A esquecida estreia de Patrick Swayze


Classificar um filme como uma cápsula do tempo pode reduzi-lo à simples evocação de uma época específica. Alguns filmes, mesmo antigos, mantêm um frescor e uma certa qualidade atemporal. Outros, pouco depois de lançados, tornam-se datados e obsoletos. É precisamente o caso de Skatetown U.S.A., do obscuro diretor William A. Levey.


Tudo no filme remete a 1979, seu ano de produção. Dos diálogos adolescentes e superficiais à moda dos patins, shortinhos minúsculos (tanto masculinos como femininos), sem esquecer, claro, da disco music. Mas a grande curiosidade desta pérola cult, esquecida pelo tempo, é Patrick Swayze, fazendo sua "grande" estreia no cinema. Acredite ou não, além de ótimo dançarino (coisa que não é novidade para ninguém), ele era também um excelente patinador. Tanto que dispensou dublês para viver Ace, o bad boy líder de uma gangue de patinadores de discoteca (!) no filme em questão. 

Patrick Swayze em Skatetown U.S.A.

Skatetown, na história, é uma roller disco gigante, onde uma fauna de excêntricos frequentadores (a maioria jovens) combina passos de dança com manobras avançadas de patinação. O filme foi lançado em outubro de 1979, no auge da febre americana dos patins. Pouco depois, a moda — de vida curta — se espalhou pelo resto do mundo.


Vale lembrar que a Disco Demolition — que iniciou o movimento Disco Sucks ["a disco é uma droga"] — tinha acontecido apenas dois meses antes. (Na segunda metade de 1979, um movimento de repúdio à disco music foi lançado nos EUA, no evento que ficou conhecido como Disco Demolition, no qual incontáveis pilhas de LPs com músicas de discoteca foram, literalmente, explodidos). Mas não importa. A moda das discotecas estava prestes a morrer, mas nem todos estavam cientes, na época. Muito menos a patota de Skatetown, que não estava dando a menor bola para isso e continuava curtindo a sobrevida das discotecas, agora também convertidas em rinques de patinação. Aliás, se tem uma coisa que reina no filme é a disco music.

A noite da Disco Demolition, em julho de 1979, que iniciou a repressão à disco music
O embate do filme é entre Ace, o marrento-dono-do-pedaço, e Stan (Greg Bradford), o bonzinho-novo-no-pedaço. Os dois jovens galãs do filme garantem ótimos números de patinação. E só. Não espere diálogos (quase inexistentes no filme) ou uma história consistente. Aliás, todo o filme não passa de um grande pretexto para cenas de patinação e dança. Enquanto Ace e sua gangue se vestem com roupas de couro pretas, Stan usa uma apertadíssima camiseta rosa, exibindo seus músculos, e calça branca. A moda unissex era comum na época. Se fosse hoje, seria difícil não associar a imagem de Stan à de um gay. Até a música de seu número solo de patinação é, hoje, caricata: Macho Man, do Village People. Mas isso era fichinha, até porque ninguém estranhava homens usando lápis nos olhos, esmalte nas unhas, camisetas e shorts muitíssimo pequenos e justos, além de paetês nas roupas.

O bad boy Patrick Swayze (em cima) e o angelical Greg Bradford (embaixo)

Mesmo o bad boy interpretado por Patrick Swayze, com seu figurino mais "sóbrio" (embora não menos caricato) fica difícil de ser encarado como um bruto encrenqueiro quando o ator começa a patinar e demonstrar sua leveza de bailarino profissional. Em seu número solo, até esquecemos de que ele é o bad boy do filme. Swayze foi bailarino ainda antes de se tornar ator e despontar como astro de Hollywood. Sentiu todo o peso do preconceito: "As pessoas pensavam que eu era gay", contou ele, quando já era famoso. 

O filme é uma grande bobagem, mas daquelas irresistíveis, que a gente precisa ver para crer. Não apenas por ter sido a estreia de Patrick Swayze, mas pelo que ouso chamar de “o conjunto da obra”. É um misto de comédia juvenil e chanchada, que ora pende para um humor adolescente rasteiro, ora apela para uma ingênua banalização erótica. Nos atuais tempos politicamente corretos, muita coisa de Skatetown U.S.A. seria inconcebível. O filme é recheado de closes em bumbuns e peitos de espevitadas moçoilas em trajes apertadíssimos e minúsculos. Os jovens são retratados por meio de clichês típicos de filmes juvenis datados: a maioria dos rapazes são briguentos, conquistadores e machistas, enquanto as moças são "loiras burras" e oferecidas. 

O pai do dono da roller disco e sua assistente

O dono da roller disco Skatetown

O exótico DJ que solta raios da mão
O dono da roller disco (interpretado pelo comediante Flip Wilson) é um negro filho de um anão branco (Billy Barty, de Golpe Sujo). Sua assistente é uma espécie de paquita erótica. O DJ, conhecido como The Wizard ("o mago"), é uma figura não menos extravagante: um branquelo de bigode e peruca black power branca, que vez por outra lança raios laser direto de suas mãos, na pista de dança. Entre os frequentadores, um elenco de jovens que faziam sucesso na época, em séries de TV: Scott Baio (Happy Days), Maureen McCormick (The Brady Bunch) e Ron Palillo (Welcome Back, Kotter), só para citar alguns. Até a sensação do momento, a modelo Dorothy Stratten (assassinada pelo marido em 1980) faz uma constrangedora ponta. (Na vida real, ela havia acabado de ser eleita a Playmate da Playboy do mês de agosto de 1979, e também a Playmate do ano seguinte).

Scott Baio

Ron Palillo
Maureen McCormick
A modelo Dorothy Stratten


De tão apatetados, os frequentadores da Skatetown mais parecem fugitivos de um manicômio. Um deles é, literalmente, louco: um veterano da Guerra do Vietnã que ficou lelé da cuca (numa época em que era totalmente aceitável e engraçado fazer piadas com veteranos de guerra traumatizados). De acordo com Maureen McCormick (a Marcia Brady da série cult The Brady Bunch), que viveu Susan no filme, era comum o uso de cocaína durante as filmagens. Em seu livro Here's the Story: Surviving Marcia Brady and Finding My True Voice (2009), ela revelou: "Como era comum nas discotecas, havia muita cocaína rolando no set. Muitos usavam abertamente."

A trilha sonora é um deleite à parte, com todos os hits mais manjados daquele final dos anos 1970: Born To Be Alive (Patrick Hernandez), Boogie Wonderland (Earth Wind & Fire), Shake Your Body (The Jacksons), Disco Nights (G.Q.), Ain't No Stoppin' Us Now (Mcfadden and Whitehead), Ring My Bell (Anita Ward), Best of My Love (The Emotions) e Boogie Nights (Heatwave), entre outros.

O filme nunca chegou a ser lançado em vídeo ou DVD, provavelmente devido a impasses com direitos autorais, relativos ao uso da trilha sonora. São tantos os hits que, dificilmente, conseguirão regularizar tudo para comercializar o filme atualmente. O único motivo pelo qual poderia haver um possível interesse seria o fato de ter sido a estreia de Patrick Swayze. (Só vendo para crer).

Da esquerda para a direita: Maureen McCormick, Greg Bradford e Scott Baio


Greg Bradford
Da esquerda para a direita: Patrick Swayze, Scott Baio e Maureen McCormick

Skatetown U.S.A. foi o primeiro filme de roller disco. Logo em seguida, foram lançados Roller Boogie (também de 1979) e Xanadu (1980). Nenhum deles obteve sucesso considerável, mas Roller Boogie é lembrado graças à presença de Linda Blair. Já Xanadu, desse trio, é o único que sobreviveu bem e permanece muito conhecido até hoje (não só pelo carisma de Olivia Newton-John como também pela trilha sonora de enorme sucesso). Só Skatetown U.S.A. caiu no limbo do esquecimento.

Nick Castle, um dos roteiristas do filme, tem um currículo curioso: interpretou Michael Myers (sempre de máscara) no primeiro Halloween (1978) e também dirigiu Dennis, o Pimentinha (Dennis the Menace, 1993), entre outros trabalhos. 

No Brasil, Skatetown U.S.A. só estreou em abril de 1981, com o título Febre de Patins.


O estranho motorista


Não é incomum o cinema retratar países estrangeiros de forma idealizada, caricata ou mesmo cômica. Por muito tempo, nosso país foi considerado e mostrado como uma terra exótica pelos filmes de fora. Talvez ainda seja, embora a internet e a rapidez da comunicação tenham quebrado um pouco a ideia de que o Brasil é um paraíso tropical do terceiro mundo, povoado por clones de Carmen Miranda e Zé Carioca. Por muitos anos, foi também o destino favorito de fuga dos vilões do cinema, que buscavam se safar de todo tipo de problema com a polícia ou a justiça.

Um filme em especial me chama a atenção. Não por retratar deliberadamente o Brasil de forma errônea, e sim pela sucessão de "equívocos involuntários", por assim dizer. Trata-se do excelente filme A Esranha Passageira (Now, Voayger, 1942), de Irving Rapper. Um clássico do cinema e um dos melhores de Bette Davis, verdadeiro marco em sua carreira. É um melodrama típico dos anos 1940, bem arrebatador, que perpassa várias fases. Um filmaço para que aprecia o gênero. 

No filme, a atriz interpreta Charlotte Vale, uma solteirona oprimida pela mãe tirânica. Um dia, a cunhada de Charlotte convida um simpático e gabaritado psiquiatra para fazer uma visita à casa da família e, assim, avaliar se Charlotte precisa de um tratamento ou se é apenas uma pessoa reprimida. A resposta é um pouco dos dois. Não vou me estender em análises do filme (existem milhares na internet), pois meu foco aqui é falar da forma engraçada como o Brasil é mostrado em A Estranha Passageira.

O médico recomenda que Charlotte passe uma temporada em sua clínica, nas montanhas. Sob seus cuidados, Charlotte vai, gradativamente, saindo de sua própria concha. Já melhor, em vez de voltar para casa, ela embarca em um cruzeiro pela América do Sul, sob as instruções do médico, com o intuito de estimular sua autoconfiança e independência. É neste cruzeiro que ela conhece Jerry (Paul Henreid), um arquiteto casado e frustrado. Os dois iniciam um idílio amoroso, conscientes de que o romance deve ser enterrado para sempre quando o cruzeiro chegar ao final.

Paul Henreid e Bette Davis em A Estranha Passageira

Em meio a todo o melodrama, o filme garante um inusitado momento cômico, na sequência em que o cruzeiro chega ao Brasil, onde permanece por alguns dias. É possível ver algumas belas imagens do Pão de Açúcar, de Copacabana e do Cristo Redentor. Charlotte e Jerry ficam encantados pela beleza do Rio de Janeiro. Mas se metem em uma confusão com um atrapalhado taxista que não fala inglês.


O motorista conduz o casal por uma estrada de terra, numa região montanhosa do Rio, e se chama Giuseppe. Menos brasileiro, impossível. Para completar, ele fala em uma estranhíssima mistura de portunhol e italiano. E só sabe repetir uma lista de clichês associados ao Brasil: "Corcovado, Pão de Açucar, periquitos, papagaios, borracha". Em uma boate local, o que se ouve é um bolero mexicano. Tudo bem, isso não é impossível. Mas se a ideia era retratar o Brasil, os clichês foram todos equivocados. Claro que nada disso tira o brilho do filme. Mas não deixa de ser curioso ver o olhar estrangeiro sobre aquele Brasil da década de 1940. A língua, a música e os hábitos eram muito confundidos com os costumes e a língua de outros países da América do Sul. Bem, se até hoje isso ainda acontece, imagine mais de 70 anos atrás!






Ironicamente, o livro (Now, Voyager, de Olive Higgins Prouty) no qual baseia-se o filme, traz essa mesma cena, mas em Nápoles, na Itália. Teria o roteiro inicial seguido o livro à risca? Ou as locações foram modificadas depois? Talvez. De qualquer forma, o romance foi publicado em 1941, e também fez enorme sucesso. Os direitos para o cinema foram comprados imediatamente pela Warner, e o filme chegou aos cinemas americanos no final de outubro de 1942. No Brasil, estreou em maio de 1944.


A crítica da Folha de S. Paulo de 12 de maio de 1944 não deixou passar batido: "De fato, tudo se desenvolve de maneira aceitável, até o momento em que ela inventa de viajar. (...) Sem falar na inoportunidade de certos detalhes falsamente típicos, sem falar no chauffeur do Rio, que se chama Giuseppe e se exprime correntemente em espanhol, sem lembrar aquele inverossímil desastre de automóvel, essa viagem foi o maior desastre de Charlotte Vale." Mais adiante, disparou: "Isso que aí está daria um bom filme (excluída, é claro, a viagem ao Rio)."


Uma das cenas antológicas do filme se passa justamente no hotel do Rio de Janeiro, onde os personagens estão hospedados. É quando Paul Henreid acende dois cigarros de uma só vez e oferece um a Bette Davis. A Estranha Passageira teve três indicações ao Oscar: melhor atriz (Bette Davis), melhor atriz coadjuvante (Gladys Cooper) e trilha sonora (Max Steiner). Só este último ganhou. 


Cinco continuações desnecessárias


Uma grande parcela dos apreciadores do cinema não gosta de remakes. Eu me incluo nessa parcela. Salvo raras exceções, os remakes dificilmente recapturam a magia, a fascinação e a novidade do filme original. Pior do que remake, no entanto, é continuação de filme feita muitos anos depois. Ainda mais quando o primeiro filme é daqueles emblemáticos, sucesso absoluto e já faz parte do imaginário coletivo do público. Cinco dessas fatídicas continuações me intrigam por alguns motivos: foram feitas muitos anos depois dos originais; a maioria com elenco diferente do primeiro filme; são totalmente inferiores aos originais e, para piorar ainda mais, os originais são, por si sós, filmes marcantes e de enorme sucesso. Por isso, se é para fazer continuações inferiores, por que fazê-las? As ditas-cujas, por ordem cronológica, são:


Veja o que Aconteceu ao Bebê de Rosemary 
(Look What's Happened to Rosemary's Baby, 1976)

Dirigido por Sam O'Steen, editor do original O Bebê de Rosemay (Rosemary’s Baby, 1968), de Roman Polanski, este telefilme não causou impacto. Pudera: a sequência é totalmente dispensável e só faz empobrecer toda a aura de mistério e terror do filme original, ao tentar mostrar a vida adulta do famigerado e temido bebê de Rosemary. Nem o elenco, que inclui quatro ganhadores do Oscar (Ruth Gordon, Patty Duke, Broderick Crawford e Ray Milland) salva a história pífia. Ruth Gordon, aliás, é a única que fez parte do primeiro filme. Rosemary, aqui, é vivida por Patty Duke (famosa por O Milagre de Anne Sullivan e O Vale das Bonecas). Seu bebê, já adulto, é interpretado por Stephen McHattie, com vasto currículo em filmes para TV e seriados. Tina Louise, outra figurinha fácil dos telefilmes americanos, faz o papel da protetora do filho de Rosemary. Com vinte e tantos anos, ele se tornou nada mais que um jovem rebelde e perdido, com medíocres aspirações de se tornar um roqueiro. Resta saber quem vencerá a eterna batalha: as forças do bem ou as satânicas forças do mal? O final do filme é ridículo.





A História de Oliver
(Oliver's Story, 1978)

Nesta sequência de Love Story - Uma História de Amor (Love Story, 1970), o sofrido Oliver é pressionado pelos parentes a tocar sua vida e assumir os negócios da família. Conhece Marcie (Candice Bergen), uma bela e independente herdeira, e começam a namorar. Mas as lembranças de Jennie, sua esposa falecida, o atormentam o tempo todo. O primeiro filme fez enorme sucesso e é, com certeza, um dos mais lacrimejantes de todos os tempos. Recapitulando: em Love Story, Oliver (Ryan O'Neal), um jovem estudante de Direito, de família muito rica, se apaixona por Jennifer (Ali MacGraw), uma estudante de música, de família humilde. Acabam se casando. Mas o pai do rapaz não aceita Jennifer, por ela ser de origem humilde, e deserda o filho. Algum tempo depois, a moça tenta engravidar e não consegue. Exames revelam que ela está com leucemia. Trágico final. Novela mexicana perde. Já neste segundo filme, Oliver se mostra um chato, o tempo todo angustiado e atormentado pela perda de Jennie. Cenas cansativas das conversas de Oliver com o analista e de Oliver caminhando solitário e sofrendo enchem A História de Oliver. E a fala mais famosa do primeiro filme é justamente de Oliver: "Amar é nunca ter que pedir perdão". Mas ele bem que podia pedir perdão por essa soporífera continuação. Do elenco do primeiro filme, somente Ryan O'Neal e Ray Milland (pai de Oliver) fazem parte desta sequência. Dirigido por John Korty.





Grease 2
(Grease 2, 1982)

Produzido por Allan Carr e Robert Stigwood (os mesmos do primeiro filme), mas dirigido e coreografado pela estreante Patricia Birch, esta continuação narra novas peripécias juvenis de outros estudantes do Colégio Rydell, no começo da década de 1960. Mas dado o enorme sucesso do primeiro filme (tanto de crítica quanto de bilheteria), catapultado pelo casal protagonista e pela trilha sonora inesquecível, este segundo é totalmente dispensável. Estrelado por Michelle Pfeiffer e Maxwell Caulfield nos respectivos papéis de Sandy e Danny, Grease 2 não trouxe uma trilha sonora marcante, e o casal de protagonistas, imortalizados por John Travolta e Olivia Newton-John em Grease - Nos Tempos da Brilhantina (Grease, 1978), nem de longe têm o mesmo carisma aqui. Ao contrário de Pfeiffer, a carreira de Caulfield após Grease 2 foi prejudicada pelo fracasso do filme. Ele chegou a dizer, anos depois: "Antes do lançamento de Grease 2, eu estava sendo considerado o próximo Richard Gere ou John Travolta. Mas quando o filme afundou, ninguém mais quis saber de mim. Foi como um balde água fria na minha cara. Levei dez anos para superar Grease 2." Por outro lado, apesar da desanimante estreia do filme, a ascensão meteórica de Michelle Pfeiffer começou no ano seguinte, quando ela viveu a esposa de Al Pacino em Scarface (1983). Alguns poucos personagens secundários do primeiro longa reaparecem neste segundo (Frenchy, treinador Calhoun, diretora McGee e vice-diretora Blanche), sem grande destaque.





Golpe de Mestre 2
(The Sting II, 1983)

Paul Newman e Robert Redford, que viveram os golpistas Henry Gondorff e Johnny Hooker no primeiro filme, Golpe de Mestre (The Sting, 1973), não participaram desta sequência (para sorte deles). Jackie Gleason e Mac Davis interpretaram os personagens equivalentes do filme original. Apesar dos nomes similares — Fargo Gondorff e Jake Hooker — eles não são exatamente os mesmos personagens do primeiro filme. Difícil esperar sucesso quando os protagonistas do original tornaram seus personagens tão marcantes. Jackie Gleason e Mac Davis certamente não têm o carisma excepcional (e a beleza física) de Newman e Redford. Havia até planos para uma terceira (!) continuação, enterrada antes mesmo de ser iniciada, após o retumbante fracasso da parte dois. Dirigido por Jeremy Kagan.





Os Pássaros 2 - O Ataque Final 
(The Birds II: Land's End, 1994)

Difícil acreditar que teriam coragem de fazer um telefilme ordinário como continuação do clássico Os Pássaros (The Birds, 1963), de Alfred Hitchcock, trinta anos depois. A direção, nesta sofrível continuação, foi de Rick Rosenthal (sob o nome de Alan Smithee, o pseudônimo usado quando um diretor decide renegar sua participação em um projeto). Esta "sequência" mais parece o esboço mal feito de um remake. Difícil associar esse filmeco ao elegante e assustador filme de Hitchcock. Tippi Hedren foi a única integrante do elenco original que voltou para esta suposta continuação. Mesmo assim, ela não revive sua personagem do primeiro filme, Melanie Daniels, e sim uma outra, chamada Helen. Hedren se arrepende até hoje de sua embaraçosa participação em Os Pássaros 2. Em uma entrevista de 2002, ela disse que o filme é "Absolutamente horrível. Me constrange terrivelmente." 



Livro escolhido pela capa


Ele foi eleito o "Homem Mais Sexy do Mundo" pela revista Cosmopolitan, no começo dos anos 1990. Naquela época, nos EUA, era quase impossível abrir uma revista ou assistir TV sem que se visse alguma coisa sobre Fabio. A cada movimento para a câmera, ele era a personificação do amor idealizado e do romance arrebatador. O chamado padrão de beleza pode ter mudado nas últimas décadas, mas o italiano Fabio Lanzoni ainda é, sem dúvida, o supermodelo masculino original. 

Fabio no começo da carreira de modelo
No exército, antes de se tornar famoso
Filho de Sauro Lanzoni, próspero dono de uma fábrica de correias de transporte, e Flora, ex-Miss Milão, Fabio começou como modelo, ainda franzino, aos 14 anos. "Estava em Milão, na academia, e Oliviero Toscani, um dos maiores fotógrafos da Europa, veio até mim e falou: 'Você deveria ser modelo'. Eu não era da indústria, não tinha ideia de quem ele era. Dei o número de telefone do meu pai. Eles conversaram e fui contratado para uma grande campanha e as coisas decolaram."

Fabio era também campeão local de esqui, mas seu breve reinado esportivo acabou quando ele quebrou a perna, aos 16 anos. Como parte da terapia de recuperação, o jovem modelo começou a levantar peso e descobriu outra vocação: o fisiculturismo. Mas seu corpo ficou tão grande e musculoso que sua carreira de modelo estagnou. As roupas italianas, desenhadas para corpos lânguidos e delgados, já não se adequavam mais à sua compleição musculosa.





Aí começou, de fato, a lendária trajetória de Fabio. Contrariando o desejo do pai — que esperava que o filho tomasse parte nos negócios da família — Fabio seguiu seus próprios planos. Saiu da Itália, ainda no começo dos anos 1980, em busca de uma carreira como modelo nos EUA. Reza a lenda que 15 minutos após entrar na famosa agência da Ford Models, em Nova York, Fabio já estava contratado. Aos 19 anos, começou bem, estampando grandes campanhas para a Gap e a Levis. "Naquele tempo, se você fosse um dos melhores modelos masculinos do mundo, poderia ganhar 120 mil dólares. No meu primeiro trabalho, ganhei 150 mil", contou ele ao jornal britânico The Guardian, em 2015. "Então, eu defini um novo padrão". Ele também afirmou que, provavelmente, foi o primeiro a exibir músculos em fotos.

Sua carreira realmente deslanchou em 1987, quando ele foi escolhido para posar para a capa de um despretensioso romance de banca, Hearts Aflame ("corações em chamas"). As tais chamas se espalharam, de fato. A partir de então, o rosto e o corpo de Fabio, estampando as capas desses livros, fez suas vendas aumentarem 40 por cento. O modelo passou a ganhar três mil dólares por cada 45 minutos de fotos e se tornou o "homem da capa" oficial dos romances americanos. Chegava a posar para até 16 capas por dia.

Os romances de banca, apesar de não serem levados a sérios, movimentam uma indústria séria, que rende bilhões de dólares por ano. As milhares de mulheres que compravam os livros com Fabio — só em 1992, por exemplo, ele apareceu nas capas de 55 milhões desses livros —, compravam porque ele estava na capa, e não por causa dos livros propriamente. Foi então que veio a grande sacada: revelar a esse imenso público feminino consumidor que aquele imponente herói, pintado naquelas capas, era um homem de verdade e não apenas um personagem ficcional. O príncipe encantado das capas dos livros virou um herói de carne e osso. 


Quando seu empresário, Peter Paul, percebeu o quanto sua ideia de marketing faria sucesso, tratou de lançar Fabio como o quentíssimo produto do momento. Em pouco tempo ele se tornou uma celebridade. Teve início o "fenômeno Fabio". Ele ganhou seu próprio perfume ("a fragrância para homens criada para o prazer das mulheres"); seu próprio livro, Pirate (que ele admite não ter escrito, mas apenas concebido a ideia); calendários anuais com suas fotos; uma infinidade de pôsteres; seu próprio CD, Fabio After Dark (uma seleção com suas músicas românticas favoritas, incluindo uma cantada por ele mesmo, When Somebody Loves Somebody) e sua própria fita de vídeo de ginástica, Fabio Fitness, além de outro vídeo — bem embaraçoso, por sinal —, A Time For Romance, com uma série de vinhetas de fantasia estrelando Fabio como um herói em várias formas (viking, pirata, conde italiano) que salva donzelas em perigo. 





Além de uma infinidade de outros produtos, vieram vários comerciais de TV, participações em filmes e programas e até um papel em uma série de ação na TV (a canastríssima Acapulco H.E.A.T.). E, como não podia deixar de ser, todos os fatos possíveis e imagináveis sobre Fabio estavam em sua biografia. De suas cantoras favoritas (Mariah Carey) à sua dieta (sem gordura, sem álcool e sem cigarro, e muita água) e seus carros (Rolls-Royce, Jaguar, Mercedes, Porsche). 



Mesmo com tudo isso, é difícil resistir ao impulso de fazer piada com toda a overdose do fenômeno Fabio. Mas não se pode negar que ele era (e ainda é) adorado por suas fãs. A principal razão, além de seu físico, é a extrema delicadeza e gentileza com que as trata. Quando as encontra, ele é sempre humilde ("Não me acho o homem mais sexy do mundo", costumava dizer), sorridente e espirituoso. Mostra-se muito grato a cada uma delas. Em eventos promocionais, durante lançamentos de seus livros e produtos, Fabio olhava cada mulher nos olhos, escutava o que tinham a dizer, mostrava-se afetuoso e sincero e agradecia a todas pessoalmente por terem ido e esperado nas longas filas.

Até a polêmica escritora americana Camille Paglia, uma das intelectuais mais influentes da atualidade, disse coisas positivas sobre Fabio, quando o modelo estava no auge: "Fabio é um sedutor talentoso, muito atencioso com as mulheres, ao elegante estilo europeu. Ele as adora e preenche os sonhos dessas mulheres, de achar um parceiro com o físico de um homem forte e sexualmente atraente e a alma sensível de um artista ou poeta".



Em 1994, o tablóide americano Weekly World News estampou uma manchete com uma frase de Fabio, alfinetando os homens americanos: "Parem de tratar as mulheres feito escravas!". Entre as declarações, o modelo disparou: "Odeio homens que batem em mulheres. Essa atitude de machão é sinônimo de insegurança, e a última coisa que uma mulher quer é um homem inseguro. Tenho 1,87m de altura, 100kg e sou forte. Mas não preciso sair por aí bancando o troglodita com outros homens. Prefiro ser eu mesmo — um cara tranquilo."

Mas Fabio não foi uma criança fácil. Era constantemente expulso da escola, por não obedecer as regras. Porém nunca usou drogas e é totalmente contra. Já foi convidado, recentemente, para vários programas, entre eles, Dancing with the Stars, The Bachelor e The Apprentice. Recusou todos. "Geralmente, quando as pessoas se colocam nessa posição, é porque estão desesperadas por dinheiro e atenção", afirmou ele. "Por que você tem que fazer algo degradante? Por dinheiro? Não há dinheiro no mundo que me faça tomar parte em algo que eu considere degradante."

Mesmo que surja algum outro "Fabio", ele sempre será único. "Não acho que o número de filmes que um ator faça o torne melhor ou pior", disse Carrie Feron, editora executiva da Avon Books (do grupo editorial HarperCollins), campeã dos romances de banca. "A qualidade do trabalho que ele fez é o que conta. Não existe outro Fabio."


No programa de TV de Joan Rivers, em 1992


O homem que foi o rosto do perfume Mediterraneum, da Versace, não aparece mais em grandes campanhas, mas segue com sua vida simples, sem deslumbramentos. Hoje, aos 58 anos, Fabio permanece solteiro. Quando perguntam o que ele espera de uma parceira, ele responde a mesma coisa desde os anos 1990: "A primeira coisa com que me importo são os olhos de uma mulher. Eles mostram sua alma, como ela pensa... Sou muito pé no chão. Preciso de uma mulher capaz de enxergar meu interior e apreciá-lo”, diz ele. "Que ela seja uma pessoa bonita por dentro e por fora, especialmente por dentro, pois, com o tempo, a beleza exterior desaparece. Então você deve ser mais profundo do que isso". 

Há um ano, realizou um de seus grandes sonhos: tornou-se cidadão americano. Agora ele tem, também, a nacionalidade do país pelo qual se apaixonou e que o acolheu ainda na adolescência.

Em 2016, após tornar-se cidadão americano
Em tempos de autopromoção, exibicionismo e narcisismo exacerbados, Fabio é um dos poucos que não exibe suas formas no Instagram: "Não me importo com isso porque tenho uma vida. Não quero que as pessoas saibam onde estou ou o que estou fazendo. Mas entendo que os modelos estão usando a mídias sociais para fazer negócios."

Nos anos 1990 (à esquerda) e atualmente