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Irresistíveis escórias e lixos


Os prazeres e mistérios de gostar de filmes malfeitos, pouco conhecidos e obscuros me fazem enveredar por caminhos tortuosos às vezes, mas não menos fascinantes. Há alguns anos assisti a Poor White Trash 2 (1974), filme de um diretor SUPER obscuro, para quem até já dediquei um post aqui no blog: S. F. Brownrigg. Ele dirigiu e produziu meia dúzia de filmes de terror na década de 1970, todos de baixo orçamento e desconhecidos do grande público. O filme em questão, Poor White Trash 2, também é conhecido como Scum of the Earth


Como eu já conhecia o trabalho do diretor e o estilo modesto, canhestro e assustador de seus filmes — que muito me agradam, por sinal — foi natural que tivesse assistido a Poor White Trash 2. O mais intrigante, no caso, não foi o filme em si e sim esse "2" no título. Não se trata de continuação de nenhum filme, como eu já havia lido e pesquisado. Logo, por que diabos esse 2?

O que o diretor quis fazer foi um filme que parecesse tão chocante e ousado quanto um dos anos 1950, chamado Poor White Trash (cujo título original era Bayou). As histórias nada tinham a ver entre si, mas ele queria que seu filme fosse o equivalente, em matéria de “ousadia”, àquele que tinha sido feito décadas antes. Daí o nome Poor White Trash 2. Claro que fui atrás do outro filme também, para ver o que ele tinha de tão "repulsivo" assim.


Como é muito comum nos EUA, os filmes costumam ser relançados com títulos alternativos. Bayou, dirigido por Harold Daniels em 1957, também é conhecido como Poor White Trash. É a história de Martin Davis (Peter Graves, o piloto de Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!), um jovem e charmoso arquiteto nova-iorquino que participa de uma concorrência para o projeto de um novo centro cívico em Nova Orleans. O chefe o convida para uma visita à cidade, para ver se Martin vai ganhar a competição e ter seu projeto escolhido. Em uma festa típica da região, o arquiteto conhece Marie Hebert (Lita Milan), a jovem beldade local, uma moça de 17 anos (mas parece ter 30) que vive solta a correr pelas redondezas, é amiga dos pescadores da comunidade e mora com seu velho e pobre pai alcoólatra em um humilde barraco. Martin se apaixona instantaneamente pela sexy e impetuosa Marie. O problema é que ela é o objeto de desejo do sórdido Ulysses (Timothy Carey), o valentão da cidade e praticamente o dono da vila de pescadores. A partir daí, disputas, chantagens, trapaças e ameaças entram em cena. Parece roteiro de novela mexicana.

Peter Graves e Lita Milan em Bayou/Poor White Trash (1957)
Lita Milan e Timothy Carey em Bayou / Poor White Trash (1957)
No final das contas, trata-se de um melodrama extremamente datado e pobremente realizado, mas com uma história que até prende (talvez pela excentricidade e exotismo dos caricatos personagens). Mais tímido do que ousado, o filme traz uma pequena lição de moral, ainda que de forma superficial: é preciso lutar por nossos direitos. Distribuído pela United Artists, Bayou não causou impacto ao ser lançado em 1957. Em 1960, foi adquirido pela Cinema Distributors of America, que o reeditou, acrescentou novas cenas e mudou seu título para Poor White Trash (não confundir com um filme feito em 2000, também chamado Poor White Trash, do diretor Michael Addis, que nada tem a ver com essa história). A intenção com a mudança de nome foi fazer o filme parecer mais sensacionalista, sórdido e ousado. Relançado em 1961, Bayou — rebatizado de Poor White Trash — acabou conseguindo sucesso comercial e ficou, durante anos, sendo exibido nos circuitos de cinemas de drive-in americanos. 


Convém ressaltar o significado da expressão que dá nome ao filme. "White trash", traduzido literalmente, significa "lixo branco". De maneira geral, trata-se de um termo norte-americano depreciativo, usado para se referir a pessoas brancas de classes sociais menos privilegiadas, como operários, camponeses, pescadores e lavradores, entre outros. O dicionário Merriam-Webster informa que o primeiro uso do termo ocorreu em 1822. Mas por volta de 1855, já era utilizado por brancos de classe alta e era de uso comum entre todos os sulistas. A partir da década de 1950, white trash também passou a ser usado, de forma sarcástica e sensacionalista — e não menos pejorativa —, tanto para condenar como para justificar exemplos recorrentes de maus comportamentos característicos das camadas mais pobres da sociedade, como bebedeiras, xingamentos, badernas, promiscuidade, desleixo, sujeira e maus modos, em geral. Portanto, batizar um filme, no final da década de 1950, de Poor White Trash ("pobre lixo branco") significava atrair uma atenção enorme. O público ia querer ver como vivia aquela gente pobre, sem modos e como era aquele estilo de vida tão execrável.

Scum of the Earth / Poor White Trash 2 (1974)
A confusão se dá pelo seguinte: Bayou tem como título alternativo Poor White Trash. Voltando ao assunto do início do texto, o diretor S. F. Brownrigg pegou carona nessa ideia e fez, em 1974, o infame Scum of the Earth, que foi rebatizado de Poor White Trash 2 (mas nada tem a ver com o filme de 1957 e tampouco se trata de uma continuação).

Em Scum of the Earth / Poor White Trash 2, Helen (Norma Moore) e seu marido Paul (Joel Colodner) são jovens recém-casados que vão passar a lua-de-mel em uma pacata casa de campo no bosque. Mas o idílio do casal é interrompido quando um misterioso assassino com um machado mata Paul. Em pânico, Helen foge desesperada pelo bosque e encontra Odis Pickett (Gene Ross), que mora na única cabana do local. Ele convence a pobre moça a passar a noite com ele e sua família, que inclui sua esposa Emmy (Ann Stafford), a filha Sarah (Camilla Carr) e o filho retardado Bo (Charlie Dell). Sem ter para onde ir e abalada, Helen acaba ficando com a estranha família de maltrapilhos e percebe que, além de esquisitos, eles são moralmente depravados.

Scum of the Earth / Poor White Trash 2 (1974)
Lançado originalmente em 1974 como Scum of the Earth ("escória da Terra"), o filme foi reintitulado e distribuído nos EUA como Poor White Trash 2. Acontece que Scum of the Earth é também o nome de um filme de 1963, que nada tem a ver com o de 1974. Novamente o labirinto trash me levou ao outro Scum of the Earth, uma historinha ingênua que pretendia chocar o público daquele puritano começo dos anos 1960.

Scum of the Earth, dirigido por Herschell Gordon Lewis e lançado em 1963, é um filme americano do tipo exploitation. (Exploitation é um gênero de filmes apelativos, que têm por objetivo obter sucesso comercial abordando, de forma sensacionalista, a temática que tratam. Em geral, são chamados de "filmes B" e não costumam trazer grandes astros, mas contêm chamarizes de apelo como efeitos especiais pobres e exagerados, sexo, violência, drogas, nudismo, bizarrices, rebeldia e coisas do tipo.)

No filme de 1963, uma ingênua e inocente colegial, Kim Sherwood (Vickie Miles, que mais parece uma mulher de 35 anos fantasiada de colegial), precisa pagar a mensalidade escolar. Sem dinheiro, acaba atraída para um trabalho relativamente fácil, que consiste em posar glamorosamente para fotos comerciais, como modelo amadora. Embora receosa, ela aceita e, após fazer as fotos, passa a ser chantageada pelos sórdidos fotógrafos, que ameaçam difamá-la para seu pai. Os tais fotógrafos fazem parte de uma quadrilha cujo chefe vende fotos ilegais de moças adolescentes nuas, sendo abusadas e degradadas. Eles obrigam Kim a fazer fotos cada vez mais sensuais e explícitas. O pérfido e imoral Mr. Lang (Lawrence Wood), do grupo que alicia as garotas, obriga Kim a atrair novas mocinhas incautas para a armadilha. Essa ideia, por si só, já era chocante para os padrões da época. Tanto que o filme atiça o público, mas apenas sugere a violência sexual. Após muitos dilemas e arrependimentos, a ingênua mocinha é salva no final e aprende a lição. Mas tudo no filme é tão amadorístico que ele é, no mínimo, risível.

Scum of the Earth (1963)
Scum of the Earth (1963)
Scum of the Earth (1963)
Scum of the Earth (1963)
O final, descaradamente moralista, é sombriamente narrado, em off, em tom de advertência: “Para cada garota que escapa da armadilha, outra garota cai na mesma armadilha. Só uma sociedade em alerta pode livrar-se daqueles que caçam em busca das fraquezas humanas, daqueles que são... a escória da humanidade!”

Scum of the Earth (1963)

E assim a confusão dos títulos iguais para filmes diferentes foi desfeita. Para os admiradores de filmes B e produções obscuras, recomendo esses filmes. Bayou/Poor White Trash (1957) e Scum of the Earth (1963), apesar de se pretenderem "chocantes", são bem ingênuos, mal produzidos e datados, mas têm aquela característica quase irresistível dos filmes desse gênero. Já Scum of the Earth/Poor White Trash 2 (1974) é um filme incômodo, que mistura terror psicológico e violência, com uma lúgubre atmosfera de degradação. Quanto ao outro filme, feito em 2000 e também chamado de Poor White Trash, não se trata de um filme trash. É apenas uma comédia boba, com alguns nomes que fizeram certo sucesso no passado (Sean Young, William Devane), e satiriza o estilo de vida típico do chamado poor white trash (pobreza, jovens rebeldes e sem modos, famílias desleixadas que vivem em trailers, homens beberrões, mulheres provocantes).


Sexta básica de (in)utilidades


Higiene mental do bebê

“O espírito da criança se formará e por tôda vida continuará tanto mais sereno, equilibrado e feliz, quanto menos ela sofrer nos seus primeiros anos, isto é, quando mais paulatinamente fôr acostumada ao sofrimento inevitável que a vida impõe”.

Prof. Dr. Pedro de Alncântara





Para garantir ao bebê uma vida sadia e feliz, observe com atenção os pontos enumerados a seguir:

  • Quando lidar com o bebê, faça-o de modo suave e delicado.
  • Não force a alimentação de seu filhinho. Respeite o seu apetite. Se a inapetência persistir, leve-o imediatamente ao seu pediatra, para que seja determinada a causa.
  • Agasalhe a criança de acôrdo com a temperatura ambiente. Não a deixe sofrer frio ou calor.
  • Evite deixar o bebê com fraldas molhadas ou frias. Não o deixe em posições incômodas ou forçadas.
  • Não mime seu filhinho com exagêro e nem o faça com escassez. O amor e o carinho são essenciais à formação da criança.
  • Evite provocar mêdo ou susto em seu filho.
  • Não provoque ciumes na criança.
  • Não engane seu filho. Enganá-lo é também desapontá-lo e humilhá-lo.
  • Deixe que seu filhinho faça por si o que é capaz de fazer.
  • Vista seu filhinho de acôrdo com o seu sexo e a sua idade.



Revista Seleções do Reader’s Digest
Outubro de 1966

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SBT e seu pacote de filmes nos anos 80 - Parte 2


Um texto simples e totalmente despretensioso, que fiz há vários anos, ainda nos primeiros tempos do blog, acabou se tornando a postagem mais popular entre os leitores. Era sobre o SBT e seu pacote de filmes na década de 1980. Levando isso em conta, resolvi fazer uma continuação, já que o tema parece ter agradado a maioria.

Assim como eu, para muita gente que viveu a infância nos anos 1980, o Cinema em Casa, do SBT, era parte obrigatória da rotina de quem acompanhava a programação de televisão naquela época — ainda bem longe da internet e da popularização da TV a cabo.


A emissora de Silvio Santos reprisava os filmes à exaustão, a ponto de ser possível vê-los e revê-los mais de uma vez ao ano. Como listei no primeiro post, listarei neste aqui também outros filmes que eram figurinhas carimbadas no SBT, especialmente no Cinema em Casa. Independentemente da temática adulta ou não, os filmes eram exibidos à tarde ou à noite. (Naquela época, não havia classificação indicativa, apenas 'censura', que no caso dos filmes na TV, era bem liberal).

O Cinema em Casa estreou em 17 de agosto de 1988, em comemoração aos 7 anos do SBT. O primeiro filme exibido foi Rambo - Programado para Matar (First Blood, 1982). No começo, era exibido às quartas-feiras, às 21h30, e assim permaneceu pelos três anos seguintes. Alguns filmes recebiam o famoso selo "Pela 1ª vez na TV". Entre idas e vindas e mudanças de horário, a sessão chegou a ser exibida também às quintas, além das quartas. Em agosto de 1991 passou a ir ao ar diariamente, às 13h30.



Era comum o Cinema em Casa ter semanas dedicadas a gêneros específicos, como Semana do Terror, Semana da Criança, Semana Disney, Semana da Comédia etc. Vamos dar uma olhada em mais 10 filmes que foram bastante reprisados entre as décadas de 1980 e 1990:


O Homem-Cobra (Sssssss, 1973): O auxiliar de um cientista inescrupuloso se envolve com sua filha. O rapaz acaba se tornando cobaia do cientista louco, que o transforma num abominável réptil humano. Campeão de audiência no SBT, nos anos 1980, o filme ficou datado e é bem monótono. Mas marcou uma geração que o assistiu, aterrorizada, um sem-número de vezes na emissora de Silvio Santos. Nostalgia pura. A maquiagem, no entanto, ainda impressiona.




Castelos de Gelo (Ice Castles, 1979): Dramalhão que marcou época. Uma jovem e promissora patinadora, no auge de sua carreira, sofre um terrível acidente e tem seu sonho de tornar-se mundialmente famosa destruído. Com a ajuda daqueles que a amam, ela precisa provar para si mesma e para o mundo que ainda tem potencial para realizar seus sonhos. Haja lágrimas! Ganhou um remake  (totalmente dispensável) em 2010.




O Último Americano Virgem (The Last American Virgin, 1982): Sem dúvida um dos mais reprisados pelo SBT nos anos 1980. Não tem criança ou adolescente da época que não se lembre. O que poucos sabem é que se trata do remake de um filme israelense, do mesmo diretor (Boaz Davidson), chamado Eskimo Limon, de 1978. Os amigos Gary, Rick e David aproveitam todas as infantis loucuras da juventude com as obsessões juvenis usuais: festinhas, sexo e drogas. Gary é entregador de pizza e se apaixona por Karen, que gosta de Rick. Rick a engravida e se recusa a ajudá-la. Mesmo assim, Gary ajuda Karen a fazer um aborto, mas logo depois se decepciona ao encontrá-la novamente com Rick. 




Christine - O Carro Assassino (Christine, 1983): Um rapaz meio nerd compra um carro antigo, modelo clássico dos anos 1950, que parece possuir uma força maligna própria. O antigo proprietário do carro teve um trágico destino. E agora o tal carro começa a mudar o jeito de agir do rapaz, seu novo dono. Para piorar, o carro passa a agir por conta própria, como se estivesse "possuído". Considerado fraco pela crítica, o filme não está entre as adaptações bem-sucedidas de livros de Stephen King. 




Por que eu? (Why Me, 1984): Um dos meus favoritos, esse telefilme, baseado em fatos reais, conta a história de Leola Mae Harmon, uma enfermeira das Forças Aéreas que fica seriamente desfigurada após um acidente de carro, no qual ela também perde seu bebê. O marido não consegue lidar com o fato de sua esposa estar desfigurada. Leola entra em depressão e se questiona por que sobreviveu daquele jeito. Para piorar — sempre pode piorar, ainda mais se for num filme para a TV — o motorista bêbado que causara o acidente se safa com uma pena muito branda. Mas uma luz surge no fim do túnel: um médico vê uma chance de reconstruir o rosto da pobre Leola.




Bala de Prata / A Hora do Lobisomem (Silver Bullet, 1985): Apesar de baseada em uma história de Stephen King, essa adaptação também não está entre as mais elogiadas, embora o filme seja bem conhecido devido às inúmeras reprises na TV. Uma pacata cidadezinha se abala com os violentos assassinatos que começam a acontecer por lá. Os habitantes locais pensam que se trata de um psicopata à solta. Mas um garoto de 11 anos (Corey Haim, ídolo da garotada nos anos 1980), preso a uma cadeira de rodas, acredita que as mortes não estão sendo causados por uma pessoa, mas sim por um lobisomem.




O Poder do Amor / Overdose (Toughlove, 1985): Uma dedicada mãe se desespera ao descobrir que seu adorado filho é um viciado em drogas. Ela e o distante marido tentam encaminhá-lo a um centro de desintoxicação, para evitar uma tragédia familiar maior. Grande parte do mérito do filme se deve à Lee Remick, que faz o papel da mãe. Telefilme bem ao gosto dos anos 1980. Ainda bem que a família era rica e tinha dinheiro para bancar o tratamento do filho drogado.




Namorada de Aluguel (Can't Buy Me Love, 1987): Um nerd (vivido por Patrick Dempsey), que sempre sonhou em ser popular no colégio, descobre que a garota mais linda do pedaço está precisando de 1000 dólares. Tímido e trabalhador, o jovem faz à garota uma proposta: empresta o dinheiro a ela e, em troca, ela deve fingir ser sua namorada. Ela aceita e ele acaba se tornando um dos garotos mais populares do colégio.




Feitiço das Almas / Bruxa - Encontros Diabólicos (Witchcraft / La Casa 4, 1988): Linda Blair, a eterna garota de O Exorcista, e David Hasselhoff, galã do seriado S.O.S Malibu, protagonizam esse filme obscuro. Cheio de cenas pesadas para o horário em que era exibido no Cinema em Casa, no começo da tarde, a história é bem confusa. Uma jovem mãe e seu filho mudam-se para a velha casa de sua sogra, em uma ilha da costa de New England. Mas ela começa a suspeitar de que nem a casa e nem a sogra são o que parecem. Profecias misteriosos acompanham a sinistra presença de uma velha senhora vestida de preto. Vários personagens morrem nas mãos dela, vítimas de ritos satânicos nos quais assustadoras visões acompanham terríveis mortes. Distribuído com vários títulos diferentes, o filme foi lançado em VHS com o nome Bruxa - Encontros Diabólicos, mas passava no SBT com o título Feitiço das Almas




Loverboy - Garoto de Programa (Loverboy, 1989): Patrick Dempsey novamente estrela uma comédia juvenil. Aqui ele é um universitário com notas baixas. Namora Jenny, mas não assume o relacionamento para os pais. Irritada, a moça rompe com ele. Como precisa de dinheiro para voltar a se dedicar aos estudos, o jovem arruma um emprego de entregador de pizzas, mas muda de "profissão" ao conhecer uma empresária que o ajuda financeiramente. A mulher passa para as amigas o telefone do rapaz, que começa a se envolver com mulheres mais velhas e sexualmente frustradas.




Confira a primeira parte da lista AQUI.

Pequena parada de insucessos


No showbizz, o sucesso é algo árduo e delicadíssimo — e, por isso mesmo, muito almejado. A linha que o separa do fracasso é tênue e difícil de ser mantida. Seja na TV, no cinema ou na música, inúmeros são os casos de artistas talentosos que atingiram o ápice e, logo em seguida, estavam por baixo. Mas engana-se quem pensa que isso só acontece com iniciantes. Mesmo entre artistas experientes e consagrados, é comum conhecer o sucesso retumbante em um ano e, no seguinte, o desprezo imposto por um fracasso. Como diz o ditado, "o sucesso tem muitos pais, mas o fracasso é órfão". 

Como o foco deste post é a música, reuni seis exemplos de cantores ou grupos que conseguiram sucesso mundial com hits pelo mundo todo e que, de um ano para o outro, foram praticamente banidos das paradas de sucesso ou não conseguiram chegar nem perto dos êxitos anteriores. Alguns desses artistas recuperaram o sucesso posteriormente. Outros, extinguiram-se gradativamente. De um jeito ou de outro, todos são muito talentosos e bem conhecidos. Vale lembrar que o fato desses álbuns terem sido fracassos comerciais não significa que não possam ter seus méritos.

Elton John - Victim of Love (1979)


O 13° álbum da admirável carreira de Elton John é totalmente diferente de qualquer coisa que ele já tenha gravado. Pouco conhecido do grande público, foi um retumbante fiasco. Lançado em uma época difícil na carreira de Elton, Victim of Love é aquele trabalho que tanto os fãs como o próprio artista preferem ignorar. O LP anterior, A Single Man (1978), não fizera o megasucesso que seus álbuns faziam até meados anos anos 1970, mas também não chegou a fazer feio. A canção de maior destaque foi, curiosamente, a instrumental Song for Guy. Mas 1978 foi o auge da febre disco que assolou o planeta e Elton não queria ficar para trás. Em 1979, o mundo ainda vivia a onda disco, apesar de ela já mostrar sinais de declínio. Mesmo assim, Elton não quis perder o bonde. 

No livro Elton John - A Biografia (Companhia Editora Nacional, 2011), o autor David Buckley explica: "Cercado pela música disco, era simplesmente natural que alguém tão observador das tendências da época quanto Elton John fizesse a sua tentativa. Infelizmente, o resultado foi um desastre. Gravado no Musicland, em Munique, e no Rusk Sound Studios, em Hollywood, e lançado em outubro de 1979, tudo no álbum Victim of Love foi equivocado. Da capa terrível, passando pelas fotos promocionais que exibiam o implante de cabelo malsucedido de Elton, às musicas de duração exageradamente longa, que mal saíam da primeira marcha, o álbum foi um projeto bem-intencionado que morreu na praia."

Talvez Elton tenha chegado um pouco atrasado para surfar na onda disco, ou então, simplesmente, seu estilo não se adaptou ao novo movimento. Trata-se de um LP atípico na carreira do cantor e compositor: é o menor deles, com apenas 36 minutos. O autor de sua biografia explica novamente: "Elton chamou Pete Bellote, produtor britânico que vivia em Munique, para produzir o álbum. Bellote havia trabalhado com Giorgio Moroder em alguns compactos de Donna Summer, incluindo o clássico de 1977 I Feel Love, uma fusão entre o som do Kraftwerk e o soul americano. Contudo, Elton disse que dessa vez não queria se envolver no processo de composição. Isso acabou sendo o tendão de Aquiles do álbum, pois, por mais que Bellote tenha tentado, ele não conseguiu reunir o tipo de material adequado para o estilo e a voz de Elton. As sete faixas — seis compostas em colaboração com Bellote mais uma regravação de Johnny B. Goode — fizeram Elton parecer um convidado no álbum de outra pessoa. As críticas foram as piores possíveis. Stephen Holden, da Rolling Stone, concluiu que o álbum "não teve um único suspiro de vida". Colin Irwin, da Melody Maker, escreveu: "Esse álbum não pode de forma alguma ser apenas considerado um tédio. Há momentos em que ele é completamente insuportável."


Nenhuma turnê foi feita para divulgar Victim of Love, e nenhuma de suas faixas sequer chegou a ser tocada em shows por Elton.


James Taylor - Flag (1979)


Em 1977, James Taylor estava em ótima fase. Além dos vários sucessos que havia emplacado ao longo daquela década, JT, seu LP naquele ano, trazia um de seus maiores hits: Handy Man, além de outros como Your Smiling Face e Secret O' Life. O álbum seguinte foi Flag, lançado em maio de 1979. Era o nono da carreira do cantor e compositor. A julgar pela trilha de sucessos anteriores, era de se esperar que Flag continuasse naquele bem-sucedido caminho. Mas não foi o que aconteceu.


O álbum foi mal recebido, apesar de ter gerado um hit com a versão cover que o cantor fez para Up on the Roof, composta por Gerry Goffin e Carole King e gravada originalmente pelo conjunto The Drifters no começo da década de 1960. Mas Flag, no geral, foi considerado um disco confuso. Incluía ainda outra versão cover, Day Tripper, dos Beatles, que também passou batida. O crítico Stephen Holden, da Rolling Stone de 28 de junho de 1979, detonou: "Se JT [o LP anterior] trouxe o tipo de pessoa refinada, sexy e bem-humorada que todos queríamos conhecer, Flag removeu o glamour e deixou à mostra a essência endurecida de um forasteiro hostil. Nenhuma das novas canções tem a sagacidade irresistível de Handy Man ou o delicioso prazer irônico de Secret O' Life. Em vez disso, Flag oferece o sombrio autorretrato de um deprimido crônico carregando nas costas seu problema com as drogas, pois Taylor acumula, incansavelmente, outros medos a seu próprio desespero."


Chic - Real People (1980)


Fundado pelo guitarrista Nile Rodgers e pelo baixista Bernard Edwards, o Chic foi um dos grupos de maior sucesso da chamada era disco, na segunda metade da década de 1970. O álbum de estreia, em 1977, trazia dois grandes sucessos, Everybody Dance e Dance, Dance, Dance. O segundo LP, C'est Chic (1978), representou o auge da carreira do grupo, com seu maior hit, Le Freak. Foi o único compacto da Alantic Records a vender 6 milhões de cópias e um dos dois únicos que chegaram ao topo da parada de sucessos da Billboard três vezes. E o álbum ainda tinha I Want Your Love, outro grande sucesso. Em 1979, o LP Risqué trouxe mais um hit eterno, Good Times. Até aquele ano, o Chic já havia lançado sete compactos de ouro (1 milhão de cópias), seis de platina (2 milhões de cópias), três de platina dupla e um de platina tripla. Isso só nos Estados Unidos, sem contar o resto do mundo, onde haviam vendido o dobro daquela quantia. Mas na segunda metade de 1979, foi declarada uma espécie de "caça às bruxas" para a disco music.

"Tudo começou com uma brincadeira de um DJ de uma rádio local que havia sido demitido depois que a rádio deixou de tocar rock e passou a tocar disco, o que acabou virando um movimento chamado Disco Sucks [a disco é uma droga]", explica Nile Rodgers em seu excelente livro Le Freak - Autobiografia do Maior Hitmaker da Música Pop (Zahar, 2015). De repente, a irresistível febre que havia tomado conta do mundo tornara-se execrável e devia ser violentamente combatida. "Era como se estivéssemos em uma lenda gótica cheia de elfos, dragões, cavaleiros e reis", conta Nile em sua autobiografia. "Um grupo continuava a sujar o trono sob a autoridade sombria da disco (a música de negros, gays, mulheres e latinos), enquanto o outro grupo tentava devolver o trono ao legítimo governante (os brancos)."

Em junho de 1980, o Chic lançou seu quarto álbum, Real People. Mas o grupo tornara-se uma espécie de bode expiatório do movimento Disco Sucks e passara a representar tudo que deveria ser varrido da face Terra, em termos de música. Assim, apesar de conter alguns compactos dignos de lembrança como Rebels Are We e 26, o LP, em comparação ao sucesso dos dois anteriores, foi praticamente nulo. "O movimento Disco Sucks havia sido tão tóxico que as pessoas da própria indústria — que estavam vendendo um monte de discos de dance music — tinham medo de ser associadas com qualquer coisa relativa à disco (...)."

O curioso é que Nile e Bernard, a talentosa dupla de músicos/compositores/produtores, produziam, paralelamente ao Chic, outros artistas de sucesso como Diana Ross (cujo álbum de 1980, Diana, foi o mais vendido da carreira da cantora) e Sister Sledge (com os hits We Are Family e He's The Greatest Dancer, de 1979, entre outros). O grupo acabou se separando poucos anos depois, mas Nile Rodgers tornou-se um dos maiores produtores de música pop, tendo ressuscitado a carreira de David Bowie com o álbun Let's Dance (1983) e alavancado a de Madonna com Like a Virgin (1984), só para citar dois entre as dezenas de exemplos.


Bee Gees - Living Eyes (1981)


Outro exemplo de grupo que foi severamente boicotado pela própria indústria que o havia elevado à categoria de sensação mundial, os Bee Gees também sofreram na pele a repressão à disco music no comecinho dos anos 1980. Seu 16° LP, Living Eyes, lançado em outubro de 1981, foi a pá de cal na vasta carreira de hits do trio. Mesmo tentando se desvencilhar do rótulo da discoteca, o grupo não conseguiu emplacar com seu novo álbum. As vendas mundiais não passaram de 750 mil cópias, um número pífio se comparado aos 16 milhões que seu disco anterior, Spirits Having Flown, vendera em 1979. Isso sem falar na trilha sonora de Saturday Night Fever (1977), a mais vendida da história na época.

Living Eyes foi o último disco do grupo lançado pelo selo da RSO Records (que seria adquirido pela Polydor e depois extinto). O boicote à disco music continuava forte e muitas rádios simplesmente não estavam tocando os álbuns dos Bee Gees em 1981. A faixa-título do LP foi a escolhida para a divulgação do novo trabalho, mas passou em branco.

Os próprios Bee Gees consideraram o LP fraco, por ter sido gravado sob pressão de sua gravadora, numa época em que o grupo precisava repensar sua direção. Em 1984, Barry Gibb, o líder do trio, admitiu: "Estávamos, obviamente, com medo de Living Eyes. Não era o tipo de álbum que deveríamos ter lançado naquele ponto. Era mais melancólico, não tinha muita energia. Mas estávamos tentando mudar, nos distanciar dos falsetes e fazer algo um pouco diferente. Sabíamos dos riscos quando o fizemos."


Resultado: a carreira do grupo deu uma estagnada e os irmãos Gibb passaram a trabalhar em projetos solo ou produzindo outros artistas. O álbum Guilty (1980), de Barbra Streisand, é um bom exemplo dessa época. Tornou-se o disco mais vendido da carreira da cantora. Os Bee Gees só conseguiriam recuperar seu prestígio como grupo muitos anos depois.


Kim Carnes - Voyeur (1982)


Stephen Thomas Erlewine, do site AllMusic (também conhecido como All Music Guide ou AMG), disse sobre Kim Carnes e o álbum Voyeur: "O problema com o sucesso é continuá-lo". O crítico ressalta ainda que Kim teve grande dificuldade de alcançar o sucesso de Mistaken Identity (1981), seu LP anterior, que trazia o hit Bette Davis Eyes, maior sucesso de sua carreira e premiado como música do ano pela Billboard em 1981.

Voyeur é o sétimo álbum de Kim Carnes, descrito por ela como "mais consistente" que seu anterior. Não só a gravadora, EMI, como os críticos, esperavam que seria um LP de sucesso imediato, como seu antecessor. Pop/rock caprichado, pós-new wave, muitos sintetizadores casados com melodias que tinham tudo para emplacar. Lançado em setembro de 1982, Voyeur recebeu críticas contraditórias, com algumas em sua defesa e outras que afirmavam que ele não fazia jus ao padrão de sucesso alcançado com Mistaken Identity, que havia sido nomeado a álbum do ano no Grammy Award e foi um dos maiores discos de 1981.


Mas Voyeur não teve o mesmo destino. O álbum não causou grande impacto e acabou ficando perdido no meio do caminho, apesar de Kim ter consolidado seu prestígio como cantora e compositora ao longo da década de 1980.


Blondie - The Hunter (1982)


No final dos anos 1970 e início dos 1980, o Blondie ganhou as paradas de sucesso mundo afora e se destacou como um dos pioneiros nos gêneros new wave e punk rock. Fundado pela vocalista Debbie Harry e seu marido, o guitarrista Chris Stein, o grupo emplacou vários sucessos entre 1977 e 1981. O auge foi o LP Parallel Lines (1978), com um dos maiores hits da banda: Heart of Glass. Os álbuns seguintes, Eat to the Beat (1979) e Autoamerican (1980), também vieram recheados de hits e consolidaram ainda mais o prestígio do Blondie. Mas The Hunter, o álbum seguinte, lançado em maio de 1982, acabou fracassando. Não fez nem a metade do sucesso dos anteriores. Era o sexto LP do grupo e se tornou o último daquele período. 

The Hunter era um álbum levemente conceitual, de acordo com o release da gravadora, na época. A música de trabalho escolhida foi Island of Lost Souls, que não causou impacto. Curiosamente, a faixa foi regravada em 1990 por Mara Maravilha com o título Na Ilha dos Sonhos Perdidos, e foi incluída em seu LP Deixa a Vida Rolar, daquele mesmo ano.


A temática predominante nas canções de The Hunter era a procura, a busca e a caça. Mas comparado aos três discos anteriores do Blondie, todos produzidos por Mike Chapman, The Hunter foi uma grande decepção, tanto para a crítica quanto para o público. Seis meses após seu lançamento, a banda se dissolveu. O grupo só voltaria a gravar em 1999.