No tempo das letras (quase) indecifráveis


A letra de qualquer canção, de qualquer língua, está ao alcance de um toque. Hoje, basta uma rápida busca no Google ou em algum aplicativo, pelo próprio telefone celular mesmo. Mas houve uma época em que — nem faz tanto tempo assim — para aprender a letra de uma canção, era preciso recorrer àquelas revistinhas de partituras para violão, bastante populares até o final dos anos 1990, nas bancas de jornais e revistas. Muitas pessoas nem queriam saber de aprender a tocar guitarra ou violão. Compravam por causa das letras (que, por sinal, vinham cheias de erros e "embromation").


Essa foi a primeira que comprei, em 1991

Outra que também corri para comprar foi a Coro de Cordas ("A revista de quem transa música!") dedicada à novela Vamp:
Essa também comprei em 1991. Rabisquei (uma péssima mania que eu tinha) a cara do Fábio Jr. 

Algumas vezes, até as revistinhas de cifras nos deixavam na mão. Essa da novela O Salvador da Pátria, que comprei também em 1991, foi uma delas. Uma das faixas não entrou na revista:



A do Micheal Jackson foi uma das que mais li. Comprei em 1993, quando o cantor visitou o Brasil. Decorei todas as músicas, na época:



A rede de ensino de idiomas Fisk tinha folhetos com letras das músicas, para que os alunos praticassem cantando. As canções eram tocadas em programas de rádio e o estudante podia acompanhá-las, tendo as letras em mãos. Eu mesmo, durante os anos em que estudei na Fisk (entre 1993 e 1997), aguardava esses jornaizinhos com grande ansiedade. Novos folhetos chegavam a cada semestre, sempre com as letras das canções que estavam nas paradas de sucesso da época.


Outro recurso eram as revistas dedicadas exclusivamente às letras e traduções. Essas sim, bem mais sofisticadas, se comparadas às simplórias revistas de partitura. Publicações como a Letras Traduzidas, da revista Bizz, foram muito populares nas décadas de 1980 e 1990, quando a internet ainda era coisa de filme de ficção científica. A Bizz Letras Traduzidas marcou época e virou a fonte mais confiável para se ter acesso à letra dos hits que tocavam nas rádios, nas trilhas internacionais das novelas, nos filmes e programas de TV. Outra opção, mais complicada, era recorrer a algum amigo craque em inglês, capaz de transcrever a letra só de ouvido.



Outras revistas para jovens, de assuntos variados, traziam quase sempre uma seção dedicada a letras de canções, geralmente de algum artista que estivesse fazendo sucesso na época. A partir dos anos 2000, com a internet se espalhando pelos quatro cantos do mundo, ficou bem mais rápido e simples ter acesso às letras das músicas. Esta semana, ao revirar minhas quinquilharias, reencontrei a antiga pasta onde guardava as revistas, recortes e folhetos com letras das canções.




As revistinhas de partituras para violão e guitarra eram as campeãs de erros, no começo dos anos 1980. Do meio da década em diante, foram se aprimorando e trazendo as letras já quase sem erros. Ainda guardo várias dessas revistas, hoje amareladas, com carinho, para me lembrar do tempo em que eu passava horas tentando decorar as letras.


De vez em quando o leitor se deparava com alguns disparates hilários, como essa letra de The Winner Takes It All, do ABBA, publicada em uma revista de cifras para violão, em 1980. Cheia de erros, a letra teve várias partes deturpadas inadvertidamente. Como na época os meios de se confirmar a exatidão das letras das canções eram muito limitados, os editores acabavam inventando pedaços ou escrevendo o que eles julgavam ter ouvido, ainda que não fizesse o menor sentido. Por exemplo, o trecho But I was a fool [Mas fui uma tola] / Playing by the rules [Jogando de acordo com as regras] virou, na tal revista, Mother was so cool [A mãe estava fria] / Laying by the roof [Deitada no telhado].


Neste outro trecho, It’s simple and it’s plain [É simples e óbvio] / Why should I complain? [Por que eu deveria reclamar?], a primeira frase virou It seems from any stray e foi “traduzida” como “Parece sermão”.

Em But what can I say? [Mas o que posso dizer?] / Rules must be obeyed [As regras devem ser obedecidas] a segunda frase virou Roose my feel obey [que, embora não faça nenhum sentido em inglês, foi traduzido como “obedeça meu sentimento”].


Existem vários outros equívocos ao longo da letra publicada pela revista. Sei que a intenção foi boa, mas não deixa de ser engraçado ler esses disparates hoje em dia. Nos virávamos com o que tínhamos, e cada trecho que conseguíamos captar e transcrever de uma canção era um triunfo e tanto. Quando saía em alguma revista então, era o paraíso!

Esta foi uma das últimas que comprei, em 1996:


7 comentários:

  1. Alô Daniel, precisei te responder. Até parece que foi eu que escrevi esse texto. Porque assim como você eu também passei e vivi tudo que você descreve nele. Ainda hoje tenho essas revistas que você descreve. Colecionei a Revista Internacional, internacional Extra, as Letras Traduzidas da Bizz e tudo quanto é revistinha que tinha tradução. Era um verdadeiro rato de banca de jornal sempre procurando revistas desse tipo para comprar. Ainda hoje faço isso. Era uma paixão que eu tinha e ainda tenho de descobrir o que o músico quer dizer com suas músicas. Há um tempo eu curtia as músicas – assim como todo mundo sem entender nada, [Algumas músicas internacionais tem esse poder de fazer com que as pessoas gostem delas sem ao menos entender uma vírgula sequer]. Mas depois que eu descobri o que tinha por traz daquelas canções que eu gostava tanto, não parei mais de pesquisar. Hoje em dia – como você escreveu, tem a internet, mas não tinha nada mais divertido do que andar a caça dessas revistas e/ou esperar o próximo numero para comprar. Abraços.

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    1. Valeu pelo comentario, José! Muito bacana saber de histórias parecidas com as nossas. Você ainda guarda essas revistas todas? Usa Facebook ou alguma rede social?

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    2. Guardo sim Daniel. Facebook eu não uso. Eu tenho uma conta do G+ e faço parte de uma rede social de filmes chamada Filmow. Meu endereço lá é: https://filmow.com/usuario/joseraulino/. Obrigado por me responder, estou comovido.

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  2. Olá, Daniel.
    Tchê, estava rindo muito aqui e ao mesmo tempo sentindo uma saudade imensa dessa época. Era um consumidor ferrenho dessas revistinhas com letras cifradas (e repletas de erros) e cada letra era como um troféu, mesmo havendo erros medonhos em muitas delas. Era o que tínhamos na época, além da Bizz (que aos poucos foi "morrendo" sabe-se lá por qual motivo).
    Embora a internet esteja aqui para nos facilitar a vida, ao mesmo tempo ela deixa de ter a magia que tínhamos nos tempos das bancas repletas de revistas, principalmente de música.
    Cara, queria te pedir um favor, se tiver como é claro. Esses folhetos da Fisk, tu por acaso ainda tem? Tu poderia fotografá-los um a um ou escaneá-los e me passar por e-mail? Eu entrei na Fisk em 1998 e os poucos encartes que consegui pararam de ser produzidos pouco tempo depois por conta de direitos autorais.
    Eu trabalho em uma unidade Fisk aqui no Sul e sinto falta desse material que era muito útil porque trazia não apenas as letras, mas também vinha com os áudios gravados em fita K7 com a letra toda narrada frase por frase para prática de pronúncia e compreensão auditiva. Se tu puder quebrar esse galho para mim, serei muito grato.
    Vou deixar meu e-mail aqui. michel.kettermann@gmail.com
    Abração, obrigado e parabéns pelo blog. Adorei o nome.
    Ah, e obrigado por me fazer lembrar de uma época tão boa.

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  3. P.S. Se tu tiver interesse em trocar encartes da Fisk, posso escanear os que eu tenho aqui e te enviar por e-mail. Da revista Bizz tenho um bom número de revistas, desde a primeira edição e alguns especiais (Madonna, Bon Jovi, Pet Shop Boys, A-ha, U2).

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  4. Fui aluno da Fisk nos anos 70 e hoje sou professor de inglês. Gostaria de saber se há alguém que possa me fornecer cópia dos encartes com as letras das músicas daquela época... Tais músicas e letras fizeram parte da minha vida e vejo hoje como uma coisa nostalgicamente saudável para mim. Agradeceria imensamente. Posso pagar pelas cópias desses encartes!!!
    Meu e-mail: tinoteacher@hotmail.com

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  5. Daniel você desenterrou kkkkk lembro da revistinha de partitura da vamp, adorava essa época.

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