O Portador


No comecinho da década de 1990, a Aids era um tema tabu e extremamente incômodo. Pouco se sabia sobre a doença e vivia-se um clima de medo e insegurança. Quando a minissérie O Portador, de oito capítulos, foi exibida pela Globo, entre 10 e 20 de setembro de 1991, o assunto ainda causava bastante desconforto. Escrita por José Antônio de Souza e Aziz Bajur, a partir do argumento de Herval Rossano — que foi também o diretor geral — a minissérie conseguiu a proeza de tratar, àquela época, de um tema tão controverso e carregado de preconceitos como a Aids. 



Pouco lembrada hoje em dia, mas ainda incrivelmente atual no que diz respeito à reação das pessoas, ao preconceito e ao temor, O Portador já gerava certa "tensão" bem antes de sua estreia. Estava pronta desde novembro de 1990, mas ficou quase um ano engavetada. "Herval Rossano descarta a possibilidade do programa ter sido boicotado pela emissora", informou uma matéria da Folha de S. Paulo, de 8 de setembro de 1991. "Ele parte do princípio que a emissora não iria bancar a realização de um projeto para depois desistir de exibi-lo." 

A minissérie conta a história de Léo (Jayme Periard), 30 anos, um dos sócios em uma empresa de congelados, juntamente com o casal Reginaldo (Jonas Bloch) e Luciana (Lilia Cabral). Boa praça, responsável, generoso e trabalhador, Léo é querido por todos. Após um acidente de avião, durante uma viagem a Manaus, ele recebe uma transfusão de sangue e tem a vida salva.


Algum tempo depois, Léo se oferece para doar sangue à mãe de uma amiga e acaba descobrindo, para sua surpresa e espanto, que tem o vírus da Aids. A reação inicial é de pânico, já que sempre levara uma vida regrada e tranquila. O médico, interpretado por Othon Bastos, explica a Léo que ele é um portador saudável, isto é, carrega o vírus da Aids, mas não sofre os efeitos da doença. A pergunta que o aflige é: por quanto tempo ele continuará saudável? O sócio Reginaldo, amigo e compreensivo, tenta ajudá-lo, mas esbarra no preconceito da própria esposa, Luciana (Lília Cabral), que fica paranóica e não quer manter contato algum com Léo. Luciana fica tão descontrolada que chega a afastar seu filho da convivência com o rapaz. Paralelamente, Léo precisa lidar também com o fato de ser apaixonado por sua ex-namorada, Marlene (Dedina Bernadelli), com quem sonhava ter um filho.

Léo (Jayme Periard) e o amigo e sócio Reginaldo (Jonas Bloch)

Luciana (Lília Cabral), o filho Quiquito (André Luiz) e Léo (Jayme Periard)

Luciana (Lília Cabral), Vilma (Zezé Polessa) e Marlene (Dedina Bernadelli)
Passado o desespero do choque, Léo tenta retomar as rédeas de sua vida e manter sua sanidade. Mas decide sair atrás da identidade do passageiro que havia feito a doação de sangue, na época do acidente. Na angustiante jornada, o jovem empresário vai em busca dos companheiros de voo, em várias cidades, e se depara com alguns dos "suspeitos": Álvaro (Roberto Pirillo), sujeito casado e fanfarrão, que leva uma vida promíscua; Laurita (Thereza Amayo), mãe de um adolescente drogado; Jacira (Mayara Magri), estudante de pós-graduação com um passado obscuro; Aurélio (Edwin Luisi), um reservado homossexual que possui um namorado aidético em fase terminal; Patrícia (Françoise Forton) e Oscar (Raymundo de Souza), um simpático casal; e Alfredão (Jonas Melo), um criador de cavalos de comportamento estranho, entre outros.

Ao mesmo tempo em que precisa lidar com seus próprios medos e aflições, Léo acaba ajudando vários dos passageiros, de diferentes formas, durante sua busca pela pessoa responsável por sua contaminação. Em meio a tantos problemas diferentes, Léo começa a refletir sobre sua dificuldade em resolver os próprios problemas. Aos poucos, vai redescobrindo a esperança e se dá conta de que não é mais essencial descobrir quem o contaminou. É justamente então que ele descobre. "Passei tanto tempo atrás desse nome. Agora que eu tô correndo dele, ele vem atrás de mim", diz o personagem.

Léo (Jayme Periard) e Jacira (Mayara Magri)
O que mais impressiona em O Portador, ao assisti-la hoje em dia, é perceber o realismo com que a minissérie foi conduzida, sem que tivesse sido tratada como um "telecurso". É claro que houve pretensões didáticas também, mas até isso foi executado com extrema naturalidade e sutileza, sem quebrar a narrativa, mesclando o drama pessoal do protagonista ao clima policial. Jayme Periard interpretou Léo de forma hábil e digna, com empatia e sensibilidade, sem cair em exageros.


O final da minissérie — emocionante sem ser piegas — deixa uma mensagem de otimismo. "Não há uma preocupação de mostrar um sofrimento atroz. Não há espírito derrotista. Há uma mensagem de que se pode conviver com o vírus, mas é preciso que se aprenda isso", disse Herval Rossano, antes da estreia de O Portador. Um mérito notável, se levarmos em conta que, naquela época, imperava a falta de informação (da população e dos médicos), além da precariedade do tratamento da doença no Brasil.

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