17 julho 2011

DVD "Golpe Sujo" no Brasil


Finalmente, mesmo com muito tempo de atraso, um dos meus filmes favoritos, Golpe Sujo (Foul Play, 1978) chegou ao Brasil em DVD. Há alguns anos comprei a edição americana, não consegui esperar. E agora tenho a grata surpresa de vê-lo em edição nacional, ainda que seja uma edição pobre (o DVD não traz curiosidades nem extras). Mas se serve de consolo, a edição americana não é menos pobre nesse sentido.


Só não entendi por que em DVD mudaram o nome "Golpe Sujo" para "Jogo Perigoso". (O título original, Foul Play, corresponde à tradução em português, 'golpe sujo'). Quando assisti a esse filme pela primeira vez, muito mais de uma década atrás, lembro-me de tê-lo alugado (em VHS, naturalmente) em uma videolocadora. O título era Golpe Sujo mesmo. Depois cheguei a revê-lo várias vezes nas madrugadas da Globo e acho que até hoje tenho a versão dublada gravada da TV.

Gloria Mundy (Goldie Hawn)
A história, uma comédia com toques de paródia hitchcockiana e várias referências, é divertidíssima. Goldie Hawn é Gloria Mundy, uma solitária bibliotecária que, voltando da festa de uma amiga, dá carona a um charmoso homem que encontra na estrada. Acaba envolvida em uma teia de assassinatos ao descobrir, acidentalmente, um complô para assassinar o Papa Pio XIII, durante sua visita a São Francisco, Califórnia, onde se passa o filme.

A pacata vida de Gloria vira de pernas para o ar quando um grupo de vilões esquisitos passa a persegui-la, em busca de uma prova que ela nem imagina o que seja. A indefesa moça se vê enredada em uma trama com anões, albinos e caras de cicatriz, entre outros tipos peculiares. O detetive Tony Carlson (Chevy Chase, em sua bem-sucedida estréia no cinema) é designado para protegê-la dos perigosos assassinos. Entre investigações e buscas, Tony e Gloria se apaixonam. A trama parece simples, mas a história é cheia de viradas e surpresas, ainda mais quando aparece na história o azarado Stanley, personagem de Dudley Moore, que deixa tudo ainda mais atrapalhado. 

Dudley Moore vive o atrapalhado Stanley
Goldie Hawn, que na época já era uma atriz bem conhecida (em 1970 ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Flor de Cacto), teve a merecida chance de protagonizar Golpe Sujo e tornou-se ainda mais popular, devido ao sucesso de bilheteria do filme. Hawn se consagraria definitivamente nas décadas seguintes, ao estrelar várias comédias de sucesso como A Recruta Benjamin (Private Benjamin, 1980), Um Salto Para a Felicidade (Overboard, 1987), Alta Tensão (Bird on a Wire, 1990), A Morte Lhe Cai Bem (Death Becomes Her, 1992) e O Clube das Desquitadas (The First Wives Club, 1996) entre outras.

Gloria Mundy (Goldie Hawn) na biblioteca
O engraçado é que Farrah Fawcett, símbolo sexual da época, foi a primeira opção para viver a personagem Gloria Mundy. Porém a Paramount optou posteriormente por Goldie Hawn, pois Farrah estava presa a questões contratuais. "[Aaron] Spelling e [Leonard] Goldberg [produtores da série de TV As Panteras] fizeram uma advertência a todos os estúdios dizendo que eles os processariam por danos caso me contratassem", declarou Farrah à Associated Press, em 1979. A atriz ainda era contratada da Spelling-Goldberg Productions quando deixou As Panteras, no auge da série.

Conhecido por roteiros como Ensina-me a Viver (Harold and Maude, 1971) e por ter dirigido também as comédias Como Eliminar o Seu Chefe (9 to 5, 1980) e A Melhor Casa Suspeita do Texas (The Best Little Whorehouse in Texas, 1982), Colin Higgins escreveu e dirigiu Golpe Sujo. Higgins teria se tornado um prolífico especialista em comédias sofisticadas se não tivesse morrido prematuramente, aos 47 anos.

"Ready to Take a Chance Again", hit de Barry Manilow
A trilha sonora do filme, também deliciosa, conta com Barry Manilow na composição. Duas de suas canções que aparecem no filme tornaram-se hits mundiais: Ready to Take a Chance Again (composta especialmente para a personagem de Goldie Hawn e indicada ao Oscar de Melhor Canção Original em 1979) e Copacabana. Aqui no Brasil, Ready to Take a Chance Again foi tema de comercial do cigarro Luiz XV no final dos anos 1970.

Golpe Sujo é diversão gostosa, bem feita e despretensiosa, de um tempo em que as comédias não eram tão previsíveis e repetitivas como hoje.

10 julho 2011

Isso aqui ô ô... é um pouquinho de Brasil iá iá...

"E o mistério chegou ao fim. Todo mundo já sabe quem matou Odete Roitman", disse William Bonner, então apresentador do Fantástico, no programa de 8 de janeiro de 1989. Um domingo que deixou saudades nos milhões de brasileiros que acompanharam os sete meses de emoção, romances, brigas pelo poder, disputas entre o bem e o mal e humor de Vale Tudo.

Regina Duarte (Raquel) e Glória Pires (Fátima)

Como noveleiro assumido, confesso que nunca vi uma reprise causar tanto burburinho e atrair tamanha atenção (tanto da mídia quanto do público). Vale Tudo, que chega ao fim esta semana no canal a cabo Viva, ressurgiu com força total na vida de muitos brasileiros.

Quando o Viva deu início à reprise, em outubro de 2010, vibrei — afinal, quando a novela foi exibida pela primeira vez, em 1988, eu tinha apenas 10 anos e acompanhei tudinho — mas não achei que essa reprise mais de vinte anos depois fosse cair na boca do povo. Por se tratar de um canal pago, julguei que só uma pequena parcela da população fosse acompanhar a novela de novo. Que nada. Esqueci que o número de assinantes de canais a cabo é cada vez maior e que mesmo para os que não assinam, é possível assistir no YouTube, na íntegra, capítulo por capítulo.

Beatriz Segall (Odete) e Glória Pires (Fátima)
Infelizmente não se consegue mais hoje nas novelas a comoção de antigamente. Vale Tudo é o melhor exemplo. Mesmo já tendo sido reprisada pela Globo em 1992, Vale Tudo permanece uma das novelas mais queridas e apreciadas pelo público, que nunca se cansou de clamar por sua volta.

Mesmo já sabendo quem matou Odete Roitman, uma quantidade enorme de brasileiros acompanhou a reprise da novela com o entusiasmo da primeira vez. "Foi a melhor novela que a Globo já fez", declarou Beatriz Segall, a eterna Odete. Aliás, poucas vezes depois de Vale Tudo uma novela conseguiu prender o público com uma intensidade como aquela. E a nova geração que não assistiu à exibição em 1988 teve a chance de se deliciar com a trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. Aliás, dizem que desde o término da novela Gilberto e Aguinaldo não se dão muito bem. 

Maria Gladys, que viveu a despachada diarista Lucimar, disse ao jornal Extra de hoje (10/07): "Encontrei Gilberto na rua e agradeci pela personagem. Sabe o que ele me disse? ‘Agradeça ao Aguinaldo, é ele quem escreve os papéis de pobre’". Se a rixa existe mesmo, não importa. O que vale é que a novela, além de ter feito o país parar no final dos anos 1980, inovou ao abordar uma série de questões até então tabus na teledramaturgia, como a impunidade à corrupção no Brasil.

Maria Gladys (Lucimar)

A trama fez uma forte crítica social com a pergunta "Vale a pena ser honesto no Brasil de hoje?", algo direto demais para os padrões da época (não podemos esquecer que o Brasil tinha se livrado da ditadura apenas três anos antes). Eram tantos personagens marcantes e bem construídos, tudo era muito bem amarrado, não havia buracos nem encheção de lingüiça. Sem falar nas várias cenas antológicas, como os barracos homéricos da alcoólatra Heleninha (Renata Sorrah), as tramóias de Maria de Fátima (Glória Pires) e as tiradas ácidas e impiedosas da vilã Odete.

"O caldo nobre da galinha azul"
Falando nela, Odete Roitman foi assassinada na véspera do Natal de 1988, mais precisamente no capítulo 193. Nem preciso dizer que não teve festa enquanto o capítulo não terminasse. O comentário da ceia natalina daquele ano foi, claro, a morte de Odete. Não havia um brasileiro sequer que não quisesse saber quem havia abatido a megera a tiros. 

Cada um tinha um palpite diferente. A Maggi, uma das maiores fabricantes de caldo de galinha da época (quem não se lembra do jingle "Caldo Maggi, o caldo nobre da galinha azul"?) tratou de promover um concurso para saber quem havia matado Odete Roitman. O mistério foi alvo de incontáveis apostas, rifas e sorteios. E eu, apesar de criança na época, também queria ficar rico, assim como vários personagens de Vale Tudo, ora! Participei do concurso, mas infelizmente não venci, para minha grande frustração. Eu nutria a esperança, confesso, de que Odete pudesse me render o prêmio de cinco milhões de cruzados. Era só mandar uma carta para a Maggi dizendo quem tinha matado Odete Roitman e responder à pergunta 'qual o caldo nobre da galinha azul?'. Moleza! Mas quem ganhou foi uma menina (também de Minas), não lembro a cidade agora. E era só um pouco mais velha do que eu! Odete ficou me devendo essa...


08 julho 2011

33 anos depois... quem vai matar Salomão Hayalla?

É, já não se fazem mais novelas como antigamente. Isso não é novidade nenhuma. Nosso maior produto - sim, podemos nos orgulhar de produzir as melhores telenovelas do mundo, sem nenhuma vergonha - anda meio enxovalhado. Não quero generalizar, é claro que ainda existem bons autores, bons artistas e emissoras empenhadas. Mas com a morte de grandes autores (Janete Clair, Cassiano Gabus Mendes, Dias Gomes), o time de novelistas anda desfalcado há muito tempo. Vários nomes desaparecem na mesma velocidade com que surgiram e até mesmo autores de grandes sucessos da teledramaturgia brasileira nas últimas décadas (Manoel Carlos, Silvio de Abreu, Gilberto Braga) parecem estar perdendo o fôlego a cada nova trama.


De uns dez anos pra cá as novelas andam menos atrativas para o grande público. Tudo bem que com o advento e a respectiva popularização da TV a cabo, dos computadores e da internet, a TV aberta perdeu uma enorme parte de seu público. As crianças e os jovens de hoje, por exemplo, passam muito mais tempo na internet e nos canais pagos (vendo as séries americanas) do que assistindo novela, como era comum até o final dos anos 90. Aliás, a maioria nem acompanha mais as novelas atuais.

Verdade seja dita: as tramas não têm conseguido prender o público como antes e perderam muito de seu apelo. Os motivos podem ser variados: escassez de boas histórias, falta de afinação nos elencos e desgaste de temas são alguns deles. O ritmo das histórias também mudou, tudo ficou subordinado ao marketing e à publicidade. O público esquece dos personagens rapidamente, ao contrário do que acontecia antigamente, quando os personagens viravam ícones nacionais por anos, até décadas. As trilhas sonoras não são mais bem exploradas e utilizadas como antes. As canções e temas não são marcantes e nem sequer são mais associadas aos personagens. O gênero passa por uma transição (ou adaptação aos novos tempos), isso é visível.

Em meio a essas mudanças, surge um filão: o remake (versão atualizada de uma novela antiga). Cada vez mais freqüente, os remakes têm conseguido elevar os índices de audiência e cativar o público. Sempre que um horário vai mal das pernas, dá-lhe remake! Foi o caso dos remakes dos últimos anos, como Cabocla, Sinhá Moça, O Profeta, Paraíso, Ti Ti Ti (mesclada com Plumas e Paetês), todas da Globo. Sem falar em tentativas de outros canais, como A Escrava Isaura, da Record, e Uma Rosa Com Amor, do SBT. A grande promessa agora é O Astro, remake de uma das novelas brasileiras de maior sucesso de todos os tempos. Exibida originalmente pela Rede Globo entre 6 de dezembro de 1977 e 8 de julho de 1978, às 20 horas, foi escrita por Janete Clair e dirigida por Daniel Filho. Até hoje o público daquela época se lembra da novela, dos personagens, das músicas. E é claro, do primeiro "quem matou?" em novelas que realmente mexeu com os brasileiros. Quem matou Salomão Hayalla? Essa pergunta ecoa no imaginário popular coletivo do Brasil desde aquele distante 8 de julho de 1978, há exatos 33 anos.

Considerada uma das melhores novelas já produzidas, O Astro obteve índices de audiência superiores aos das transmissões dos jogos da seleção brasileira na Copa da Argentina em 1978 - 80% em média (algo inimaginável nos dias atuais). Três dias depois da novela sair do ar, Carlos Drummond de Andrade escreveu em sua coluna no Jornal do Brasil: "Agora que O Astro acabou vamos cuidar da vida, que o Brasil está lá fora esperando". Foi nessa coluna que Drummond deu um apelido a Janete Clair: Usineira dos sonhos.


O remake da novela, a cargo de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, estréia na próxima terça (dia 12/07), com direção de Mauro Mendonça Filho. Vai inaugurar um novo horário para a teledramaturgia na Globo: de terça a sexta-feira, às 23h. (Nos anos 70 existiam as 'novelas das dez', de temas, digamos, mais 'adultos', que iam ao ar às 22h. Esse horário de novelas foi extinto no final daquela década).

O retorno de O Astro à tela da Globo, como minissérie em 60 capítulos, é a aposta de peso da emissora para comemorar os 60 anos da teledramaturgia brasileira e abrir uma possível faixa de remakes às 23h. Ao que tudo indica, a produção pra lá de esmerada deve despertar o interesse do público e revitalizar esse gênero que faz parte do cotidiano dos brasileiros tanto quanto o futebol e o Carnaval.

Mais sobre a novela:

01 julho 2010

O conforto da boa e velha comida


Até que enfim uma “facção” da sociedade parece recobrar o juízo. Sim. Porque eu, como glutão de plantão (com o perdão da rima infame e desproposital) não agüento mais ouvir falar dos esquisitos e inovadores tipos de culinária que surgem a cada estação. E os modismos se espalham com tamanha rapidez que às vezes temos a sensação de estarmos sempre atrasados ou por fora das tendências. E por falar nelas, a nova é a “comfort food”. Nome esquisito, não? Parece marca de colchão ou de amaciante de roupas. Trata-se, na verdade, do que chamamos de comida emocional, pois desperta sensações agradáveis e evoca o prazer e o bem-estar ligados à infância ou a história de vida.

Essa culinária começou a se popularizar no Brasil e congrega em si uma idéia oposta à racionalidade dos alimentos funcionais, nos quais os benefícios à saúde são o chamariz. Por Deus, não! Vamos esquecer as dietas saudáveis ao menos por um instante. Por que essa ditadura que proíbe pão, biscoito, bolo, açúcar, óleo, frituras e tantas outras delícias? Tudo bem, é importante não exagerar, é importante cuidar da própria saúde. Mas as pessoas estão ficando paranóicas. Estão sabotando receitas maravilhosas do tempo das avós e bisavós, cortando sal, açúcar e gordura.

Os insossos pratos que nos empurram hoje em dia são o supra-sumo do sem graça. E é por isso que a comfort food faz sucesso e ganha novos adeptos a cada dia. Ela não tem a pretensão de ser algo inédito nem revolucionário: é simplesmente a redescoberta de prazeres culinários que foram condenados pela atual onda saudável e ficaram perdidos nas lembranças de tempos passados.

Só para citar alguns exemplos dessa evolução (ou involução, como preferirem), a partir dos anos 70 a nouvelle cuisine francesa estava na crista da onda. Era uma reação à cozinha tradicional. Os pratos eram elaborados em pouco tempo, com molhos mais leves e menores porções (bem menores, diga-se de passagem) e apresentados de forma refinada e decorativa. Mas agora o último grito da moda gastronômica é a tal de culinária fusion (de fusão), tendência que mistura de tudo, com predomínio de ingredientes asiáticos e um forte toque americano. Marcos Emílio Gomes, coordenador do projeto O Melhor da Cidade, da revista Veja, define de forma objetiva essa culinária: “é aquela em que você come pouco, paga muito e não consegue identificar se o que está no prato é animal, vegetal ou mineral”.

Em contrapartida, o ressurgimento da comfort food foi algo natural. Digo ressurgimento porque esse tipo de comida não foi inventado agora, sempre existiu. Só andava meio esquecido (para não dizer execrado). Ora bolas, comer é um dos maiores prazeres da vida e estão tentando justamente transformar esse prazer em uma dieta quase hospitalar. Tudo devidamente glamurizado, claro, para termos a impressão de que estamos comendo a comida mais chique e mais saudável do mundo. Ledo engano. As pessoas gostam exatamente do contrário, das coisas mais simples, do que é mais singelo, do que vem do coração. E já andam dizendo por aí que a comfort food age no cérebro como o namoro e ajuda no combate à depressão. Por essa os nutricionistas não esperavam.

Puxe pela memória: o quindim que você comida na sua infância, o torresmo, a farofa de ovos e banana, o sonho de padaria, o pastel de queijo, a costelinha assada, a polenta frita, o brigadeiro de colher, o empadão de frango, o pão com manteiga, a sopa de feijão e por aí vai... A lista é quase interminável e o prazer idem. E, ao contrário do que pregam os guias de gastronomia, não tem preço. Mas as lembranças evocadas pela comfort food são as mais caras. Aprecie sem medo de ser feliz.

29 maio 2010

E o Framboesa vai para...



Framboesa de Ouro (Golden Raspberry Awards ou simplesmente Razzie Awards) é um prêmio cinematográfico que elege os piores filmes produzidos ao longo de um ano. Paródia do Oscar, o prêmio é atualmente escolhido por internautas membros da "associação". Hoje a brincadeira é bem conhecida e divulgada pelo mundo, mas poucos sabem como surgiu essa inusitada premiação e o porquê de se chamar Troféu Framboesa.

Tudo começou em 1980. O americano John J. B. Wilson, redator publicitário, foi o responsável pela criação do famigerado Troféu Framboesa de Ouro. Ele tinha o hábito de convidar os amigos para se reunirem e jantarem em sua casa, em Los Angeles, nas noites de entrega do Oscar. Em 1980, Wilson convidou a turma para sua tradicional reuniãozinha do Oscar, desta vez para que eles próprios julgassem os filmes e dessem suas premiações aleatoriamente. E a brincadeira pegou. Assim a primeira "premiação" foi realizada na sala de Wilson. A partir de então, ele decidiu formalizar o evento, depois de assistir a uma dupla de filmes que estavam sendo lançados simultaneamente naquela época: A Música Não Pode Parar (Can't Stop the Music) e Xanadu. O publicitário distribuiu para os amigos as cédulas para votarem no pior filme.

Felipe Rose (Village People), Valerie Perrine e Steve Guttenberg em A Música Não Pode Parar

Valerie Perrine entre Steve Guttenberg e Bruce Jenner
Assim, Can't Stop the Music foi o primeiro filme a ganhar o Framboesa. Ambos lançados em meados de 1980, Xanadu e Can't Stop the Music foram os maiores embaraços daquela época. Sucesso em termos de trilhas sonoras, os dois filmes foram fracassos retumbantes de crítica, com atuações canastronas, roteiros inexistentes e números musicais, no mínimo, kitsch. Xanadu foi estrelado pela queridinha da época, Olivia Newton-John, e pelo veterano Gene Kelly. O filme mostra um jovem desenhista que é inspirado por uma musa (enviada por Zeus!) a abrir, junto com um empresário aposentado, a roller-disco que dá título ao filme. "Uma apoteose kitsch e antológica, com Gene Kelly pagando mico na cena final", disse uma apresentadora de TV sobre Xanadu. Já Can't Stop the Music é estrelado pelos alegres rapazes do conjunto Village People, também muito popular na época. Na história, os integrantes do Village People se reúnem e descobrem a disco music (!), que passam a espalhar pelo mundo com a ajuda de amigos (uma ex-modelo e um aspirante a compositor). O filme está listado entre os 100 Piores Filmes Mais Divertidos Já Feitos, no guia oficial do Golden Raspberry Award, de John Wilson.

Olivia Newton-John, Gene Kelly e Michael Beck em Xanadu
O nome do troféu (Golden Raspberry Award, original em inglês) vem de uma expressão com a palavra raspberry (framboesa). A fruta parece ser usada no sentido da expressão "blowing a raspberry" (assoprando uma framboesa), que é simular o som de flatulência com a boca. Para completar o clima de deboche em cima do Oscar, as indicações do Framboesa saem um dia antes das indicações da Academia – e a "premiação" também é um dia antes da festa.

O prêmio é uma framboesa de plástico sobre um filme Super 8, pintado de tinta-spray dourada, que vale menos de US$5 (isso mesmo, menos de cinco dólares!). O hall da fama do Framboesa é liderado por Sylvester Stallone e Madonna. Stallone é o pior ator de todos os tempos, com 30 indicações e 10 prêmios (até agora) e Madonna possui 15 indicações e 9 prêmios (até agora).


Muito embora Xanadu e Can't Stop the Music figurem em qualquer lista de "piores filmes já feitos" que se preze, deixo claro que sou fã incondicional dos dois. As trilhas sonoras permanecem extraordinárias e o visual dos filmes já vale a viagem ao submundo do cult-kitsch. E viva o Troféu Framboesa!