10 maio 2012

Vidal Mãos de Tesoura

Nos rebeldes anos 60, a atriz Mia Farrow, estrela de O Bebê de Rosemary, a top model Twiggy e a estilista Mary Quant, que popularizou a minissaia, viraram ícones de uma era. Motivo: adotaram o corte de cabelo curtinho. O responsável pela façanha? Ninguém menos que Vidal Sassoon, o mago das tesouras. Sassoon ganhou fama internacional ao criar uma forma de penteado baseada na Bauhaus e cortes inspirados nas formas geométricas.


O papa dos cortes de cabelo modernos nasceu em Londres, em 1928, e faleceu ontem, em Los Angeles, de causas naturais, aos 84 anos. Vencedor de vários prêmios, abriu seu primeiro salão na capital inglesa em 1954 e, em 1973, lançou sua linha de produtos com o slogan "If you don’t look good, we don’t look good" (Se você não ficar bonita, nós não ficamos bonitos). "Minha ideia era modelar o cabelo, para usá-lo como uma espécie de tecido e tirar tudo que era supérfluo", contou Sassoon em 1993 ao Los Angeles Times, ao definir seu estilo.

Vidal e Mia em 1968


Vidal alforriou os cabelos femininos, que até a primeira metade dos anos 60 eram marcados por complexos e elaboradíssimos penteados. Esteticamente eram lindos, mas nada práticos. As mulheres gastavam horas e horas nos salões ou mesmo em casa, tudo para ficar com os cabelos bem armados e bufantes. E dá-lhe secador, fixador, grampos, bobs, laquê... Vidal ousou ao quebrar esse padrão e permitir que as mulheres simplesmente lavassem o cabelo e saíssem de casa. Lindas, leves e soltas. Em meio a um período histórico conturbado como a década de 1960, marcado por lutas e protestos mundo afora, essa foi a grande revolução de Sassoon.


Em 2010 foi lançado Vidal Sassoon, o Filme - Como um Homem Mudou o Mundo Com um Par de Tesouras, sobre sua vida e arte. O documentário , do diretor Craig Teper, mostra como Sassoon saiu de um orfanato para crianças judias em Londres e se tornou o maior cabeleireiro do mundo. Casado quatro vezes, teve quatro filhos. Conhecido ainda como "o fundador dos salões de cabeleireiros", o corte de cabelo curto na nuca e longo na franja foi sua marca registrada. 


Em entrevista ao jornal português Público, em 1992, Vidal disse: "Trabalhei com uma equipa maravilhosa, de que fazia parte Annie Humphreys, que se juntou a mim em 1958. Ela desenvolveu a coloração e a permanente. A combinação destes três elementos - corte, cor e permanentes - criou um look que foi copiado em todo o mundo". 

Mary Quant estreando o corte de Vidal

Vidal posa com duas modelos em 1975: cabelos na crista da onda

Propaganda dos produtos de Vidal estrelada por Andy Warhol (1985)

Vidal Sassoon (1928-2012)


06 maio 2012

Feito para a TV


John Llewellyn Moxey
Como fã de filmes americanos feitos para a TV (os populares "made for TV" ou "TV movies"), conheci desde cedo o trabalho de alguns diretores que fizeram carreira nessa área e dominaram a técnica desse formato. Um dos grandes nomes dessa turma é, sem dúvida, John Llewellyn Moxey. 

Diretor de filmes de sucesso para a TV entre as década de 1960 e 1980, Moxey pode não ter um nome conhecido aqui no Brasil, mas certamente quem já assistia televisão algumas décadas atrás deve ter visto ao menos um de seus filmes, ou mesmo episódios de séries consagradas dirigidos por ele.

Atualmente aposentado e vivendo na enseada de Puget (costa noroeste dos Estados Unidos, estado de Washington), ele nasceu em 26 de fevereiro de 1925, na Argentina. Na época, o pai trabalhava nos negócios da família, com aço e carvão, na América do Sul. Depois de servir nas forças armadas durante a Segunda Guerra Mundial, Moxey resolveu entrar para o ramo dos filmes. Após trabalhar como editor, dirigiu vários episódios da série inglesa London Playhouse, seguida por outro programa, The Adventures of Tugboat Annie.

Sob o nome de "John Moxey", o diretor partiu para o que se tornaria seu projeto mais aclamado: A Cidade dos Mortos (The City of the Dead, 1960), também conhecido como Horror Hotel, filme de terror de baixo orçamento estrelado por Christopher Lee, então recém-descoberto pela Hammer (lendária produtora britânica de filmes de terror).

Para uma estreia, City of the Dead fez bonito e influenciou mais diretores do que se possa imaginar. Muita gente até notou similaridades com o clássico Psicose (Psycho), de Alfred Hitchcock, lançado naquele mesmo ano. O sucesso do filme levou Moxey a dirigir vários outros trabalhos ao longo dos anos 1960, a maioria para a televisão britânica.

No fim daquela década, começou a usar o nome do meio (Llewellyn), por influência da numerologia, e entrou em uma fase extremamente prolífica. Tornou-se um dos diretores mais populares da sessão de filmes para a TV Movie of The Week, da rede de TV norte-americana ABC. De 1969 a 1975, a emissora exibia semanalmente um filme especialmente feito para o canal.


Volte Ammie, Volte! (The House That Would Not Die, 1970) foi o primeiro dos dois projetos com a premiada atriz Barbara Stanwyck e também o começo de uma longa parceria com os produtores Aaron Spelling e Leonard Goldberg. A década de 1970 não poderia ter sido mais produtiva para Moxey. Entre um filme e outro, ele ainda encontrava tempo para dirigir episódios da maioria das séries policiais como Hawaii Five-O, The Mod Squad, Police Story e Shaft, entre várias outras daquela época em diante (Missão Impossível, Kung Fu, Magnum, Miami Vice etc.).

Cada vez mais especialista em filmes de suspense, às vezes lidando com o sobrenatural, outras com a trama policial, em 1972 Moxey dirigiu Férias Mortais (Home for the Holidays, 1972), um excelente suspense com Julie Harris, Eleanor Parker, Sally Field, Jessica Walter e Walter Brennan. Já em 1976 dirigiu o piloto de As Panteras (Charlie’s Angels), uma das séries mais emblemáticas dos anos 1970.

Sally Field em Home for the Holidays (1972)

As Panteras (1976)

No mesmo ano, também dirigiu Pesadelo do Acaso (Nightmare in Badham County), drama inquietante sobre duas jovens presas injustamente em uma cidadezinha do interior (filmes sobre mulheres em prisões foram muito explorados naquela década). Muito popular na época, o filme chegou a ser lançado nos cinemas.


Ao longo dos anos 1980, Moxey continuou dirigindo filmes para a TV e espisódios de séries. Em 1989 realizou seus últimos trabalhos, dirigindo vários episódios da série de sucesso Assassinato por Escrito (Murder She Wrote), protagonizada por Angela Lansbury e produzida pela CBS.

Angela Lansbury em Assassinato Por Escrito

A filmografia de Moxey inclui dezenas de títulos de filmes para a TV, além de inúmeros episódios de séries. Para os iniciantes, fiz uma listinha básica com 10 de seus filmes imperdíveis. (Na verdade é só uma pequena amostra, pois são muitos os filmes e telefilmes bacanas que ele dirigiu). Alguns foram figurinhas carimbadas nos canais brasileiros durante os anos 1980 e 1990, principalmente nas madrugadas. Depois, infelizmente, desapareceram dos canais abertos. Mas vários podem ser vistos pelo YouTube, no original em inglês (sem legendas).

The Cradle Will Fall (1983)


10 dicas de telefilmes de John Llewelyn Moxey:


  • Volte Ammie, Volte! (The House That Would Not Die, 1970)
  • Pânico e Morte na Cidade (The Night Stalker, 1972)
  • Férias Mortais (Home for the Holidays, 1972)
  • A Casa Mal-Assombrada (The Strange and Deadly Occurrence, 1974)
  • Para Onde Foram Todos? (Where Have All The People Gone, 1974)
  • Pesadelo do Acaso (Nightmare in Badham County, 1976)
  • A Fuga Eterna (No Place to Hide, 1981)
  • Morte Suspeita (Killjoy, 1981)
  • Eu, o Desejo - Uma História de Vampirismo (I, desire, 1982)
  • Perigo no Hospital (The Craddle Will Fall, 1983)

26 abril 2012

5 álbuns de 1980 que passaram batidos


Esquisitice é comigo mesmo. Talvez seja mais apropriado usar o termo "raridade". Ou, quem sabe, raridade esquisita. Tenho uma queda por álbuns pouco conhecidos ou que não fizeram sucesso. Às vezes o artista/grupo é famoso, mas lançou um disco que foi pouco divulgado ou fracassou nas paradas. E outras vezes tanto o artista/grupo quanto o álbum são pouco conhecidos, o que os torna ainda mais atraentes para meu gosto pouco usual. Também tenho pra mim que determinados anos  – como o de 1980, por exemplo – foram especiais e inigualáveis no que diz respeito a música. Por isso proponho um cruzeiro por mares quase nunca dantes navegados. Eis uma listinha básica com 5 discos pouco conhecidos de 1980. Ou seja, são 5 "cruzeiros" distintos. Alguns desses discos nem foram lançados no Brasil, outros ainda podem ser encontrados em sebos e lojas de vinil. Ou, para os mais exigentes, em importadoras de CDs. (Os moderninhos procuram direto na internet e baixam). Se alguém quiser se aventurar pelo passado, ele está bem presente aqui:



Larsen-Feiten Band – Larsen-Feiten Band
Lançamento: 1980
Faixas: Who'll Be the Fool Tonight/ Danger Zone/ Further Notice/ Over/ She's Not in Love/ Morning Star/ Make It/ Aztec Legend

Para quem gosta de pop, soul, fusion, jazz, blues e funk tocados com grande habilidade, este álbum é um prato cheio. Esse tipo de música costuma ser classificada como West Coast soft pop rock (um rockzinho suave, melódico, mais na linha do pop). Muita música desse gênero é considerada sem sal, comercial e descartável. Mas existem exceções e esta é uma delas. Se você não dá bola para rótulos, vai ter a chance de curtir um álbum delicioso do início ao fim, que passou batido. E com dois músicos do calibre de Neil Larsen e Howard "Buzz" Feiten juntos, a experiência vale muito a pena. Feiten, talentoso e subestimado guitarrista americano, turbinou inúmeros projetos dos quais participou. Para se ter uma ideia, já gravou/tocou com artistas como Bob Dylan, Aretha Franklin, Etta James, James Taylor, Stevie Wonder, só para citar alguns bem conhecidos. A música mais conhecida – ou menos desconhecida – deste álbum é Who'll Be The Fool Tonight, que fez parte da trilha sonora internacional da novela Um Homem Muito Especial (1980), da Rede Bandeirantes. 



The Wanderer – Donna Summer 
Lançamento: outubro de 1980
Faixas: The Wanderer/ Looking Up/ Breakdown/ Grand Illusion/ Running for Cover/ Cold Love/ Who Do You Think You're Foolin'/ Nightlife/ Stop Me/ I Believe in Jesus

Quem não conhece Donna Summer, a "rainha das discotecas"? Entre 1976 e 1979 não teve pra ninguém, ela reinou absoluta nas pistas de dança do mundo todo. Estrela da Casablanca Records nos anos 70, Summer achava que estava sendo explorada pela gravadora e também sendo induzida a passar uma imagem sensual e sexual, coisa que a deixava bastante incomodada. Entre 1979 e 1980, após um período de problemas pessoais, discordâncias profissionais e uma rotina estressante, a cantora passou por uma depressão, se desligou da Casablanca e processou a gravadora, pela qual também havia sido roubada. Assim, em 1980 foi a primeira artista a assinar com o recém criado selo Geffen Records. Gravou The Wanderer, seu oitavo álbum de estúdio, que teve uma pegada mais pop/rock e new wave (nessa época a disco music começava a ser execrada nos EUA). A única canção desse LP que fez algum sucesso foi a faixa-título. Mas quem parar para ouvir o álbum todo atentamente vai perceber que 80% das faixas são ótimas e muito bem produzidas. Quem só conhece a Donna Summer das discotecas precisa ouvir esse disco.



Looking For a Good Time – Tomas Ledin
Lançamento: 1980
Faixas: Looking For a Good Time/ A Little Love/ Open Up/ Something's Missing/ Right Now/ Not Bad At All/ The Sun's Shining In The Middle Of The Night/ Just Another Fool/ We Are The Rock 'n' Roll Brothers/ What Are You Waiting For

O cantor, compositor, guitarrista e produtor sueco Tomas Ledin não é nem um pouco conhecido no Brasil, mas em seu país natal tornou-se popular desde cedo, quando acompanhou o ABBA em turnês mundo afora. Fazendo backing vocal para o grupo, Tomas recebeu o convite para gravar um álbum pela gravadora do ABBA, a Polar Music. Daí nasceu Looking For A Good Time. Ele venceu em 1980 o Melodifestivalen, famoso concurso de música da Suécia, e representou seu país no Eurovision Song Contest daquele ano com Just nu!. A canção fez grande sucesso na Escadinávia e Tomas gravou uma versão em inglês, Right Now, que também foi sucesso na Grécia e em Portugal. No entanto, o LP não chegou a decolar. Mesmo assim, o álbum é bom demais e tem um clima muito gostoso, recheado do pop/rock dançante típico da época e algumas baladas.



Real People – Chic
Lançamento: junho de 1980
Faixas: Open Up/ Real People/ I Loved You More/ I Got Protection/ Rebels Are We/ Chip Off the Old Block/ 26/ You Can't Do It Alone

Mesmo quem não curte disco music há de reconhecer o indiscutível talento do guitarrista Nile Rodgers e do baixista Bernard Edwards, a dupla que criou hits até hoje popularíssimos como Everybody Dance, Le Freak, I Want Your Love, Good Times e outros. Juntamente com as vocalistas Norma Jean (depois substituída por Luci Martin) e  Alfa Anderson formaram o Chic em 1977. Paralelamente ao Chic, Rodgers e Edwards produziram álbuns de sucesso para Diana Ross, Debbie Harry, Sister Sledge, David Bowie, Madonna, Duran Duran e outros. Mas por volta de 1980, com o repúdio sofrido pela disco music, o Chic perdeu força como grupo. O disco Real People não fez o estrondoso sucesso dos anteriores, mas apesar disso é um grande álbum. Gerou duas canções de razoável sucesso: Real People e Rebels Are We. 



Sylvia Mason – Sylvia Mason
Lançamento: 1980
Faixas: We've Gotta Dance / Shadow In The Sun / Hello Superduper Star / Somebody Loves You / You're Like A Silent Movie / Closer To Heaven / Afraid Of Love 

A britância Sylvia Mason-James começou sua carreira em 1977, como vocalista do grupo Voyage, responsável por vários clássicos da era disco. Emplacaram dois álbuns de muito sucesso, Voyage (1978) e Fly Away (1979). Em 1980 Sylvia resolveu trilhar carreira solo e lançou o álbum Sylvia Mason. Mas fora do Voyage, sua carreira não deslanchou. Depois disso ela se voltou para a função de backing vocal e trabalhou com diversos artistas, entre eles Robbie Williams, Cher, Swing Out Sister, Sheena Easton, Pet Shop Boys e Simple Minds. O único álbum de Sylvia, no entanto, tem várias faixas boas. A mais conhecida é Shadow in The Sun, que fez parte da trilha sonora internacional da novela Plumas e Paetês (1980), da Rede Globo. You're Like a Slient Movie também está entre as melhores.

24 abril 2012

Memórias de Woody Allen

Apesar de fã confesso de Woody Allen, admito que o diretor já me entusiasmou muito mais em tempos passados. Lá pelos meus 19 ou 20 anos, eu assistia a filmes como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Interiores, Um Assaltante Bem Trapalhão e Manhattan sem parar. Não apenas esses, como vários outros também. Sempre o achei sensacional. Na segunda metade dos anos 90, os filmes foram me parecendo um pouco menos interessantes. Exceto por um ou outro (como Trapaceiros), minha empolgação com Woody Allen deu uma diminuída. Não que eu tivesse parado de assistir todos os lançamentos do diretor que chegavam aos cinemas, mas eles me pareciam meio repetitivos, não tinham mais aquelas sacadas geniais. Sei lá, talvez eu tivesse mudado.

No ano retrasado, ao assistir Vicky Cristina Barcelona, voltei a me entusiasmar com os filmes do diretor. Divertido, inteligente, cheio dos toques típicos de Woody Allen e mais: de alguma forma teve um ar de novidade. No ano passado, ao assistir Meia-Noite em Paris, voltei a colocar Allen em um pedestal. Achei seu filme mais sensacional dos últimos 15 anos, sem sombra de dúvida. No último fim de semana, em uma longa incursão pela videolocadora, me deparei com um filme de Allen que já conhecia de nome há muito tempo, mas nunca tinha assistido: Memórias (Stardust Memories, 1980). Nem sei se chegou a ser lançado em vídeo no Brasil. Não me lembro de tê-lo visto em parte alguma. 

Não pensei duas vezes: peguei o DVD. E tive outra ótima surpresa porque, após muitos anos, me reencontrei com aquele Woody Allen do passado, aquele que tanto me fascinou no final de minha adolescência e que havia ficado lá atrás. O mesmo tipo de personagem que ele interpretara em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Manhattan e tantos outros estava em Memórias, cheio de questionamentos e tiradas hilárias. Ele faz o papel de um diretor de cinema que recebe um convite para uma mostra de seus filmes durante um final de semana, na qual será homenageado. Relutante, ele acaba sendo convencido a comparecer. Esse é o mote para uma série de lembranças surgirem, na forma de antigas namoradas.

Woody Allen interpreta um diretor de cinema em "Memórias"
Projeto menor e menos conhecido de Woody Allen, Memórias brinca com o surrealismo e, ao mesmo tempo, revela-se o filme mais autobiográfico do diretor, embora ele sempre tenha negado. O que ele já declarou várias vezes é que, entre seus filmes, este (junto com A Rosa Púrpura do Cairo) é o seu favorito.

Memórias surgiu de uma resposta de Woody Allen à escritora Joan Didion, que havia escrito um artigo hostil sobre ele, e também da indiferença com que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tratara seu filme "sério" Interiores, dois anos antes. Isso explica o clima ácido – e satírico – com que o diretor retrata os críticos de cinema e o próprio público no filme. Em uma cena impagável, que mostra o personagem de Allen durante uma coletiva com a imprensa, uma repórter afirma: "Muita gente o acusa de ser narcisista". E ele responde: "Sei que acham que sou egoísta e narcisista, mas isso não é verdade. Na verdade, se eu me identificasse com algum personagem da mitologia grega, não seria com Narciso". "Com quem seria?", pergunta a repórter. Ao que ele responde: "Zeus".

Charlotte Rampling e Woody Allen em "Memórias"
Memórias também foi o primeiro filme em que Allen utilizou músicas antigas na trilha sonora, fato que se tornaria uma marca registrada ao longo das décadas seguintes. Clássicos de Cole Porter (Easy to Love e Just One of Those Things) Glenn Miller (Moonlight Serenade) e a própria Stardust (cantada por Louis Armstrong), entre várias outras, estão deliciosamente espalhadas ao longo do filme. Até mesmo Brazil, de Ary Barroso, aparece cantada por Marie Lane.

Mas minha maior surpresa foi notar, logo no comecinho do filme, a então estreante Sharon Stone na primeira na cena. Fiquei intrigado e no final do filme tive a confirmação, era mesmo Sharon Stone fazendo sua estreia no cinema. A aparição é sem falas e não dura mais do que poucos segundos, mas a beleza de Stone é marcante. Para mim foi novidade. Eu não fazia ideia de que ela tinha estreado fazendo quase uma figuração neste filme. Aliás, por mais que digam que os filmes de Woody Allen são todos parecidos, para mim ele sempre será uma caixinha de surpresa. 

Sharon Stone, quem diria, estreando em "Memórias"

13 abril 2012

Salve sexta-feira 13!


Não é de hoje que certos dias ou épocas do ano têm fama de serem ruins ou trazerem má sorte. O mais famoso desses dias é a sexta-feira 13, temida pelos supersticiosos e transformada em piada pelos que não estão nem aí para lendas e crendices. Para reforçar ainda mais o mistério dessa data, o cinema americano tratou de imortalizá-la com a série de filmes de terror Sexta-feira 13 (Friday the 13th, 1980), protagonizada por Jason Voorhees, um serial killer que ataca jovens espevitados em acampamentos. O personagem acabou se tornando ícone dos filmes de horror.

Poucos sabem dizer qual é a verdadeira origem dessa crença no suposto azar que a sexta-feira 13 traz. Em meio a várias explicações, ninguém consegue de fato estabelecer um porquê. Segundo Rainer Sousa, graduado em História e membro da Equipe Brasil Escola, uma das mais conhecidas justificativas para essa maldição conta que Jesus Cristo foi perseguido por volta dessa data. Antes de ser crucificado em uma sexta-feira, o salvador das religiões cristãs celebrou uma ceia que, ao todo, contava com treze participantes.

Os desavisados e espevitados jovens de Sexta-feira 13 (1980)
Mas a (má) fama da data é mesmo associada ao filme, que se transformou inesperadamente em um dos maiores sucessos dos anos 1980. Curioso notar que foi uma produção barata e despretensiosa. Dirigido e produzido por Sean S. Cunningham, que já havia trabalhado com Wes Craven (papa dos filmes de terror) em Aniversário Macabro (The Last House on the Left, 1972), Sexta-feira 13 foi inspirado pelo sucesso de Halloween (1978), de John Carpenter. Filmes do diretor italiano Mario Bava, como Banho de Sangue (Reazione a catena, 1971) e Cinco Bonecas pela Lua de Agosto (5 Bambole per la luna d'agosto, 1970) também serviram de inspiração. Cunningham queria que Sexta-feira 13 fosse visualmente chocante.


O temido Jason Voorhees
Filmado entre setembro e outubro de 1979 e lançado em 9 de maio de 1980 (adivinhe: uma sexta-feira!), o longa deu origem a uma série de continuações (12 até hoje), nem todas de sucesso. O fato é que a franquia do maníaco Jason já lucrou um total mais de 500 milhões de dólares. Se isso é má sorte, imagine então o que seria a boa sorte!


Sucesso no mundo todo, Sexta-feira 13 dividiu a crítica, mas encontrou logo de cara uma legião de fãs e seguidores. Os produtores nunca planejaram que aquele filme seria o ponto de partida para uma série de várias outras continuações. Com o tempo, essas continuações começaram a se perder e a qualidade caiu. Virou uma repetição da repetição. A fórmula, no entanto, deu muitíssimo certo ao longo da década de 1980.

Betsy Palmer vive a mãe de Jason
Betsy Palmer, que viveu a mãe do psicopata Jason, afirmou que se não fosse pelo fato de estar desesperada atrás de dinheiro para comprar um carro novo, jamais teria participado do filme. "Que bela merda! Ninguém vai assistir essa coisa", disse ela. Novamente parece que em vez de azar, o filme deu foi sorte. Até hoje Betsy é lembrada por seu papel como mãe de Jason. Rosto conhecido da TV americana nas décadas de 1950 e 1960, ela já havia participado de vários filmes consagrados como A Paixão de Uma Vida (The Long Gray Line, 1955), Os Amores Secretos de Eva (Queen Bee, 1956), O Homem dos Olhos Frios (The Tin Star, 1957) e outros. Um crítico ficou tão revoltado com o papel de Betsy em uma produção barata de terror como aquela que publicou o endereço da atriz em uma revista e incentivou as pessoas a escreverem para ela protestando. Detalhe: ele publicou o endereço errado. Mais uma hilária vitória da "maldição" de Sexta-feira 13.

Outra curiosidade é que a carreira do então jovem Kevin Bacon teve seu pontapé inicial com Sexta-feira 13. Poucos anos depois ele se tornaria um dos astros dos anos 80 em filmes como Footloose - Ritmo Louco (1984), Águas Perigosas (1987) e vários outros na década seguinte.

O jovem Kevin Bacon em Sexta-feira 13
Por esses e outros indícios, não temos motivos para temer a tão mal falada sexta-feira 13. Ela tem mais cara de amuleto da sorte do que dia de azar.