Um Hóspede Muito Estranho (Crawlspace, 1972)


Telefilmesquecidos #11

Pelo título em português, bem poderia se tratar de uma comédia daquelas bem previsíveis. Mas de engraçado este filme não tem nada. É, na verdade, uma história melancólica, soturna e até incomum para um telefilme. 


O casal de meia-idade Alice (Teresa Wright) e Albert Graves (Arthur Kennedy) se muda para uma pequena cidade do interior, em busca de descanso e de uma vida pacata. Albert está se recuperando de um ataque cardíaco. Como o casal não teve filhos, dedicam-se inteiramente um ao outro. 

Quando o sistema de aquecimento central da cozinha dá defeito, a empresa de reparos envia Richard (Tom Happer) para consertá-lo. Problema resolvido, o casal convida o jovem para jantar. Alguns dias depois, o forno volta a dar defeito. Um outro homem da empresa de consertos aparece e explica que Richard desapareceu.




O casal começa a ouvir barulhos estranhos sob o chão da cozinha. Os sons misteriosos são provenientes do vão condutor no porão da casa (em inglês, crawlspace). Albert e Alice constatam que Richard está morando naquele espaço (daí o título original, crawlspace, onde só é possível rastejar). Estranhamente, eles deixam o rapaz continuar a viver sob suas tábuas. Mais: resolvem "adotá-lo" informalmente, apesar de Richard recusar-se a dormir em outro lugar que não seja o vão condutor no porão.



De certa forma, Richard, mesmo com seu jeito de animal acuado, preenche o dia a dia do velho casal, quase como se fosse a criança que eles nunca tiveram. É possível entender por que o casal quis Richard em suas vidas, já que ele se torna o único assunto de suas conversas. O estranho rapaz começa a consertar pequenas coisas pela casa e se torna necessário. Mas isso não altera seu jeito introspectivo e impenetrável.

A história é mais triste do que propriamente assustadora. Há uma constante tensão que pesa sobre a natureza evasiva de Richard e a bucólica vida do casal. Albert e Alice nunca conseguiram ter um filho. Ao mesmo tempo, um homem que nunca conseguiu encontrar seu lugar no mundo está ali, ao redor deles. E mesmo nos breves momentos de felicidade que os três encontram juntos, há sempre o medo de que tudo possa desmoronar a qualquer momento. 




O filme mescla momentos de desolação e uma atmosfera perturbadora, de ameaça iminente, quase palpável. Mas nunca sabemos, ao certo, qual é o perigo e como ou quando ele poderá se concretizar. Richard carrega, sob sua aparência de inocência quase animalesca, um desconcertante clima de pesadelo enigmático.

Dirigido por John Newland e baseado no romance homônimo de Herbert Lieberman, Crawlspace estreou na TV americana pela CBS, em 11 de fevereiro de 1972. No Brasil, foi exibido pela primeira vez no Canal 13 (atual Bandeirantes), em 16 de janeiro de 1976. Ao longo da década de 1980, foi reprisado no Corujão, da Globo.



Tanto o então novato Tom Happer quanto os veteranos Arthur Kennedy e Teresa Wright estão ótimos em seus contidos papéis. Arthur, que já havia sido indicado cinco vezes ao Oscar, recebeu o prêmio Tony na Broadway, em 1949, por sua atuação em A Morte do Caixeiro Viajante, entre outras premiações. Teresa, também indicada várias vezes, ganhou o Oscar de Atriz Coadjuvante em 1942 por Rosa de Esperança (Mrs. Miniver).

A tesoura também bailou


Guardo este recorte desde a infância. Eu costumava colá-los em um caderno velho, pelo prazer de colecionar recortes sobre filmes, TV, música e coisas do gênero. Este aqui não me lembro se tirei de uma Nova ou uma Claudia de 1981, que encontrei já meio mofada na casa da minha tia-avó. Mas sei que foi em uma dessas duas revistas. Outro dia, ao remexer nesses recortes, este que transcrevi abaixo me elucidou alguns pontos obscuros sobre Baila Comigo, atualmente em exibição no canal Viva.


Televisão
Por Dalce Maria
(Agosto/1981)

Não teve jeito: agosto chegou e com ele lá se foram as férias de meio de ano da garotada. Agora é “começar de novo” — como já disse o poeta. E isso é até bem saudável. Até porque, mais que ninguém, as mamães merecem descansar do verdadeiro sufoco que é ter a filharada o dia inteiro de boa vida em casa, a exigir muito mais atenção e cuidado. Daí que boa sorte a todos os aluninhos e alunões deste patropi e que a performance de cada um neste segundo semestre supere — e muito — a registrada de março a junho. Amém.

E para não parecer que estou fazendo fofoca ou transferindo culpas, darei exemplos da tese que defendo e tento divulgar calcados no que já aconteceu e ainda está acontecendo com a novela de maior sucesso do momento: Baila Comigo. A começar pelo próprio título da obra, meses atrás, quando ela ainda nem tinha estreado, já acontecia a primeira interferência: Manoel Carlos, o autor, queria que a novela se chamasse Quadrilha, numa alusão ao poema de mesmo nome de Carlos Drummond de Andrade e já aproveitado por Chico Buarque numa música que fala dos desencontros do amor. Em verdade, Pedro que amava Dora, que amava Paulo, que amava Luiza, e assim por diante — ou seja, Quadrilha — têm muito pouco a ver com Baila Comigo, já que esta conta a história de Plínio que amava Helena, que amava Quim, que casou com Marta, e assim por diante — ou seja, de fato, outra Quadrilha. Mas a cúpula mandou que o baile acontecesse e lá se foi a primeira intenção do autor, ao sabor da ordem — hierárquica. Semanas se passaram e eis que surge a segunda interferência: Manoel Carlos criou dois personagens — Fauna e Flora — que deveriam aparecer no máximo, a partir do 30º capítulo da novela. No entanto, Baila Comigo passou das 85 apresentações e nada das duas surgirem. Esquecimento do autor? Maneco teria se perdido pelas outras tramas, sem ter fôlego para criar mais uma? Nada disso. A razão: a Globo não tinha meios de realizar mais um cenário para a novela e o autor teve que aguardar até que isso pudesse acontecer — quer dizer: o chamado motivo de ordem material. E para sintetizar — já que meu espaço está acabando, vamos à maior interferência da qual um autor de novelas pode padecer: a Censura. E citemos apenas alguns dos exemplos de como a chamada grande tesoura tem atingido Baila Comigo. Um: o episódio do tiro deflagrado por Mauro contra Caio — a mão deste surgiu, de repente, sangrando, sem que o ataque propriamente dito fosse mostrado. Outro: o personagem interpretado por Lilian Lemmertz vinha falando continuamente dos problemas ligados ao sexo durante a maturidade, de repente, o papo mixou como se não tivesse a menor importância. Mais um: o romance de Quim e Sílvia parecia evoluir às mil maravilhas, de uma hora para outra, um flagrante da quase ex-mulher dele, Marta, foi o que bastou para gorar o grande amor. Tudo isso foi bobeira de Manoel Carlos? Pois sim… Foi é corte da Censura — ou sejam, os chamados motivos de força maior, bem maior.