No tempo das festinhas


A descoberta do amor na adolescência, os anseios, conflitos, inseguranças... O relacionamento com os colegas de escola, com a família e com o sexo oposto. Esse é o despretensioso recheio do filme francês La Boum - No Tempo dos Namorados (La Boum, 1980). Pouco lembrado aqui no Brasil hoje, o filme marcou toda uma geração de adolescentes do comecinho da década de 1980. Dirigido por Claude Pinoteau, La Boum tem como protagonista Vic (Sophie Marceau, fazendo sua estreia), de 13 anos. Ela e a amiga Pénélope (Sheila O'Connor) ficam radiantes ao serem convidadas para a festinha que será um "estouro" (daí o título original em francês, que quer dizer "a festa"). 


Poupette (Denise Grey), a bisavó "prafrentex" de Vic, é sua confidente e cúmplice e garante algumas das cenas mais divertidas do filme. Paralelamente à trama dos adolescentes, desenrola-se a dos pais de Vic, que veem seu casamento aparentemente estável ser afetado por uma crise conjugal. Apesar de ser um filme feito para o público adolescente, os personagens são cativantes e naturais. Mesmo os adultos se sentirão fisgados pelos encontros e desencontros de Vic, seus amigos e sua família.




Várias cenas se passam em bailinhos caseiros, onde Vic vivencia, de forma romântica e inocente, suas primeiras experiências amorosas. O filme é realmente mais simpático do que parece à primeira vista. La Boum estreou na França em dezembro de 1980, onde tornou-se grande sucesso de bilheteria, e até hoje é extremamente popular. Talvez por retratar, sem afetações e com singeleza, adolescentes de uma faixa de idade que são, normalmente, mostrados de forma caricata. Aqui eles são, de fato, adolescentes típicos de 13 ou 14 anos, mas representados com leveza e bom humor.



A trilha sonora também ajudou: a música-tema do filme, Reality, cantada pelo inglês Richard Sanderson, fez enorme sucesso na época e rendeu visibilidade ao então iniciante cantor. Vladimir Cosma, compositor e maestro francês de origem romena, havia selecionado Sanderson para cantar o tema do filme. Aqui no Brasil, Reality foi também um dos destaques da trilha sonora da novela Baila Comigo (atualmente sendo exibida pelo canal Viva). A faixa virou hit, ficou em primeiro lugar em 15 países e vendeu oito milhões de cópias na Europa e na Ásia. Além de Reality, Sanderson também gravou Murky Turkey e Go On Forever para a trilha de La Boum



Uma das cenas mais marcantes do filme é aquela em que Vic está no meio da festa onde todos estão dançando uma música agitada. Matthieu (Alexandre Sterling), seu pretendente, se aproxima e coloca um walkman nos ouvidos da jovem, tocando Reality. Como mágica, os dois começam a dançar de rosto colado, como se estivessem sozinhos, bem no meio da meninada. Mais genuinamente romântico, impossível.



La Boum chegou aos cinemas do Brasil com dois anos de atraso, em 1982. Naquele mesmo ano, o filme ganhou uma continuação, também dirigida por Claude Pinoteau e com o mesmo elenco do primeiro. Sophie Marceau alcançou grande popularidade com sua estreia em La Boum, assim como na continuação, La Boum 2 (1982), recebendo um prêmio César de Melhor Atriz Revelação por sua carismática protagonista. Além da carreira no cinema francês, Marceau ficou conhecida internacionalmente pelos papéis em Coração Valente (Braveheart, 1995) e 007 - O Mundo Não é o Bastante (The World Is Not Enough, 1999).

A fita saiu em VHS aqui com bastante atraso, em 1994, pela Paris Filmes, mas passou despercebida. Provavelmente porque, àquela altura, o filme já parecesse ingênuo demais para os adolescentes dos anos 1990. Uma coisa é fato: não importa a geração, certas coisas nunca mudam. Principalmente os sentimentos da adolescência, época em que tudo parece irremediavelmente intenso e, ao mesmo tempo, inofensivamente volátil. Prova disso é que, em 1º de outubro de 2015, ao ser reprisado por um canal de TV na França, La Boum entrou nos trending topics do twitter francês. O romantismo não está tão morto quanto imaginamos, n'est-ce pas?


Desespero de uma Mulher (She Cried Murder, 1973)


Telefilmesquecidos #6


De dentro do metrô, no último vagão, a modelo Sara Cornell (Linda Day George) vê um homem empurrar uma mulher para debaixo do trem. Abalada, entra em contato com a polícia. Mas, para sua surpresa, ao ser convocada para testemunhar, percebe que o detetive encarregado das investigações é também o assassino. (Não, isso não é spoiler. A informação é revelada logo no comecinho do filme).

Assustada, ela sabe que a polícia não vai acreditar em seu insólito depoimento. Como Brody (Telly Savalas), um inspetor acima de qualquer suspeita, pode ser o assassino? A constatação logo coloca em perigo a vida de Sara e de seu filho. Um caso típico de quem estava no lugar errado e na hora errada. Agora, claro, Brody precisa eliminar Sara e manter em segredo seu crime e o motivo pelo qual o cometeu.




O filme é curto até para os padrões dos telefilmes (apenas 66 minutos), mas o suspense é garantido do começo ao fim. Não há enrolação e as cenas de perseguição são boas. A questão é: como Sara vai provar que Brody é o assassino? E como ela vai conseguir escapar dele? É um jogo de gato e rato: ele tentando matá-la, enquanto os outros policiais procuram chegar a tempo. Apesar de não se deter com profundidade na personalidade nos personagens, é possível perceber que Sara, viúva, é uma mulher vulnerável e insegura.



Linda Day George era um nome fácil nos telefilmes americanos das décadas de 1970 e 1980. A grande surpresa é Telly Savalas, que todos se acostumaram a ver como o inesquecível detetive Kojac, do seriado de TV homônimo, traindo a causa do bom policial e interpretando um investigador assassino. Desespero de uma Mulher foi dirigido por Herschel Daugherty, que possuía vasto currículo como diretor de seriados de televisão. O filme estreou na TV americana em 25 de setembro de 1973, no canal CBS, e em 27 de setembro de 1975 aqui no Brasil, pela Globo.


Para Onde Foram Todos? (Where Have All The People Gone, 1974)


Telefilmesquecidos #5


Steven Anders (Peter Graves) e os filhos adolescentes, David (George O'Hanlon Jr.) e Deborah (Kathleen Quinlan), estão viajando de férias, acampando pelas montanhas da Califórnia. A mãe precisa voltar para casa, em Malibu, por motivos de trabalho, e interrompe seu passeio. Mas o grupo segue feliz. Tudo na santa paz da tradicional e perfeita família americana da década de 1970. Porém...

O idílio familiar é ameaçado durante uma expedição a uma caverna, quando um estranho clarão solar produz uma grande explosão. Felizmente os Anders, que estavam dentro da caverna, escapam ilesos. Mas o misterioso clarão deixa quase todas as pessoas doentes, como se tivessem sido contaminadas por algum tipo de radiação. A tal luz forte destrói as vítimas em pouco tempo, deixando apenas cinzas e as roupas. 



O pai e os filhos pensam que foram poupados porque estavam na caverna durante a tal explosão. No entanto, não demoram muito a perceber que o tal fenômeno não foi algo isolado. Pior: fez sumir praticamente toda a população da Terra, danificou todos os aparelhos eletrônicos e produziu um estranho efeito nos cães, tornando-os assassinos raivosos. 

Onde foram parar todas as pessoas? O que houve? Como essa família vai voltar à civilização? Muitas perguntas, poucas respostas. Apesar do baixo orçamento (típico das produções para a TV), a história é bem contada e tem boa dose de suspense. Peter Graves — conhecido pela série Missão Impossível (Mission: Impossible, 1966) e pelo filme Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu (Airplane!, 1980) — é o astro principal, claro. Seu personagem, o pai inteligente, paciente e sensato, precisa tirar a família das montanhas e seguir para o litoral, em busca de ajuda e respostas. No meio disso, ainda precisa tranquilizar os filhos.




Trata-se de uma espécie de ficção científica sombria. O tema do mundo pós-apocalíptico pode até ser batido, mas Para Onde Foram Todos? é um filme bem envolvente. Principalmente se levarmos em conta seus limitados recursos. Não há sanguinolência e nem muita violência. O que conduz a história é a aflição da incerteza e do desconhecido. Durante a jornada, a família ainda encontra alguns poucos sobreviventes. Mas é perturbador não saber o que aconteceu com as outras pessoas e com o planeta em geral.

Kathleen Quinlan, que vive a filha de Peter Graves, era figurinha fácil nos seriados e filmes para a TV durante as décadas de 1970 e 1980. George O'Hanlon Jr., o irmão de Kathleen no filme, também era assíduo no elenco de produções para a TV. Ambos participaram de outro telefilme, Pânico (The Missing Are Deadly, 1975), que estreou três meses depois de Para Onde Foram Todos.




Com direção de John Llewellyn Moxey, o papa dos telefilmes, Para Onde Foram Todos? estreou na TV americana em 8 de outubro de 1974, pela rede NBC. No Brasil, foi exibido pela primeira vez na Globo, em 4 de dezembro de 1976, e foi bastante reprisado nos anos subsequentes. Lançado em VHS nos EUA, na década de 1980.



Conectado, mas nem tanto


Lembra daquela vinheta que passava de madrugada na Globo, para anunciar a programação do dia? "Faremos agora uma pequena pausa em nossa programação. Logo estaremos juntos novamente". Este é meu momento de pausa. Ou melhor, de desabafo. Não sei se estou fazendo drama ou se as coisas é que mudaram rápido demais para o meu entendimento. A verdade é que tenho achado difícil acompanhar esse ritmo — ou novo estilo de vida. Há algum tempo ando com preguiça das redes sociais. Bem, não das redes sociais em si, mas da histeria coletiva em ter que estar conectado 24 horas por dia, espetacularizando a própria vida (por mais banal que seja) como se ela fosse o mais excitante dos reality shows. Até pode ser (para quem a vive). Mas será que essa exposição excessiva o tempo todo realmente compensa? É tão gratificante assim?


As redes são um ótimo meio para trocar ideias, divulgar trabalhos, fazer novas amizades, descobrir afinidades. Essa é a parte boa, todo mundo sabe. O lado ruim (e não menos conhecido) é ter que aturar haters acéfalos, narcisistas compulsivos, fanáticos de plantão e gente maluca e briguenta em geral. E parece que de uns tempos pra cá esse lado ruim tem ganhado cada vez mais visibilidade. O que antes era uma coisa esparsa e quase inofensiva se alastrou de vez. Não há mais como ignorar.

Estou em quatro redes sociais: Facebook, Twitter, Instagram e Linkedin (o que acho um exagero). Mas sou um usuário relapso. Tenho preguiça (nunca escondi) dessa obrigação de me fazer presente todos os dias. Não tenho tanta coisa assim para compartilhar ou relatar. Pelo menos não que seja de interesse público. Aliás, minha vida está longe de ser interessante. Tive momentos muito divertidos no Facebook e no Twitter, comentando programas de TV com outras pessoas, falando de música, filmes, comportamento, trabalho ou outro assunto qualquer. Até mesmo fazendo brincadeiras.

Nos últimos meses, entretanto, tenho andado bem menos assíduo. Por preguiça, admito. E por constatar que tudo vai virando uma grande mesmice: as piadas, os comentários, as rusgas… Ficamos com a impressão de que estamos lendo a mesma coisa todos os dias, das mesmas pessoas. Como um padrão que se repete maquinal e diariamente.


Fiz alguns ótimos amigos nas redes sociais. Pessoas bacanas, divertidas, queridas e inteligentes, com quem gosto de interagir. Mesmo assim, tenho sentido falta do "real". Sei que esse modelo de exposição via redes sociais funciona para a maioria das pessoas, mas pra mim está se tornando cada vez mais cansativo. Não pelos amigos, claro, mas por estar no meio da bagunça toda. É como se eu quisesse conversar com meia dúzia de amigos e combinasse de encontrá-los em um estádio enorme, barulhento, cheio de desconhecidos, música alta, gente falando, gritando, brigando, paquerando, passando. E eu e meus amigos ali, naquela multidão caótica.

Sinto falta de mais leveza nas redes sociais, como acontecia alguns anos atrás. Quando parecíamos nos comunicar de forma mais espirituosa e menos belicosa. Quando as interações eram mais despretensiosas e as pessoas não tinham essa urgência em se autopromover o tempo todo. De repente parece que estão todos falando ao mesmo tempo, mas sozinhos. Sem interesse em ouvir os outros. Querendo ouvir apenas o eco da própria voz. Na frente de um espelho. Se admirando, procurando sempre o melhor ângulo, a melhor luz, a melhor e mais sedutora posição. Querendo atenção, pedindo desesperadamente para serem admiradas, amadas, desejadas, cobiçadas. E, ao mesmo tempo, viciadas em avaliações e comparações com outros usuários das redes. E isso se repete o tempo todo. Mais ou menos como no primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror (2016), protagonizado por Bryce Dallas Howard.

Episódio "Queda Livre" (Nosedive), da série Black Mirror, protagonizado por Bryce Dallas Howard
O próprio cientista e escritor Jaron Lanier, criador do conceito de Realidade Virtual, alega que nas redes sociais o cidadão perde seu livre arbítrio e se submete ao mecanismo viciante dos likes: "Eles alimentam esses sentimentos, e você fica preso num loop", disse ele em uma matéria publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo, de 7 de julho deste ano.

Que fique claro: não estou satanizando as redes sociais. Longe disso. Eu também estou nelas e tiro coisas boas delas. O que me cansa é a forma como temos convergido nossa existência para um mundo cada vez mais virtual, a ponto de não conseguirmos ver sentido em nada que não esteja na tela de um smartphone ou tablet. Mais: a ponto de estarmos hiperconectados e precisarmos transmitir tudo, o tempo todo, para todo mundo.

Ilustração do artista inglês John Holcroft