O terror em episódios da Amicus - Parte 1


No comecinho dos anos 1970, um subgênero tornou-se muito popular entre os apreciadores de filmes de terror: o terror em episódios. A Amicus, produtora inglesa fundada pelos americanos Max Rosenberg e Milton Subotsky, especializou-se neste tipo de produção. Assim como sua rival, a também britânica Hammer, a Amicus explorava o terror e o fantástico. Quase sempre trabalhavam com os mesmos atores e diretores — que também  participavam das produções da Hammer, como Christopher Lee e Peter Cushing, e os diretores Freddie Francis e Roy Ward Baker. 


Os filmes eram divididos em episódios, com um fio condutor que costurava a trama. Quatro ou cinco histórias distintas, cada uma com duração média 20 minutos, eram apresentadas dentro de um contexto (um asilo, um manicômio, uma loja de antiguidades, uma casa etc.).

Por conta das sucessivas reprises nas madrugadas da televisão, entre as décadas de 1970 e 1990, essas antologias fizeram bastante sucesso no Brasil, embora, na maioria daz vezes, não chegassem a ser lançadas em vídeo aqui (provavelmente porque quando houve a explosão do VHS no Brasil, na década de 1980, esses filmes já estivessem datados). Fora da programação de TV há muitos anos, os filmes, apesar de hoje quase esquecidos, possuem uma fiel legião de fãs.

"A Casa Que Pingava Sangue" (1970)
"A Casa Que Pingava Sangue" (1970)

"Asilo Sinistro" (1972)
Modestos e até meio ingênuos se comparados às atuais produções de gênero, os filmes de terror em episódios da Amicus tinham um grande mérito: as histórias eram sempre sombrias, intrigantes e assustadoras. Não pelo que era mostrado, mas sim pelo que era contado, já que quase tudo era apenas sugerido, sem banhos de sangue explícitos nem carnificina. 

Foi na TV que descobri esses filmes, na adolescência, quando eles já faziam parte das velharias exibidas nas madrugadas das emissoras. Separei seis desses filmes, que considero ótimos. Neste primeiro post, três dessas pérolas esquecidas para os  admiradores do estilo.


A Casa que Pingava Sangue (The House That Dripped Blood, 1970)
Direção: Peter Duffell



Um dos melhores do gênero. O roteiro é de Robert Bloch, mesmo autor de Psicose (Psycho). Aqui, uma casa é a protagonista e o cenário para quatro histórias diferentes. Na primeira, Method for murder, o escritor de romances de terror Charles Hillyer (Denholm Elliott) e sua esposa são os inquilinos. O escritor é perseguido por um estripador, que se trata de um personagem criado por ele próprio para um de seus livros. Na segunda, Waxworks, Philip Grayson (Peter Cushing) e seu amigo Neville Rogers (Joss Ackland) impressionam-se com uma figura de um museu de cera, modelada à imagem da mulher do dono do museu, que decapita aqueles que por ela ficam fascinados. Na terceira história, Sweets to the sweet — minha favorita — o inquilino da casa é o viúvo John Reid (Christopher Lee), que se muda para lá com sua filhinha. Contrata uma babá para cuidar da garota, mas o que ele teme é que a filha tenha herdado da falecida mãe os poderes de feiticeira. Por isso mantém a garota reclusa. Na última história, The cloak, o veterano ator Paul Henderson (Jon Pertwee), de tanto aperfeiçoar-se em filmes de terror, acaba tornando-se um vampiro de verdade toda vez que usa uma capa comprada de um velho. Lançado em DVD no Brasil.


Contos do Além (Tales From The Crypt, 1972) 
Direção: Freddie Francis



Esta antologia foi baseada em cinco histórias em quadrinhos publicadas nas revistas Tales from the crypt e The vault of horror, na década de 1950. Cinco desconhecidos vão com um grupo turístico visitar velhas catacumbas. O que não se dão conta é de que estão todos mortos. Separados do grupo principal, encontram-se em uma sala com o misterioso guardião de uma cripta, que detalha como cada um deles morreu. Na primeira história, And all throught the house, Joanne Clayton (Joan Collins) assassina o marido na noite de Natal e é ameaçada por um psicopata vestido de Papai Noel. Em Reflection of death, Carl Maitland (Ian Hendry) abandona a família para fugir com a amante, mas sofre um terrível acidente de carro. Em Poetic justice, o bondoso velhinho Arthur Grimsdyke (Peter Cushing) suicida-se vítima das calúnias do vizinho milionário James Elliott (Robin Phillips), mas depois se vinga desse homem sem coração. Em Wish you were here, o inescrupuloso empresário Ralph Jason (Richard Greene) e sua mulher Enid (Barbara Murray) descobrem uma estatueta chinesa, que promete conceder a quem possuí-la a realização de três desejos. Mas os resultados são sinistros. Em Blind alleys, os cegos de um asilo, cansados de sucessivos maus-tratos, preparam uma macabra e intrincada vingança para o cruel administrador da instituição, o major William Rogers (Nigel Patrick).


Asilo Sinistro (Asylum / House of Crazies, 1972)
Direção: Roy Ward Baker



Neste aqui, mais uma vez, Robert Bloch escreveu o roteiro, com base em uma série de seus próprios contos. O Dr. Martin (Robert Powell) vai a um isolado manicômio, para uma entrevista de emprego com o Dr. Lionel Rutherford (Patrick Magee). O Dr. Rutherford revela seu plano pouco ortodoxo para determinar se Martin é adequado ao cargo de doutor da instituição. Um dos internos do manicômio é o Dr. B. Starr, o ex-chefe do asilo, que teria sofrido um colapso mental e passou a integrar o grupo de doentes. Martin então é desafiado pelo Dr. Rutherford a entrevistar os internos para descobrir qual deles seria o Dr. Starr. Pode ser um homem ou uma mulher. Se ele acertar, será contratado para o cargo. Martin entrevista um de cada vez, tentando adivinhar qual deles é, de fato, o Dr. Starr. Esse é o fio condutor da trama, que nos apresenta os pacientes "incuravelmente insanos". Na primeira história, Frozen fear, a interna Bonnie (Barbara Parkins) narra o complô para assassinar a esposa de seu rico amante Walter (Richard Todd). Mas o interesse da esposa de Walter por práticas de vodu acaba atrapalhando os planos dele com a amante. Na segunda história, The weird tailor, o alfaiate Bruno (Barry Morse) conta que se viu forçado a aceitar um pedido inusitado de um cliente, o Sr. Smith (Peter Cushing). Do contrário, seria despejado de sua loja caso não pagasse o aluguel em uma semana. O enigmático Sr. Smith encomendou um elaborado terno, que deveria ser confeccionado sob regras estritas com um misterioso tecido. Mas o trato não saiu como planejado. Em Lucy comes to stay, Barbara (Charlotte Rampling) relata a Martin que esteve em um asilo antes e, depois de sua alta, foi acompanhada de perto, em casa, pelo irmão George (James Villiers) e uma enfermeira. A entendiante recuperação é aliviada pelas visitas da espevitada amiga Lucy (Britt Ekland). Mas a influência de Lucy acaba sendo desastrosa. Na última sequência, Mannikins of horror, Martin entrevista o Dr. Byron (Herbert Lom), que está trabalhando na fabricação de um pequeno autômato, um robô em miniatura cuja cabeça é a imagem da sua própria, e mostra a Martin vários outros modelos. Byron explica que o interior do robô é orgânico, contendo inclusive uma versão em miniatura de suas próprias vísceras. Terminadas as entrevistas, Martin deve dar sua resposta o Dr. Rutherford. No Brasil, o filme foi lançado em VHS pela Globo Video. Recentemente saiu também em DVD aqui, com o nome O Asilo do Terror.


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