31 março 2025

Sorria, Jenny, Você Está Morta (Smile Jenny, You're Dead, 1974)

Telefilmesquecidos #90

Jennifer English (Andrea Marcovicci) é uma modelo tentando se divorciar de Charley (Tim McIntire), seu marido autoritário e violento. Ela busca conforto nos braços do amante, um homem bem mais velho. Como se não bastasse, Jenny está sendo perseguida pelo fotógrafo amador Roy (Zalman King), um maluco obsessivo que a segue dia e noite.

Quando o marido de Jenny é assassinado, entra em cena o detetive Harry Orwell (David Janssen), velho amigo do tenente Humphrey Kenner (Howard Da Silva), que é pai de Jenny. A filha, no entanto, cortou relações com o pai há tempos.  



Harry trabalha como investigador particular em sua modesta casa de praia, em San Diego, desde que foi forçado a se aposentar após levar um tiro nas costas. Ele assume a tarefa de proteger a filha de seu amigo. No meio disso, o detetive Milt Bosworth (Clu Gulager), oficialmente responsável pelo caso, não quer a interferência do detetive aposentado. 



Jenny tem o dom de atrair os homens ao seu redor e Harry não escapa de também se sentir atraído por ela. Mas o perseguidor de Jenny decide eliminar os homens na vida da moça.



Há também uma subtrama paralela – mas sem relação com a história principal – na qual Harry vai ajudar Liberty (Jodie Foster), uma menina precoce e esperta vivendo nas ruas, a reencontrar sua mãe.



O telefilme Sorria, Jenny, Você Está Morta foi, na verdade, o segundo piloto da série Harry O, que foi ao ar por duas temporadas na ABC, de 1974 a 1976. 

O primeiro piloto, Such Dust as Dreams Are Made On, foi ao ar em 11 de março de 1973. Na segunda metade da primeira temporada, a série foi reformulada e o segundo piloto, Sorria, Jenny, Você Está Morta, foi ao ar um ano depois. Em ambos, David Janssen estrelou como o detetive que dá nome à série.

Após a reformulação, a série ganhou mais audiência e aclamação da crítica. Mesmo assim, Fred Silverman, então presidente da ABC, decidiu mudar o rumo das coisas e cancelou Harry O em favor de As Panteras (Charlie's Angels, 1976-1981). Farrah Fawcett, coadjuvante na série Harry O, foi selecionada para ser uma das três protagonistas da nova série.

O que distingue Sorria, Jenny, Você Está Morta de outras séries policiais feitas para a TV daquela época é o foco em emoções e psicologia, em vez de ação e reviravoltas na trama. O esforço para entregar um drama policial sério para telespectadores adultos foi reforçado por uma cinematografia criativa e uma trilha sonora melancólica. 



O próprio personagem Harry O tinha o temperamento muito diferente dos detetives de outras séries da época. Além de não ter muito dinheiro e nem muitas perspectivas, Harry não vivia uma vida glamourosa e andava de ônibus (o que era impensável para um detetive de seriado de TV da época). Era um personagem mais humanizado, mais existencial, por assim dizer, que convivia com a dor física e o sofrimento psicológico. 

O diretor Jerry Thorpe, com vasta experiência em TV – séries Os Intocáveis (The Untouchables, 1959-1963), Kung Fu (1972-1975) e outras tantas, além de vários telefilmes como Fogo Diabólico (The Possessed, 1977) – mantém o ritmo constante e uniforme, mas sem descuidar dos momentos certeiros de tensão.


O elenco é muito bom. David Janssen, que já era ator de cinema e de TV desde a década de 1950, tornou-se muito popular a partir da década de 1960 graças ao sucesso do seriado O Fugitivo (The Fugitive, 1963-1967), que ganhou um remake em forma de longa-metragem em 1993, estrelado por Harrison Ford. Entre os destaques de Janssen no cinema está As Sandálias do Pescador (The Shoes of the Fisherman, 1968). Na TV, participou de inúmeros seriados e telefilmes, entre eles 83 Horas de Desespero (The Longest Night, 1972) e Pânico na Multidão (Two-Minute Warning, 1976)

David Janssen

Andrea Marcovicci, na época ainda novata, já havia participado do telefilme Clamor no Silêncio (Cry Rape, 1973). Ao longo das décadas de 1970 e 1980, esteve em vários seriados de TV e filmes para a televisão e o cinema, como Aeroporto 80: O Concorde (The Concorde... Airport '79), A Mão (The Hand), 1981)  e A Coisa (The Stuff, 1985).

Andrea Marcovicci

O ator Zalman King, o stalker de Sorria, Jenny, Você Está Morta, migrou, nos anos 1980, para a produção e a direção dos chamados filmes softcore, aqueles com doses generosas de erotismo, mas que não apresentam cenas explícitas de sexo. Colaborou com Adrian Lyne na produção de 9 1/2 Semanas de Amor (9 1/2  Weeks, 1986). Dirigiu Um Toque de Sedução (Two Moon Junction, 1988), Orquídea Selvagem (Wild Orchid, 1989), Orquídea Selvagem 2 (Wild Orchid II: Two Shades of Blue, 1991) e Nas Mãos de Deus (In God's Hands, 1998), entre outros.

Zalman King

Jodie Foster dispensa apresentações. Aos 12 anos, iniciante e ainda desconhecida, já demonstrava talento e postura profissional mesmo em um papel pequeno. Na infância, teve diversas participações em seriados de TV, mas sua carreira ganharia impulso na adolescência, com Ecos de Um Verão (Echoes of a Summer, 1975) e Taxi Driver: Motorista de Táxi (Taxi Driver, 1976).

Jodie Foster

A estreia de Sorria, Jenny, Você Está Morta na TV americana foi em 3 de fevereiro de 1974, na ABC. E chegou muito rápido (para os padrões da época) à TV brasileira, estreando em 14 de setembro de 1974 na Globo.

No dia da estreia do filme na Globo, a coluna Os Filmes da TV,  do Jornal do Brasil, trouxe uma sinopse elogiosa:

Telespectáculo de suspense, um dos raros filmes de TV que receberam elogios das comentaristas americanos; estes encontraram no filme um aprofundamento no estudo dos personagens habitualmente não explorado nos trabalhos feitos para a tela pequena. Uma curiosidade, portanto. (Coluna Os Filmes da TV, Jornal do Brasil, 14 de setembro de 1974)

Sorria Jane, Você Está Morta foi lançado em DVD nos EUA, em 2011, na coleção Warner Archives.

24 março 2025

O Retrato (The Portrait, 1993)

 Telefilmesquecidos #89

Um casal de idosos, Fanny (Lauren Bacall) e Gardner Church (Gregory Peck), está às voltas com a mudança para uma casa de praia. Gardner é poeta e a esposa Fanny é sua fiel companheira desde os tempos em que foi sua assistente na faculdade. 

Após uma longa ausência, a filha Margaret (Cecilia Peck) chega de surpresa à casa dos pais para terminar um retrato deles. Ela é pintora e tem a chance de expor seu trabalho pela primeira vez em uma galeria de Manhattan. Mas, para isso, precisa terminar o tal retrato dos pais, que ela havia esboçado tempos atrás.



Ao descobrir que os pais venderam a casa da família e estão prestes a se mudar, Margaret fica magoada e inconformada por não ter sido avisada antes. 



Enquanto se vê cercada de caixas, objetos e móveis sendo embalados para a mudança, Margaret lida com a perda da casa de sua infância e com suas próprias lembranças. Além disso, confronta-se com outros problemas, como os lapsos de memória frequentes e preocupantes do pai.



Fanny e Gardner são totalmente dedicados um ao outro. Espirituosos e animados, vivem num mundo próprio, absortos em seu amor e vida juntos. Isso faz com que Margaret se sinta excluída. 


Lauren Bacall e Gregory Peck

Não é fácil fazer o casal ficar parado enquanto posa para a pintura de seu retrato. Brincalhões e cúmplices, os dois não sossegam. Com isso, Margaret acha que eles não levam sua pintura a sério. 



Ao longo de vários dias, Margaret vê seu papel no relacionamento com seus pais idosos ir se modificando. Ela acaba percebendo, após uma conversa com o pai, que eles a amam sim e admiram sua carreira de pintora. 


Mas deixam claro que, na idade em que estão, não vão virar outras pessoas para se ajustarem às expectativas da filha. Retornando a Nova York para sua exposição de arte com o retrato concluído, Margaret percebe que será uma pessoa muito mais feliz se aceitar seus pais como eles são.

Adaptado da peça Painting Churches, de Tina Howe, produzida em 1983.

O que o elenco tem de pequeno, tem de grandioso: é um deleite ver astros do calibre de Lauren Bacall e Gregory Peck contracenando. Estrelas da “era de ouro” de Hollywood, os dois já haviam trabalhado juntos em Teu Nome é Mulher (Designing Woman, 1957), de Vincente Minnelli, e têm um entrosamento perfeito.

Gregory Peck e Lauren Bacall em Teu Nome é Mulher (1957)

Cecilia Peck, que interpreta a filha do casal, é filha de Gregory Peck na vida real. O Retrato foi o último telefilme do ator.

Cecilia Peck

A direção impecável é de Arthur Penn, responsável por grandes filmes como O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker, 1962), Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas (Bonnie and Clyde, 1967) e Um Lance no Escuro (Night Moves, 1975). Um de seus filmes “menores”, Morte no Inverno (Dead of Winter, 1987), está entre os meus favoritos.

Os quadros que aparecem no filme são de Gretta Sarfaty. Nascida na Grécia, Gretta mudou-se com a família para São Paulo, aos 7 anos, naturalizando-se brasileira. Ganhou reconhecimento internacional no final dos anos 1970.


O Retrato estreou na TV americana em 13 de fevereiro de 1993, na TNT. Na TV brasileira, estreou em 26 de julho de 1997, na Sessão de Gala, da Globo.

Eduardo Souza Lima, que escrevia as sinopses dos filmes na TV para o Segundo Caderno do jornal O Globo, destacou a estreia: 

"(...) Na Globo, à 1h25m, O Retrato (1993), um ótimo telefilme do irregular Arthur Penn, com Gregory Peck e Lauren Bacall, que já pagam o ingresso. Cecilia Peck, filha do ator, interpreta uma jovem artista plática, cujos quadros foram pintados na verdade por Gretta Sarfaty, atriz brasileira radicada nos Estados Unidos (...)." (Eduardo Souza Lima, O Globo, 26 de julho de 1997)

Lançado em VHS também no Brasil, na década de 1990, pela Videolar.

Não confundir com o thriller de terror O Retrato (The Portrait, 2023), de Simon Ross e nem com o musical filipino O Retrato (Ang larawan, 2017), de Loy Arcenas (lançado internacionalmente como The Portrait).