11 fevereiro 2016

Saudades daquelas mulheres


Lá se vão 13 anos desde que Mulheres Apaixonadas estreou e deixou o país ligado na trama de Manoel Carlos. Nem faz tanto tempo assim, mas as expectativas e cobranças em relação às novelas mudaram bastante de lá pra cá. Na época, saíram muitas declarações na imprensa dizendo que aquela seria a última novela de Maneco. Penso que ele teria fechado com chave de ouro (com o perdão do clichê). Na minha opinião, foi a última grande novela do autor. Talvez seu estilo, hoje, já não encontre um público tão cativo quanto antes.


A parceria com o diretor Ricardo Waddington, que havia dirigido suas novelas anteriores (Laços de Família, em 2000-2001, Por Amor, em 1997-98 e História de Amor, em 1995-96), além da minissérie Presença de Anita (2001), continuou com êxito.

Apesar de atento a tabus, o texto de Manoel Carlos não se distanciava da vida cotidiana. Maneco era capaz de segurar e manipular o telespectador que achava que já tinha visto de tudo em matéria de telenovela, simplesmente mostrando as paranoias de seus personagens da classe média carioca economicamente bem-sucedida. Um deleite para o público.

Dessa forma, Mulheres Apaixonadas coroou a vitória do estilo do autor: seu realismo nada tinha a ver com as novelas de conteúdo político-social que aparecem vez por outra. Manoel Carlos fez sim, apologia a diversas causas politicamente corretas, mas este nunca foi o objetivo central da novela.


Se, na literatura, o Naturalismo está ligado ao Realismo, na televisão, esses estilos também andam juntos. Mas na tevê, a grande associação do Naturalismo está na relação com o cotidiano, o dia a dia. Um texto realista, na televisão, está mais centrado na ação, e todas as cenas e conversas vão necessariamente trazer informações novas ao espectador. Já um texto naturalista preocupa-se com o cotidiano dos personagens, o que, futuramente, vai ocasionar alguma ação. Porém nem todas as cenas têm a preocupação de acrescentar algo novo ao público e, sim, aproximar a vida do personagem à vida do espectador.

Maneco incorporava como nenhum outro novelista essa “realidade cotidiana”, vista em suas telenovelas: o casal de velhinhos que caminha no calçadão, a empregada que vai à padaria de manhã, a criança que vai para a escola, a mãe que dá conselhos à filha adolescente, o marido que não tem tempo para sair com a esposa etc.

É improvável que se possa conceber uma novela totalmente “naturalista” ou exclusivamente “realista”. Um estilo complementa o outro. No entanto, a tendência da maioria dos autores é a de um texto dinâmico, com muita ação, reviravoltas, golpes e situações inverossímeis — ou verossímeis no universo delimitado da teledramaturgia.



As tramas das novelas de Manoel Carlos, e especialmente de Mulheres Apaixonadas, são revestidas de cotidianidade, compondo regras de comportamento, de parentesco, de afetos e desafetos, e organizando estas relações de uma forma que diz respeito ao sistema de sociabilidade com o público. Mas em momento algum vemos tramas rocambolescas, golpes de sorte mirabolantes, planos maquiavélicos ou muita ação (no sentido de aventura) nas novelas de Maneco. Talvez, por isso, seu estilo é o que mais se diferencia dos demais.

Nas novelas de Manoel Carlos (até Mulheres Apaixonadas) não havia grande disparidade entre ricos e pobres. Todos estavam num patamar digno. Alguns mais ricos, outros apenas vivendo bem, mas nenhum era realmente pobre a ponto de morar no subúrbio ou na favela.

A presença obrigatória de uma Helena é outra marca registrada do autor, que não dispensa uma personagem com esse nome — sempre a heroína da trama. Conflitos entre mãe e filha também são recorrentes, assim como a abordagem de problemas que envolvem um casal e a relação familiar no convívio diário, jovens que apreciam leitura e boa música, e crianças precoces, só para citar alguns exemplos típicos.



Trivialidades sim, mas que davam um sabor de familiaridade e identificação com o público. Tinha-se a sensação de estar acompanhando não uma novela, mas a vida de amigos, vizinhos, parentes... novelizada. Tudo muito bem arrematado com o verniz refinado e os diálogos simples, porém sofisticados do autor.

Manoel Carlos gostava de explorar bem cada situação. A morte da personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli), em Mulheres Apaixonadas, é um bom exemplo: Fernanda se prepara para sair de casa; Fernanda pega as contas que precisa pagar; Fernanda sai à rua; Fernanda leva um tiro; Fernanda é socorrida e levada pela ambulância; o médico fala com a família; os vários dias de agonia no hospital; a morte; o velório; o enterro. O autor não “queimava cartucho”. Ao contrário. Desenvolvia cada situação ao limite. Quando o telespectador pensava que uma situação havia chegado ao final, se surpreendia diante de uma nova abordagem. Dias depois o tema ainda era debatido pelo público e pela mídia.

Fernanda (Vanessa Gerbelli) é atingida por uma bala perdida


Pop-up original do site oficial da novela, em 2003

Em tempos de reality shows, a “realidade” em uma telenovela é um conceito que pode variar muito de telespectador para telespectador. Para alguns, a realidade representada na novela deve coincidir com a realidade social das “pessoas comuns” (por exemplo, problemas reais como desemprego, violência urbana, déficit habitacional etc. e não os estereotipados “problemas dos ricos”). Para outros, a realidade deve ser reconhecível, isto é, comparável à do meio em que vivem. E ainda para outros, o mundo apresentado na novela deve ser provável, verossímil, ou seja, parecer “normal”.


Em Mulheres Apaixonadas, Manoel Carlos comportava-se como um cronista que estivesse observando um grupo de pessoas movimentando-se em uma cidade, ou melhor, em partes dessa cidade. No caso, o bairro do Leblon, onde o autor mora há muitos anos, é seu local de trabalho. Dali ele tira de sua própria experiência o material que será idealizado e estilizado em suas telenovelas. Não significa que esse “realismo” por ele imitado na novela seja o retrato infalível da vida real, mas tudo era mais ou menos homogeneizado e visto pelo público como a realidade, ainda que apenas uma parcela dos consumidores de novela vivam no Rio e, em escala ainda menor, no Leblon. E as situações eram aceitas e tidas como possíveis de acontecer em âmbito nacional.

Os capítulos de Mulheres Apaixonadas eram cheios de situações que se repetiam ciclicamente, mas não se desenvolviam de fato. Os diálogos circundavam temas e faziam referências ao mundo fora da novela, que na novela era entendido como o mundo “real” dos personagens. Tanto que, no começo, a imprensa criticou o ritmo exasperadamente lento de Mulheres Apaixonadas e chegou a considerar seus diálogos como inócuos ou sem nada a acrescentar à trama. Apesar disso, os elevados índices de audiência mostraram que a novela — de poucos acontecimentos e muitos personagens — caiu no gosto do grande público. Os consumidores se encantaram exatamente pela “normalidade” da trama.

Revista Veja (19/03/2003)
(Clique para ampliar o detalhe)

Manoel Carlos se diz inspirado pelo estilo realista. Interessam-lhe situações palpáveis, que tratam de temas pertinentes à vida e ao cotidiano do telespectador. Não é por acaso que Mulheres Apaixonadas foi, como suas outras novelas, repleta de cenas com ações cotidianas, locações reais e conversas sobre coisas e fatos concretos. Muito do que acontecia no país durante a novela era comentado e vivenciado pelos personagens (violência urbana, preconceito, catástrofes naturais e crises políticas, entre outras coisas).

Em entrevista à jornalista Lílian Fernandes, para o jornal O Globo de 10 de outubro de 2003, Maneco afirmou:


"Todas as minhas novelas trataram dos fatos mais corriqueiros da vida, como bater na porta do vizinho para pedir um ovo ou um pouco de pó de café emprestados. Claro que este cotidiano recebe um tratamento dramatúrgico e que depende da carpintaria de cada autor isso dar certo ou não. Tanto quanto possível, faço novela com a ajuda dos jornais, das histórias que vivi e que ouvi contar. A vida cotidiana é pura novela, e novela que o público gosta de ver" — diz o autor, do alto da média de 52 pontos de audiência registrada nacionalmente no mês de setembro, e embalado pelos ibopes acima dos 56 pontos desta última semana de exibição. (O Globo, Segundo Caderno, 10/10/2003)


As manchetes dos jornais e revistas da época davam dicas do clima “realista” da novela, em que ficção e realidade se misturavam:


“Manoel Carlos faz novela realista — O realismo que Manoel Carlos tenta dar ao seu novo folhetim é de impressionar. As pessoas bebem cafezinho num balcão e pagam a conta. O dia ganha cronologia de vida real.” (Estadão, 18/02/2003).


“Mulheres Apaixonadas é marco na tradicional estratégia de novelas” (Folha de S. Paulo, 03/08/2003).


“Realismo de Manoel Carlos dói de verdade” (Jornal de Brasília, 01/10/2003)

“Casa que abriga atores idosos comemora boa fase depois de virar cenário de Mulheres Apaixonadas (Jornal de Brasília, 02/10/2003).


Incontáveis foram as matérias como as citadas acima, durante todo o período de exibição da novela.

Veja, 09/07/2003
Veja, 09/07/2003

Tal construção deu ao telespectador a possibilidade de sentir que o tempo em Mulheres Apaixonadas andava junto com o tempo que o público estava vivendo. Este fato em si dá a dimensão específica do “realismo do dia a dia” proposto por Manoel Carlos e que, atualmente, é difícil de ser levado ao ar em uma novela.

A estrutura de Mulheres Apaixonadas lembra a dos seriados norte-americanos: várias tramas paralelas que, em determinados momentos, assumiam pesos semelhantes entre si. Esta é mais uma das características de Manoel Carlos, o que, no caso dessa novela, atingiu seu ápice. Normalmente, em suas histórias, há uma protagonista chamada Helena, cujo conflito/problema constitui a espinha dorsal da trama. Em Mulheres, Helena não foi o centro da trama. Pela primeira vez, a personagem esteve no mesmo patamar dos outros, o que causou certo estranhamento da crítica e até mesmo dos telespectadores, acostumados às novelas anteriores de Maneco, em que as Helenas ocupavam uma espécie de lugar central na história.


As irmãs Hilda (Maria Padilha), Helena (Christiane Torloni) e Heloísa (Giulia Gam)
Mulheres Apaixonadas reuniu em uma só história o desejo do autor de retratar diferentes perfis femininos e suas paixões. Mas foram muitos os temas fortes nessa novela: a violência doméstica, o lesbianismo, o preconceito social contra idosos, o alcoolismo, o romance entre homens e mulheres com grande diferença de idade, o ciúme excessivo, a violência urbana, a traição e até o câncer de mama. Uma vitrine que mostrou vários personagens marcantes e até hoje muito lembrados pelo público.





Conhecemos as pessoas no dia a dia aos poucos, e assim foram os personagens ao longo dos 203 capítulos, entre 17 de fevereiro e 10 de outubro de 2003, que também se mostraram aos poucos e ainda vão permanecer por muito tempo na memória do público.

Para a ficha técnica e mais detalhes sobre Mulheres Apaixonadas, acesse o site Teledramaturgia.



O site oficial da novela, em 2003

02 fevereiro 2016

A injusta cruzada contra Cruising


Existem polêmicas capazes de alavancar a atenção que um filme recebe. Também existem aquelas que sepultam a obra impiedosamente. Foi o caso de Parceiros da Noite (Cruising, 1980), longa de William Friedkin que completa agora 36 anos. Um dos diretores mais badalados da década de 1970, Friedkin já tinha, em seu currículo, Operação França (The French Connection, 1971) e O Exorcista (The Exorcist, 1973), dois filmes emblemáticos daquela década. Depois do estrondoso sucesso de O Exorcista, sua carreira entrou numa fase de produções menos expressivas. Até que, em 1979, surgiu a ideia de filmar Cruising.

William Friedkin e Al Pacino nas filmagens de Parceiros da Noite (Cruising)
O filme teve como inspiração uma história real: uma série de assassinatos de homossexuais, ocorridos em Nova York, entre 1962 a 1979. Outra fonte foi o romance A Paquera (Cruising, 1970), de Gerald Walker. Para o roteiro, Friedkin aproveitou o esqueleto narrativo do livro, mas modificou totalmente a abordagem, baseando-se em pesquisas de campo e muitas conversas com pessoas da vida real.

O livro que inspirou o filme
No filme, o policial Steve Burns (Al Pacino) é escalado para investigar os assassinatos brutais de homossexuais, que estavam ocorrendo em Nova York. Achar o serial killer não seria fácil. Mas, motivado pela ideia de crescer dentro da corporação, o policial aceita o desafio de se passar por gay e se infiltrar nos guetos onde as vítimas eram escolhidas: clubes de sadomasoquismo da cidade. Com seu tipo físico semelhante ao das vítimas, Burns era a isca ideal.

Antes mesmo da estreia, em fevereiro de 1980, o filme já gerava polêmica e era rechaçado dentro e fora das comunidades gays. Talvez nem o próprio Friedkin imaginasse que causaria tamanho rebuliço como quando decidiu fazer Cruising. Ativistas gays americanos se lançaram em uma campanha agressiva contra a obra, alegando que um filme sobre um maníaco que matava homossexuais carregava uma visão moralista, preconceituosa e homofóbica. Até jornais importantes, como o Village Voice, aderiram ao boicote. Várias panfletagens em favor dos gays chegaram a ser feitas contra o filme nas filas dos cinemas.

A revista Manchete de 25 de agosto de 1979 trouxe uma matéria sobre as conturbadas filmagens, que estavam acontecendo em Nova York, na época:

Das primeiras páginas dos jornais americanos à imprensa brasileira ou europeia, o assunto ganha ampla divulgação — enquanto grupos gays internacionais também fazem novas demonstrações, dando ainda maior publicidade ao filme. Jerry Weintraub, o produtor, talvez até por tudo isso, tem-se mantido na maior calma e limitou-se a dizer: "A versão deles é que estamos fazendo um filme contra os gays. Mas Cruising não é a história de homossexuais, e sim um thriller cuja ação se passa numa comunidade gay.

Revista Manchete (25/08/1979)
A coisa toda respingou em Al Pacino, um dos atores mais talentosos de sua geração, acostumado a papeis de grande sucesso. Depois do fracasso de Cruising, sua carreira despencou e ele levou anos para se refazer do “trauma”.

A verdade é que o filme não tem a intenção de dizer que os gays são seres obscuros e pervertidos. O foco do filme é um gueto específico — o dos clubes de sadomasoquismo e bares de 'pegação' da época. Um mundo dentro de outro mundo.

Vale lembrar que era o final dos anos 1970, ainda não havia AIDS e a comunidade gay começava a se modelar. Tateando um lugar na sociedade, quase sempre às escondidas, era comum que os gays se esgueirassem em ruas mal frequentadas ou parques desertos durante a noite, para dar vazão aos desejos sexuais reprimidos. Em Nova York, nas vizinhanças mais decadentes, surgiram clubes para homossexuais em busca de sexo anônimo e realização de fantasias sadomasoquistas, especialmente envolvendo sexo grupal, roupas e acessórios de couro.




É exatamente nesse sombrio universo, de extrema promiscuidade e catarse coletiva, que o policial Steve Burns, interpretado por Al Pacino, mergulha. Burns não fazia ideia de como podia ser difícil a vida de um detetive infiltrado no submundo em questão. Ainda mais um submundo cheio de complexos códigos próprios, onde um policial heterossexual e 'careta' como ele dificilmente conseguiria transitar com naturalidade. Aliás, Steve é introspectivo, não tem muita facilidade em articular frases e passa boa parte do tempo calado, o que confere ao filme um clima de permanente solidão (mesmo nas carregadas cenas dos abafados e lotados bares de paquera gay).

William Friedkin abriu mão da narrativa clássica — a perseguição e a consequente captura do assassino — e optou por se concentrar no modo gradual, quase imperceptível, como a experiência vai alterando a visão de mundo e os hábitos do policial, levando-o a questionar sua própria sexualidade (ainda que sem entender direito) e seus limites morais.

O termo cruising, em inglês, pode se referir tanto a “dar uma volta”, de carro, de moto ou a pé, como a “sair à caça”, no sentido sexual. A segunda conotação começou a ser difundida na década de 1970 e virou uma gíria comum entre os homossexuais da época. Exatamente um ano antes do começo das filmagens de Cruising, o Village People lançou seu mais famoso álbum, intitulado justamente Cruisin’. O LP incluía o até hoje conhecidíssmo hit Y.M.C.A. O grupo ficou muito famoso e fez enorme sucesso nas discotecas do mundo todo. Os integrantes encarnavam personagens que normalmente povoavam as fantasias gays e faziam alusão a símbolos de masculinidade: um policial, um cowboy, um operário, um motociclista, um índio norte-americano e um soldado. (A maioria dos personagens do filme, diga-se de passagem, lembra versões mais ‘pesadas’ dos integrantes do Village People. Hoje o visual é datado e caricato, mas nos anos 70 era muito comum entre os gays.)

Na época em que Cruising foi filmado, entre agosto e setembro de 1979, o cantor norte-americano Smokey Robinson lançou a canção Cruisin’, que, apesar de ter o mesmo nome do álbum do Village People, nada tinha a ver com o grupo. A faixa de Robinson também virou hit, apesar de seu significado ser o tradicional, de “passear” ou “navegar”, e não ter nenhuma conexão com a gíria gay.

De um jeito ou de outro, o termo cruising foi bastante difundido na época. No caso do longa, seu título virou sinônimo de algo a ser condenado. Hoje, mais de três décadas depois, é possível assisti-lo com um olhar distanciado das questões da época. A atuação de Al Pacino é irrepreensível, como sempre, e o ator fez com que seu personagem realmente parecesse confuso e assustado e, muitas vezes, pouco à vontade. Fisicamente, Pacino deu uma turbinada nos músculos e fez permanente, aparecendo pela primeira vez com cabelos crespos.  Apesar de um tanto quanto lento, há sempre algo acontecendo no filme e no rumo da história. Muita coisa ficar no ar, talvez devido aos vários cortes que Cruising sofreu em suas filmagens, sem falar nas mudanças do roteiro. Talvez o diretor tenha deixado tantas coisas sem explicação de forma proposital, seja no desenrolar do caso ou na própria personalidade de Burns, que vai se tornando cada vez mais ambígua, à medida que ele se mescla ao obscuro cenário e seus frequentadores.

Al Pacino de cabelos cacheados em Cruising
A atriz Karen Allen, que interpreta a namorada de Steve Burns, não tinha conhecimento do roteiro antes de trabalhar no filme. William Friedkin preferiu que ela ficasse sem saber o que acontecia com o personagem de Al Pacino. Mais uma calculada estratégia para que o clima de dúvida pairasse dentro e fora e Cruising.

Karen Allen e Al Pacino em Cruising
Mesmo para os padrões atuais, o filme tem cenas fortes e bastante ousadas. Grande parte dos figurantes eram frequentadores reais de bares de pegação e clubes gays da época, o que conferiu um realismo extraordinário e, por vezes, até assustador à narrativa. Quanto a esse aspecto, penso que a revolta dos gays não se justifica, pois o filme foi absolutamente fiel na apresentação dos tipos, mesmo estereotipados, desse grupo especifico de homossexuais (ainda que eles não representassem todos os gays).

A crítica da Folha de S. Paulo de 20 de maio de 1981 foi implacável já no título: “Homossexuais numa versão inacreditável”. Para a época, era um retrato realmente chocante de um submundo até então pouco (ou nada) conhecido da grande população:
Todos os homossexuais americanos foram ver o filme, ainda que a maioria deles tenha saído revoltada. Houve protestos, petições indignadas e até passeatas que só fizeram aumentar os lucros e provocaram a introdução de um letreiro, antes do início do filme, explicando: "Não nos colocamos contra o mundo homossexual, apenas mostramos um pequeno segmento dele".

Quando aluguei a fita e vi o filme pela primeira vez, há muitos anos, tive certa dificuldade em diferenciar um personagem do outro, pois todos eram parecidos entre si. Tanto fisicamente quanto no modo de se vestir. Friedkin escolheu filmar os assassinatos em ambientes cada vez mais escuros, de forma que se torna difícil identificar o rosto do matador. Vemos o assassino sempre na penumbra, vemos sua roupa, seus acessórios e até partes de seu rosto, em close, mas nunca o vemos claramente.

Ao longo dos anos, fui assistindo ao filme outras vezes e me familiarizando com os detalhes. E comecei a ter a sensação de que o assassino era interpretado por atores diferentes a cada cena. Depois de assisti-lo dezenas de vezes, voltando, analisando, dando pausa e revendo, descobri que, de fato, o ator que interpreta o assassino variava a cada cena. Daí a dificuldade, nas primeiras vezes, em diferenciar quem era vítima e quem era o serial killer.

Em algumas cenas, um determinado ator vive o assassino. Em outra cena, o ator que tinha interpretado a vítima é mostrado como o assassino. E esse revezamento segue ao longo do filme, mas de forma bastante sutil. Só mesmo após assistir muito atentamente, várias vezes, é que minhas desconfianças tiveram confirmação. Como se a intenção de Friedkin fosse justamente a de nos confundir, ou de nos dizer que a identidade do assassino não é a questão-chave. E que, uma vez que alguém se dispõe a uma experiência dessa, como a do policial Burns, infiltrado em um mundo paralelo quase impossível de ser imaginado, nunca mais será o mesmo.



Perto do fim do filme, a identidade "definitiva" do assassino é revelada. Mas as tramas paralelas ficam sem explicação. Algumas pistas, no entanto, são dadas. Cabe ao espectador imaginar ou tentar deduzir os possíveis desfechos. Cruising se mostra um misto de thriller, filme policial, mistério, slasher e drama psicológico. A ação muda seu ritmo ao longo da história, como se buscasse um ponto, sem, no entanto, encontrá-lo. A Folha de S. Paulo [20/05/1981] não perdoou: “Depois de 100 minutos de hesitação, é natural que o diretor não saiba como terminar o filme. Por isso, ele o encerra de qualquer jeito, sem final, causando uma nova e derradeira frustração.”


O resultado foram três indicações ao Troféu Framboesa de 1981: Pior Diretor (William Friedkin), Pior Filme (Jerry Weintraub) e Pior Roteiro (William Friedkin).

No Brasil, o VHS do filme foi lançado em 1991. Por causa do tema polêmico, a Warner levou vários anos para tomar coragem e lançar Parceiros da Noite em DVD. William Friedkin tentou lançar o DVD com a versão original, incluindo 40 minutos de cenas excluídas pela censura americana, mas o tal material havia sumido misteriosamente do estúdio. Ninguém sabe o que aconteceu. Aqui, o DVD veio sob o selo da Lume, sem extras. Ainda hoje há especulação sobre os 40 minutos de cenas não utilizadas, que permanecem inéditas. Se elas acrescentam explicações importantes à historia, ninguém (além do diretor) sabe.

DVDs brasileiros de Cruising
Em 2013, o ator James Franco e o roteirista Travis Matthews escreveram e dirigiram o documentário fictício Interior. Leather Bar. No filme, a dupla tenta recriar os tais 40 minutos de cenas descartadas (que incluíam, supostamente, cenas explícitas de sexo) que se perderam após o lançamento de Cruising. A ideia do projeto não deixa de ser interessante, mas ele não acrescenta nada ao filme original e nem às perguntas deixadas sem resposta.
Para a gente, pareceu mais interessante retomar um filme polêmico que fracassou na bilheteria do que um clássico" — disse Matthews, quando esteve em São Paulo, em 2013, para apresentar o filme no festival Mix Brasil. "Sempre, quando alguém revisita o passado, busca como referência algo considerado perfeito. Nós não queríamos isso. Nosso interesse foi fazer um filme que usasse Cruising como ponto de partida para explorar o quanto avançamos desde então em termos de censura e em termos da representação da sexualidade gay no cinema. (O Globo, 06/11/2013)


Travis Matthews e James Franco

Mesmo que, ainda hoje, com a passagem do tempo e as mudanças de perspectivas, Parceiros da Noite permaneça incômodo, longe de ser facilmente digerido, o filme merece redenção. É, sem dúvida, um dos mais intrigantes e perturbadores mergulhos psicológicos mostrados no cinema.