinema em Casa.




Como já falei em outro post, o slasher é um subgênero dos filmes de terror, que envolve assassinos psicopatas e mortes em série. Começou com Halloween (1978) e Sexta-feira 13 (1980) e entupiu toda a década de 1980, a ponto de saturar o gênero. Mas Baile de Formatura é o meu preferido por uma série de razões. Uma delas: as motivações do assassino são reais, humanas. Ele não sai matando aleatoriamente. Tampouco se trata de um monstrengo imortal, indestrutível ou com forças sobrenaturais. Gosto mais dos filmes de terror com psicopatas ou assassinos humanos (como no também canadense Feliz Aniversário Para Mim), em vez de vilões tipo Jason ou Freddy Krueger, que não morrem jamais e rendem dezenas de continuações.

Como a própria fita de VHS descreve, na contracapa, a história é a seguinte: "De uma ingênua brincadeira infantil nasce a tragédia. Num prédio em ruínas, a pequena Robin, assustada pelos amiguinhos, corre para uma janela, cai e morre. As outras crianças, sentindo-se culpadas, juram não contar nada a ninguém e fogem do local. Mas alguém testemunhou o acidente. Seis anos após a morte de Robin, no dia em que a escola se prepara para uma grande festa, os quatro amigos, hoje adolescentes, começam a receber bilhetes e telefonemas ameaçadores. É noite de festa. Enquanto todos dançam, o misterioso assassino mata, metodicamente, um por um dos participantes do jogo fatal, num terrível ritual de vingança. Quem será ele?"

Presentes na tétrica brincadeira estavam as crianças Nick, Wendy, Jude e Kelly. A família da garotinha Robin ficou devastada. Sua irmã Kim, o irmão Alex e seus pais, Mr. e Mrs. Hammond, tocaram suas vidas com a amarga lembrança da morte de Robin. Mr. Hammond é o diretor do colégio Hamilton High, onde vai acontecer a festa de formatura da turma, seis anos depois da morte de Robin. Outros alunos do colégio incluem a espevitada Vicky (Pita Oliver), o arruaceiro Lou (David Mucci) e o fanfarrão Seymour 'Seboso' (Sheldon Rybowski).

Filmado ao longo de 24 dias em Toronto, no Canadá, entre agosto e setembro de 1979, o filme chegou aos cinemas em julho de 1980. Na época, os slasher movies estavam apenas começando. Mas Baile de Formatura se diferencia dos demais por se tratar mais de uma melancólica história de suspense do que de terror. Tanto que o ritmo é bem mais lento. As mortes sangrentas — que geralmente começam a acontecer logo no começo dos slashers — só passam a ocorrer, de fato, depois de quase uma hora de filme em Baile de Formatura (tirando a morte acidental da garotinha, no início). Aviso: NÃO há spoilers nesta postagem.

A brincadeira sádica de Kelly, Nick, Jude e Wendy terminou em morte
Kelly, Nick, Jude e Wendy, seis anos depois
O filme foi realizado de forma bem mais elaborada do que Sexta-Feira 13 (que, por sinal, havia estreado apenas dois meses antes). Mas, por alguma razão, Sexta-Feira 13 tornou-se um fenômeno. Se, por um lado, Baile de Formatura fez sucesso e obteve críticas melhores, definitivamente não teve o mesmo impacto que Sexta-Feira 13

O filme tem uma hora e meia de duração, aproximadamente, mas a versão exibida na TV americana, no começo da década de 1980, tem mais dez minutos de cenas excluídas da versão oficial do cinema. As cenas não acrescentam grande coisa à história, mas são interessantes para o desenvolvimento dos personagens, e para aumentar as suspeitas que recaem sobre vários deles. Infelizmente essas cenas (apesar de hoje disponíveis no YouTube, tiradas diretamente da TV) nunca foram incluídas em nenhum DVD ou relançamento).

Uma das cenas extras incluídas na versão para a TV americana
No Brasil, o filme estreou na TV em 21 de setembro de 1990, no SBT, e foi reprisado pelo canal ao longo da década. Como Jamie Lee Curtis e Leslie Nielsen já haviam se tornado astros consagrados àquela altura, as resenhas dos jornais destacaram a presença de ambos em um filme de pouco interesse.
A bela Jamie Lee Curtis — que já passou o diabo em Halloween (1978) — e o comediante Leslie Nielsen — de Corra que a Polícia Vem Aí — mantêm o interesse deste filme, que tem o mérito de ser melhor realizado do que a média do gênero. (Jornal do Brasil de 21/09/1990)
Adolescentes que mataram garotinha há seis anos e ocultaram o crime começam a receber ameaças pesadas. Destaque para a presença de Jamie Lee Curtis, que faz a irmã mais velha da menina assassinada. (Folha de S. Paulo de 21/09/1990)





Duas futuras estrelas e muitos ex-futuros astros

No elenco, os únicos nomes conhecidos são Jamie Lee Curtis (no papel de Kim) e Leslie Nielsen (no papel de Mr. Hammond, pai de Kim e Alex). Jamie, na época em começo de carreira, era conhecida por Halloween e A Bruma Assassina, mas ainda não era tão reconhecida. Leslie Nielsen, apesar de veterano, só ficou famoso mundialmente depois do sucesso de Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu! (lançado na mesma época de Baile de Formatura). Aliás, hoje em dia é até curioso ver Nielsen em um papel "sério". A impressão que temos é a de, a qualquer momento, ele vai fazer uma palhaçada. Mas como o filme foi lançado antes que o ator se tornasse famoso por comédias, isso não atrapalhou Baile de Formatura na época.

Leslie Nielsen e Jamie Lee Curtis: pai e filha no filme

Leslie Nielsen (Mr. Hammond), Jamie Lee Curtis (Kim) e Michael Tough (Alex)
O restante do elenco era formado por jovens atores iniciantes do Canadá. Muitos abandonaram a carreira e não chegaram a ficar conhecidos. O par romântico de Jamie Lee Curtis no filme, Nick (Casey Stevens) era uma promessa entre os jovens atores canadenses. Depois de algumas participações em séries e filmes para a TV, Stevens ganhou seu primeiro papel de destaque, como o mocinho de Baile de Formatura. Depois disso, nunca mais conseguiu nada significativo. Morreu de complicações relacionadas à AIDS, em meados dos anos 1980.

Casey Stevens (Nick)
Casey Stevens (Nick) e Jamie Lee Curtis (Kim)

David Grove, autor do livro Jamie Lee Curtis: Scream Queen (BearManor Mediam, 2010), conta: "Casey Stevens foi o mais difícil de rastrear, em termos de pesquisa sobre o que ele fez depois de trabalhar com Jamie Lee Curtis em Baile de Formatura. Ele simplesmente desapareceu. Até que, há muitos anos, foi revelado que ele havia morrido de AIDS, mas nada mais se sabe sobre ele. Fiquei intrigado com isso e continuei investigando. Até que consegui localizar o antigo empresário de Casey, que me colocou em contato com alguns dos antigos amigos do ator. Casey Stevens foi provavelmente a história mais triste entre os pesquisados, pois ele simplesmente sumiu depois do filme. Foi como se seu papel em Baile de Formatura, como rei do baile e par de Jamie, tivesse sido seu único ponto alto na vida. Jamie e Casey ainda tiveram um namorico durante as filmagens."

Eddie Benton, atualmente Anne-Marie Martin (Wendy)
Wendy, a bad girl que todos amam odiar, foi interpretada por Eddie Benton. Ela já havia feito alguns telefilmes e participado de séries. A atriz havia, inclusive, feito teste para viver a princesa Leia em Star Wars, alguns anos antes. Após Baile de Formatura,  Eddie passou a adotar o nome artístico de Anne-Marie Martin. Seu trabalho mais significativo como atriz foi na série Sledge Hammer! (aqui no Brasil, exibida pela Rede Globo com o nome Na Mira do Tira, no final dos anos 1980). Casou-se com o escritor e roteirista Michael Crichton (autor de sucessos como Jurassic Park - Parque dos Dinossauros e  Assédio Sexual, ambos adaptados para o cinema). Desde então, abandonou a carreira de atriz. Anne-Marie é também coautora do roteiro de Twister (1996), junto com o marido Crichton. 

Anne-Marie Martin com o ator David Rasche na série Na Mira do Tira (1986-1988)
O irmão de Kim, Alex, foi interpretado por Michael Tough (na época com 17 anos). Após alguns papéis em telefilmes e séries nas décadas de 1980 e 1990, Tough abandonou a carreira de ator e se tornou corretor imobiliário. Pai de duas filhas, ele comenta, hoje: "Minhas filhas acham graça. E as amigas se divertem ao me ver em Baile de Formatura". Ele não se importa por quase não ser reconhecido atualmente pelo filme. "Éramos todos jovens atores canadenses. O trabalho era basicamente uma diversão e nos virávamos como podíamos, com ou sem dinheiro. Naquele tempo, muitos filmes eram feitos com baixo orçamento". Tough lembra que as filmagens foram muito divertidas e o elenco todo ria bastante. Sobre seus cachinhos, ele recorda: "No primeiro dia de filmagem, a equipe tentou alisar meu cabelo. Queriam que meu visual fosse liso. Levaram umas duas horas para me deixar com o cabelo liso e, cinco minutos depois, com a umidade do verão de Toronto, ficava todo cacheado de novo. Acabaram deixando meu look anelado mesmo."

Michael Tough com seus cachos rebeldes em Baile de Formatura (à esquerda) e atualmente
O resto da rapaziada do filme fez trabalhos para a TV canadense, mas nenhum conseguiu projeção mundial. Mary Beth Rubens e Joy Thompson, respectivamente Kelly e Jude no filme, seguiram em pequenos papéis em produções locais. Talvez Jeff Wincott, que tem um papel pequeno em Baile de Formatura (como o namorado de Kelly), seja o que conseguiu ir um pouco mais longe. Além de ator, é também atleta e artista marcial canadense. Fez vários filmes de luta e ação e ainda trabalha ativamente como ator em séries de TV e outras produções. É muito popular na África do Sul, devido a seus filmes de ação.

Mary Beth Rubens (Kelly) e Joy Thompson (Jude) 
Jeff Wincott (Drew) e Mary Beth Rubens (Kelly)
Um dos muito filmes de luta de Jeff Wincott (à esquerda) e o ator hoje
David Mucci, que interpretou o valentão Lou, além de ter feito várias participações em séries e telefilmes, chegou a participar de um filme de destaque: o premiado Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992), de Clint Eastwood.

David Mucci em Baile de Formatura (acima, à esquerda) e em Os Imperdoáveis (1992)

Adolescentes com cara de velhos

Os habituados a filmes das décadas de 1970 e 1980 sabem que o visual "jovem" não parece, hoje, exatamente, jovem. As roupas, os cabelos e a maquiagem deixam os adolescentes da época parecendo pessoas de meia-idade hoje. Com os jovens "adolescentes" de Baile de Formatura não é diferente. Estudantes do colégio Alexander Hamilton Senior High School prestes a concluírem o segundo grau, a aparência dos atores (principalmente para o público de hoje) é de bem mais velhos. No filme, imagina-se que tenham 17 ou 18 anos, no máximo. No entanto, todos parecem ter mais de 30. (O que, para mim, não deixa de ser divertido). Uma rápida olhada nas fotos abaixo comprova isso. Quem deles aparenta ter 18 anos?

Kim (Jamie Lee Curtis)

Wendy (Eddie Benton)

Jude (Joy Thompson)
Vicky (Pita Oliver)
Lou (David Mucci)
Mas sem dúvida, a que menos tem cada de adolescente é Wendy:



Embalos mortais (e irresistíveis)

O fato de terem usado disco music (que ainda estava na moda, embora no final) como pano de fundo pode ter contribuído para deixar o filme datado depressa demais. Mas ainda acho que, perto de outros filmes feitos na época, Baile de Formatura não é tão sangrento ou grotesco e, por isso, talvez tenha ficado para trás na preferência do público mais ávido por sangue e tripas. 


O diretor usa grande parte do filme para mostrar o cotidiano e um pouco da personalidade de cada personagem. Outra parte é dedicada aos números de dança na festa de formatura. A trilha sonora (nunca lançada oficialmente, a não ser em bootlegs no Japão) virou cult. De acordo com Paul Zaza, responsável pela música no filme, as cenas do baile foram filmadas com hits da disco music de verdade da época. I Will Survive, de Gloria Gaynor, e Born To Be Alive, de Patrick Hernandez, embalaram a festa. Só havia um problema: os direitos para uso dessas canções eram caros demais e iam abocanhar uma parte enorme do orçamento do filme, o que era inviável para uma produção modesta como aquela. O produtor linha-dura Peter Simpson exigiu que Zaza recriasse canções similares àquelas para serem inseridas no filme, já que as cenas haviam sido filmadas e não havia tempo e nem dinheiro para filmá-las de novo com outras canções ao fundo. A ordem foi clara: "Crie canções originais para o filme, que sejam muito parecidas com I Will Survive e Born To Be Alive. Parecidas o suficiente para sermos processados, mas não tão parecidas a ponto de perdermos o processo."

O bootleg (disco pirata) com a trilha sonora, lançado no Japão
Em apenas uma semana e meia Paul Zaza criou, brilhantemente, todas as faixas que são tocadas no filme. Todas gravadas às pressas por músicos de estúdio locais. A única, no entanto, cujo nome aparece nos créditos finais é a que encerra o filme, Fade to Black, cantada — adivinhe — por Gordene Simpson, esposa do produtor Peter Simpson, na época.

As canções do filme (tanto as de discoteca quanto as de suspense) são sensacionais. Ao longo das décadas, os muitos fãs que o longa adquiriu têm verdadeira adoração pela trilha. No Japão, lançaram até um LP pirata com as músicas do filme. Com o advento da internet, as faixas podem ser facilmente ouvidas ou baixadas, incluindo as que nem chegaram a ser utilizadas no filme.



David Grove, autor do livro Jamie Lee Curtis: Scream Queen, escolhe Baile de Formatura como seu filme favorito de Jamie Lee Curtis, depois de Halloween. E não é condescendente com sua explicação:  "Não por Baile de Formatura ser um filme bom, porque não é. É o que há de pior em termos de cultura canadense. O filme é realmente ruim, de certa forma incompetente, mas interessante como uma cápsula do tempo. Tanto em termos da vida e da carreira de Jamie quanto em termos de retratar os adolescentes do final dos anos 1970. Utilizaram a discoteca como pano de fundo porque era a modismo mais forte da época. Se o filme tivesse sido feito em 1981 em vez de 1979, o visual e o clima teriam sido completamente diferentes." 




Continuações 

Acho a história de Baile de Formatura bem concluida. Talvez, forçando a barra, até fosse possível fazer uma continuação. De fato, o filme teve mais três continuações, mas cada uma é uma história diferente e independente, sem nenhuma ligação entre si (ou com o primeiro filme). Considero todos inferiores: Baile de Formatura II (Hello Mary Lou: Prom Night II, 1987), Baile de Formatura III (Prom Night III: The Last Kiss, 1990) e Baile de Formatura 4: A Chacina Continua (Prom Night IV: Deliver Us from Evil, 1992). Mas a parte dois, pelo menos, funciona como filme de terror. Foi bastante reprisada pelo SBT. Uma curiosidade: o único ator que participa de todos os filmes da série é Brock Simpson, filho do produtor Peter Simpson. No primeiro filme, ele interpreta Nick criança. Nos outros filmes, faz outros personagens.

Brock Simpson em Baile de Formatura, Baile de Formatura II e recentemente
Em 2008 o filme ganhou um remake. A trama, no entanto, foi totalmente modificada e modernizada. (Não tive nem a curiosidade de assistir). A premissa principal de Baile de Formatura — um grupo de crianças que comete um crime acidentalmente e jura jamais revelar o ocorrido a ninguém, mas são perseguidas por um assassino em busca de vingança anos depois — também serviu de inspiração para o sucesso Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado (I Know What You Did Last Summer, 1997). As duas histórias, no entanto, não têm nenhum tipo de ligação.


O remake de 2008

12 abril 2017

Das profundezas dos sebos


Uma das coisas que mais gosto de fazer é passar horas olhando as estantes empoeiradas dos sebos de livros, sem compromisso. Adoro descobrir aqueles exemplares esquecidos no meio de uma seção promocional, por exemplo. Romances já amarelados, bem velhos, que passam anos ali e o dono do sebo praticamente implora para alguém levá-los. Por algum motivo, adoro "adotar" essas obras abandonadas.


Tenho especial preferência pelo gênero policial, embora minha atenção seja geralmente voltada para livros de suspense ou terror psicológico também. Estava aqui escarafunchando na minha estante e resolvi juntar quatro títulos que resgatei, em diferentes ocasiões, das profundezas poeirentas dos sebos. Livros já esquecidos e, hoje em dia, praticamente desconhecidos, mas que me proporcionaram bons momentos de entretenimento. Bem, nem todos eles foram exatamente bons, mas tive algumas agradáveis surpresas.


Kill Once, Kill Twice - Kyle Hunt (1956)


Ron Kemp encontra-se acuado pela esposa que reclama o tempo todo, assustado com a amante que o ameaça e desesperado para salvar seu pequeno negócio da falência. Sentindo o peso das pressões constantes de todos os lados, Ron depara-se com o que poderia ser a solução para todos os seus problemas: assassinato. A questão é: valeria mesmo a pena aproveitar aquela chance? Conseguiria ele lidar com o medo e a culpa posteriores?

O clima de tensão da narrativa é crescente, com a exposição das fraquezas do personagem principal, cujos problemas prosaicos tomam proporções muito maiores e opressoras diante da estressante rotina e da urgência por dinheiro. Essa necessidade acaba o levando a matar uma senhora. Com isso, Ron dá vazão a uma força sinistra, que jazia escondida sob sua personalidade medíocre e sem graça. Após matar uma vez, ele percebe que a fronteira foi rompida e que matar novamente não está fora de cogitação.

O título fala exatamente disso (na tradução, seria algo como "quem mata uma vez, mata duas"). A edição que li foi uma de bolso, em inglês, já bem velha e reeditada no começo da década de 1970. Acredito que esse livro nunca tenha sido publicado no Brasil, mas foi lançado em Portugal com o nome Quem Mata Torna A Matar

Kyle Hunt é, na verdade, pseudônimo de John Creasey (1908-1973), produtivo autor britânico que escreveu mais de 600 romances policiais, de suspense e de ficção científica, usando 28 pseudônimos diferentes. Sob o nome de Kyle Hunt, Creasey escreveu mais três livros (todos com a palavra kill no título), no final dos anos 1950. 

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O Anjo Mau - Taylor Caldwell (1965)


A britânica Janet Miriam Holland Taylor Caldwell, mais conhecida como Taylor Caldwell (1900-1985), escreveu vários best-sellers e era um nome bastante popular nas décadas de 1950 e 1960. Em seus livros, Caldwell usava, com frequência, fatos reais e acontecimentos ou personagens históricos. Um dos mais conhecidos é Médico de Homens e de Almas (1958), sobre São Lucas. A prolífica autora pesquisou a vida e as obras de Lucas durante anos, e as descreveu de forma romanceada em uma narrativa cheia de detalhes históricos. Na verdade, Caldwell alternava obras grandiosas com outras "menores". O Anjo Mau é um desses "menores".


É a aterrorizante história de Angelo, orgulho de sua mãe, que o considera a mais bela e inteligente criança do mundo. Mas por trás do seu sorriso ingênuo e do seu encanto, no íntimo de sua alma, escondia coisas sinistras e tortuosas. Superprotegido pela mãe, Angelo começa a demonstrar traços de sociopatia desde cedo. O livro é instigante e nos leva a questionar qual era o pavoroso segredo do menino e de sua personalidade. O clima de suspense garante a leitura rápida. A história lembra filmes como A Tara Maldita (The Bad Seed, 1956) e O Anjo Malvado (The Good Son, 1993), com temáticas semelhantes. Em escala bem menor, também me lembrou a personagem-título do livro Angélica (1955), de Maria José Dupré.

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Portão para a Morte - Helen Arvonen (1976)


Ao contrário dos dois primeiros da lista, este romance juvenil é bem bobinho. A jovem Trudy vai trabalhar na Hospedaria Knucklebone, em uma cidadezinha do interior, com o intuito de descobrir o paradeiro de sua melhor amiga, Kay, que desaparecera misteriosamente. Kay trabalhava na tal hospedaria antes de sumir sem deixar pistas. Em Knucklebone, Trudy conhece diversos personagens curiosos (alguns até meio bizarros). Logo percebe que algo estranho aconteceu ali. Além de sua amiga, outras jovens também haviam desaparecido do local. Claro que a própria Trudy se torna alvo dos perigos e mistérios que rondam a hospedaria. A história é meio confusa e fraquinha. 


Publicado no Brasil pela Ediouro, primeiramente como livro de bolso, na coleção Romance Rebeca. Alguns anos depois, a editora o relançou, com outro projeto gráfico, como parte da coleção Drácula. A autora — a canadense Helen Arvonen (1918-1992) — começou sua carreira escrevendo contos para revistas de mistério e de ficção científica, na década de 1940. Após certa projeção, a partir da década de 1960, passou a escrever romances, quase sempre de "mistério gótico". Apesar de pouco conhecida, nos anos 1970 seus livros foram muito requisitados por várias editoras mundo afora. A própria Ediouro publicou outros títulos de Helen em suas coleções juvenis de livros de mistério.

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Suffer the Children - John Saul (1977)


O livro foi uma grata surpresa. Achei uma edição de bolso em inglês. Creio que não chegou a ser publicado no Brasil. Eu não conhecia o autor, mas depois descobri que ele era uma espécie de "Stephen King alternativo". O americano John Saul (nascido em 1942) é um exímio escritor livros de suspense e terror. A maioria deles apareceu na lista de best-sellers do New York Times. Mesmo assim, no Brasil, seu nome não é conhecido, apesar de vários de seus livros terem sido publicados aqui. Saul estreou com o pé direito. O ótimo thriller psicológico Suffer the Children, publicado em 1977, figurou em todas as listas de mais vendidos dos Estados Unidos.

A trama é bem direta: em Port Arbello, um homem estupra e mata sua filha de 10 anos. Logo em seguida, comete suicídio, jogando-se no mar. Cem anos depois (tempo presente), crianças da região começam a desaparecer. A terrível história (ou maldição) parece se repetir e os Congers — família descendente do assassino — estão, aparentemente, no centro de tudo isso. 

Escrita de forma simples, a narrativa é extremamente instigante (o que, na minha opinião, foi uma escolha acertada para um livro de estreia). Em vez de dezenas de personagens, tramas rocambolescas e excesso de descrições, John Saul conta a história sem rodeios, mas tomando o cuidado de manter o suspense sempre crescente e assustador. Várias passagens são realmente de arrepiar.

O título é referência a uma passagem bíblica: "But Jesus said, Suffer the little children, and forbid them not, to come unto me: for to such belongeth the kingdom of heaven." (Mateus 19:14). Em português: "Então disse Jesus: Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, pois o Reino dos céus pertence aos que se tornam semelhantes a elas". (Suffer, além de sofrer, significa também, em inglês arcaico, permitir).