Embalos de uma trilha eterna


Os Bee Gees nos anos 1960
Não me canso de falar sobre Os Embalos de Sábado à Noite, um dos meus filmes favoritos. Com a trilha sonora, imortalizada pelos Bee Gees, não poderia ser diferente. O curioso é que pouco antes do filme, o grupo estava em baixa. Os irmãos Gibb — mais conhecidos como Th Bee Gees — haviam experimentado o doce (e também amargo) sabor do sucesso, no final da década de 1960, com uma série de hits: New York Mining Disaster 1941, To Love Somebody, Massachusetts, Words, I've Gotta Get a Message to You e vários outros. A partir do começo da década de 1970, o sucesso deu os primeiros sinais de diminuição. As divergências entre os irmãos começaram a prejudicar o andamento do grupo. Brigas à parte, continuaram gravando e lançando discos. Canções românticas e baladas melancólicas compunham o repertório do grupo. Por volta de 1974, o trio não causava mais a euforia de antes. "Vale lembrar que, àquela altura, estávamos praticamente acabados", explicou Barry Gibb, líder do grupo, em 2007. "O som dos Bee Gees já estava gasto. Precisávamos achar algo novo."

Uma inesperada reviravolta mudou definitivamente não só a história dos Bee Gees, como também da própria cultura de massa mundial. Robert Stigwood, empresário do grupo, trabalhava na produção de um filme, marcado para estrear em 1977 e inspirado em um artigo da revista New York, publicado em junho de 1976 pelo jornalista Nik Cohn. Mas até aquele ponto, com as filmagens já em andamento, o longa não tinha título definido e nem trilha sonora. Stigwood, então, encomendou aos Bee Gees as canções.

Robert Stigwood (camisa listrada) e os Bee Gees
De uma tacada só, o grupo compôs e gravou Stayin' Alive, Night Fever e More Than a Woman. "Saturday Night [Noite de sábado]. Esse era o nome do filme até que os Bee Gees incluíram na trilha uma música chamada Night Fever [Febre da noite]", explica Rodrigo Rodrigues, autor do Almanaque da Música Pop no Cinema (editora Leya, 2012). "Pronto, filme e música se misturaram de tal forma que ficou difícil separar o áudio do vídeo. Assim nascia o clássico Saturday Night Fever. O longa foi baseado num artigo da New York Magazine, chamado Tribal rites of the new Saturday night [Ritos tribais da nova noite de sábado], que falava da febre da música disco que tomava conta dos jovens americanos."

A revista New York com o artigo que inspirou o filme
Enquanto o filme era finalizado, os Bee Gees compuseram temas adicionais para a trilha. "Quando começaram a ensaiar com John Travolta as danças para o filme, usavam nossa canção You Should Be Dancing, que tinha sido lançada no ano anterior", explicou Robin Gibb, em entrevista ao Observer Music Monthly (janeiro de 2008). "Estávamos mixando um álbum ao vivo na França e Robert nos telefonou e perguntou se não tínhamos nenhuma outra música para contribuir. Acabamos compondo cinco faixas."

Stigwood incluiu também canções já lançadas em discos recentes do grupo: Jive Talkin' (do álbum Main Course, de 1975) e You Should Be Dancing (do álbum Children of the World, de 1976). Essas faixas, que representavam uma nova fase na carreira dos Bee Gees, recolocaram o trio nas paradas de sucesso. Foram nesses dois discos que surgiu o famoso falsete (registro vocal agudo) de Barry Gibb, que alguns anos depois se tornaria marca registrada do grupo. Estava prestes a explodir o fenômeno da disco music.

Os LPs Main Course (1975) e Children of the World (1976)
Quando o filme estreou nos EUA, em dezembro de 1977, a trilha sonora já havia sido lançada. Valendo-se do uso de diversos canais de comunicação, como o rádio e a televisão, as canções de Saturday Night Fever viraram hits instantaneamente. O álbum, lançado no mesmo ano, foi um dos precursores do hoje muito comum cross-media marketing.

"Dá pra dizer que o auge da carreira dos irmãos Gibb está ligado às trilhas de cinema. O álbum com os temas de Os Embalos de Sábado à Noite é um dos discos mais vendidos da história, com quase 40 milhões de cópias", explicou Rodrigues. Para mostrar a febre disco nos Estados Unidos, o filme pegou carona no sucesso recente que os Bee Gees haviam voltado a fazer, com o som 'repaginado' do grupo (que se tornaria emblemático durante a febre da disco music).

A trilha sonora, que também incluía sucessos de Kool & The Gang, The Trammps e K.C. & The Sunshine Band, entre outros, foi o disco mais vendido da história até o lançamento de Thriller, de Michael Jackson, cinco anos depois. Mesmo assim, o Oscar de 1978, estranhamente, torceu o nariz para o sucesso da trilha de Saturday Night Fever, que não recebeu nenhuma indicação. A única trilha sonora que a superou em número de vendas foi a do filme O Guarda-Costas (The Bodyguard), em 1992. 




Mas o LP de Saturday Night Fever ganhou o Grammy de 1978 na categoria Álbum do Ano. A trilha tornou-se, com o passar dos anos, um disco obrigatório e atemporal nos mais diversos círculos musicais. E ainda abriu caminho para uma nova onda de filmes apoiados no sucesso das trilhas sonoras, que dominaram a década de 1980, como Flashdance - Em Ritmo de Embalo (1983), Footloose - Ritmo Louco (1984) e Dirty Dancing - Ritmo Quente (1987).


Foram 15 discos de platina, só nos EUA. O álbum de Saturday Night Fever ficou na parada de sucessos da Billboard até o fim do ano de 1980. No Brasil, a trilha também ficou em primeiro lugar, assim como nos países da América do Norte, Europa, Ásia e África do Sul.

A edição original do LP Saturday Night Fever (RSO Records), de 1977, foi lançada em um álbum duplo de vinil. Em 1993, a Globo/Polydor relançou o álbum em vinil duplo e, em 1996, a PolyGram brasileira o lançou em CD duplo. Em 1998, comemorando os 20 anos de lançamento do álbum, a PolyGram lançou uma nova edição com todas as músicas em um só CD.

A reedição brasileira da Globo/Polydor (1993)

A reedição em CD duplo
A edição com todas as faixas em um único CD
Algumas das canções compostas para o longa acabaram não entrando nem no filme e nem na trilha. A versão de If I Can't Have You dos Bee Gees foi deixada de lado e, em seu lugar, a canção foi dada a Yvonne Elliman, cuja gravação se tornou um dos grandes sucessos do disco. A versão dos Bee Gees acabou virando o lado B do compacto Stayin' Alive (1977) e, depois, foi incluída na coletânea Bee Gees Greatest (1979). Emotion foi dada a Samantha Sang e tornou-se o único sucesso da cantora. (Our Love) Don't Throw it All Away, gravada pelos Bee Gees, também ficou de fora da trilha de Saturday Night Fever. Dada a Andy Gibb, irmão caçula dos Bee Gees, tornou-se hit imediato. A versão dos Bee Gees foi parar no álbum Bee Gees Greatest. Warm Ride, que também fez parte das sessões de gravação da trilha do filme, não foi usada. Acabou gravada pelo grupo Rare Earth e lançada em 1978. Em 1980, Andy Gibb também a gravou e a lançou em seu álbum After Dark.




Aqui no Brasil, a música de Os Embalos de Sábado à Noite foi muito utilizada na novela Dancin' Days (1978-79), de Gilberto Braga. Como na época, possivelmente, a Globo ainda não tinha permissão para usar as canções originais na novela, elas foram regravadas pelo cover brasileiro Flowers e tocadas na discoteca da novela. Na mesma época, a CID (Cia Industrial de Discos) — gravadora que se especializou em lançar coletâneas de sucessos internacionais em versões cover a preços populares — tratou de lançar um LP "genérico" de Saturday Night Fever, com covers de quase todas as faixas da trilha original, e ainda incluindo Emotion. As faixas foram cantadas pelo cover brasileiro Saturday Band (provavelmente uma banda de estúdio contratada especialmente para regravar as músicas da trilha sonora do filme). É até possível que os músicos fossem os mesmos do grupo Flowers, também da gravadora Square/CID. 

A versão "genérica" da trilha, lançada no Brasil

Para a trilha de Dancin' Days, um pot-pourri com as canções de Saturday Night Fever e outros sucessos dos Bee Gees foi especialmente gravado pelo grupo Harmony Cats: Dancin' Days Medley. Na época, foi um dos carros-chefe do LP internacional da novela.


Outras novelas brasileiras pegaram carona no grande sucesso do momento. Também em 1978, How Deep Is Your Love, dos Bee Gees, fez parte da trilha internacional da novela Te Contei?. No final do ano anterior, Emotion, de Samatha Sang, também já tinha entrado na trilha de Sem Lenço, Sem Documento. Em 1979, (Our Love) Don't Throw It All Away, de Andy Gibb, foi tema internacional da novela Feijão Maravilha.



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