Saudades daquelas mulheres


Lá se vão 13 anos desde que Mulheres Apaixonadas estreou e deixou o país ligado na trama de Manoel Carlos. Nem faz tanto tempo assim, mas as expectativas e cobranças em relação às novelas mudaram bastante de lá pra cá. Na época, saíram muitas declarações na imprensa dizendo que aquela seria a última novela de Maneco. Penso que ele teria fechado com chave de ouro (com o perdão do clichê). Na minha opinião, foi a última grande novela do autor. Talvez seu estilo, hoje, já não encontre um público tão cativo quanto antes.


A parceria com o diretor Ricardo Waddington, que havia dirigido suas novelas anteriores (Laços de Família, em 2000-2001, Por Amor, em 1997-98 e História de Amor, em 1995-96), além da minissérie Presença de Anita (2001), continuou com êxito.


Apesar de atento a tabus, o texto de Manoel Carlos não se distanciava da vida cotidiana. Maneco era capaz de segurar e manipular o telespectador que achava que já tinha visto de tudo em matéria de telenovela, simplesmente mostrando as paranoias de seus personagens da classe média carioca economicamente bem-sucedida. Um deleite para o público.


Dessa forma, Mulheres Apaixonadas coroou a vitória do estilo do autor: seu realismo nada tinha a ver com as novelas de conteúdo político-social que aparecem vez por outra. Manoel Carlos fez sim, apologia a diversas causas politicamente corretas, mas este nunca foi o objetivo central da novela.


Se, na literatura, o Naturalismo está ligado ao Realismo, na televisão, esses estilos também andam juntos. Mas na tevê, a grande associação do Naturalismo está na relação com o cotidiano, o dia a dia. Um texto realista, na televisão, está mais centrado na ação, e todas as cenas e conversas vão necessariamente trazer informações novas ao espectador. Já um texto naturalista preocupa-se com o cotidiano dos personagens, o que, futuramente, vai ocasionar alguma ação. Porém nem todas as cenas têm a preocupação de acrescentar algo novo ao público e, sim, aproximar a vida do personagem à vida do espectador.


Maneco incorporava como nenhum outro novelista essa “realidade cotidiana”, vista em suas telenovelas: o casal de velhinhos que caminha no calçadão, a empregada que vai à padaria de manhã, a criança que vai para a escola, a mãe que dá conselhos à filha adolescente, o marido que não tem tempo para sair com a esposa etc.


É improvável que se possa conceber uma novela totalmente “naturalista” ou exclusivamente “realista”. Um estilo complementa o outro. No entanto, a tendência da maioria dos autores é a de um texto dinâmico, com muita ação, reviravoltas, golpes e situações inverossímeis — ou verossímeis no universo delimitado da teledramaturgia.



As tramas das novelas de Manoel Carlos, e especialmente de Mulheres Apaixonadas, são revestidas de cotidianidade, compondo regras de comportamento, de parentesco, de afetos e desafetos, e organizando estas relações de uma forma que diz respeito ao sistema de sociabilidade o público. Mas em momento algum vemos tramas rocambolescas, golpes de sorte mirabolantes, planos maquiavélicos ou muita ação (no sentido de aventura) nas novelas de Maneco. Talvez por isso seu estilo era o que mais se diferencia dos demais.


Nas novelas de Manoel Carlos (até Mulheres Apaixonadas) não havia grande disparidade entre ricos e pobres. Todos estavam num patamar digno. Alguns mais ricos, outros apenas vivendo bem, mas nenhum era realmente pobre a ponto de morar no subúrbio ou na favela.

A presença obrigatória de uma Helena é outra marca registrada do autor, que não dispensa uma personagem com esse nome — sempre a heroína da trama. Conflitos entre mãe e filha também são recorrentes, assim como a abordagem de problemas que envolvem um casal e a relação familiar no convívio diário, jovens que apreciam, leitura, boa música, e crianças precoces, só para citar alguns exemplos típicos.



Trivialidades sim, mas que davam um sabor de familiaridade e identificação com o público. Tinha-se a sensação de estar acompanhando não uma novela, mas a vida de amigos, vizinhos, parentes... novelizada. Tudo muito bem arrematado com o verniz refinado e os diálogos simples, porém sofisticados do autor.

Manoel Carlos gostava de explorar bem cada situação. A morte da personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli), em Mulheres Apaixonadas, é um bom exemplo: Fernanda se prepara para sair de casa; Fernanda pega as contas que precisa pagar; Fernanda sai à rua; Fernanda leva um tiro; Fernanda é socorrida e levada pela ambulância; o médico fala com a família; os vários dias de agonia no hospital; a morte; o velório; o enterro. O autor não “queimava cartucho”, ao contrário. Desenvolvia cada situação ao limite. Quando o telespectador pensava que uma situação havia chegado ao final, se surpreendia diante de uma nova abordagem. Dias depois o tema ainda era debatido pelo público e pela mídia.

Fernanda (Vanessa Gerbelli) é atingida por uma bala perdida


Pop-up original do site oficial da novela, em 2003
Em tempos de reality shows, a “realidade” em uma telenovela é um conceito que pode variar muito de telespectador para telespectador. Para alguns, a realidade representada na novela deve coincidir com a realidade social das “pessoas comuns” (por exemplo, problemas “reais” como desemprego, violência urbana, déficit habitacional etc. e não os estereotipados “problemas dos ricos”). Para outros, a realidade deve ser reconhecível, isto é, comparável com a do meio em que vivem. E ainda para outros, o mundo apresentado na novela deve ser provável, verossímil, ou seja, ser “normal”.


Em Mulheres Apaixonadas, Manoel Carlos comportava-se como um cronista que estivesse observando um grupo de pessoas movimentando-se em uma cidade, ou melhor, em partes dessa cidade. No caso, o bairro do Leblon, onde o autor mora há anos, é seu local de trabalho. Dali ele tira de sua própria experiência o material que será idealizado e estilizado em suas telenovelas. Não significa que esse “realismo” por ele imitado na novela seja o retrato infalível da vida real, mas tudo era mais ou menos homogeneizado e visto pelo público como a realidade, ainda que apenas uma parcela dos consumidores de novela vivam no Rio e, em escala ainda menor, no Leblon. E as situações eram aceitas e tidas como possíveis de acontecer em âmbito nacional.


Os capítulos de Mulheres Apaixonadas eram cheios de situações que se repetiam ciclicamente, mas não se desenvolviam de fato. Os diálogos circundavam temas e faziam referências ao mundo fora da novela, que na novela era entendido como o mundo “real” dos personagens. Tanto que, no começo, a imprensa criticou o ritmo exasperadamente lento de Mulheres Apaixonadas e chegou a considerar seus diálogos como inócuos ou sem nada a acrescentar à trama. Apesar disso, os elevados índices de audiência mostraram que a novela — de poucos acontecimentos e muitos personagens — caiu no gosto do grande público. Os consumidores se encantaram exatamente pela “normalidade” da trama.

Revista Veja (19/03/2003)
(Clique para ampliar o detalhe)

Manoel Carlos se diz inspirado pelo estilo realista. Interessam-lhe situações palpáveis, que tratam de temas pertinentes à vida e ao cotidiano do telespectador. Não é por acaso que Mulheres Apaixonadas foi, como suas outras novelas, repleta de cenas com ações cotidianas, locações reais e conversas sobre coisas e fatos concretos. Muito do que acontecia no país durante a novela era comentado e vivenciado pelos personagens (violência urbana, preconceito, catástrofes naturais e crises políticas, entre outras coisas).


Em entrevista à jornalista Lílian Fernandes, para o jornal O Globo de 10 de outubro de 2003, Maneco afirmou:


"Todas as minhas novelas trataram dos fatos mais corriqueiros da vida, como bater na porta do vizinho para pedir um ovo ou um pouco de pó de café emprestados. Claro que este cotidiano recebe um tratamento dramatúrgico e que depende da carpintaria de cada autor isso dar certo ou não. Tanto quanto possível, faço novela com a ajuda dos jornais, das histórias que vivi e que ouvi contar. A vida cotidiana é pura novela, e novela que o público gosta de ver" — diz o autor, do alto da média de 52 pontos de audiência registrada nacionalmente no mês de setembro, e embalado pelos ibopes acima dos 56 pontos desta última semana de exibição. (O Globo, Segundo Caderno, 10/10/2003)


As manchetes dos jornais e revistas da época davam dicas do clima “realista” da novela, em que ficção e realidade se misturavam:


“Manoel Carlos faz novela realista — O realismo que Manoel Carlos tenta dar ao seu novo folhetim é de impressionar. As pessoas bebem cafezinho num balcão e pagam a conta. O dia ganha cronologia de vida real.” (Estadão, 18/02/2003).


“Mulheres Apaixonadas é marco na tradicional estratégia de novelas” (Folha de S. Paulo, 03/08/2003).


“Realismo de Manoel Carlos dói de verdade” (Jornal de Brasília, 01/10/2003)

“Casa que abriga atores idosos comemora boa fase depois de virar cenário de Mulheres Apaixonadas (Jornal de Brasília, 02/10/2003).


Incontáveis foram as matérias como as citadas acima, durante todo o período de exibição da novela.

Veja, 09/07/2003
Veja, 09/07/2003

Tal construção deu ao telespectador a possibilidade de sentir que o tempo em Mulheres Apaixonadas andava junto com o tempo que público estava vivendo. Este fato em si dá a dimensão específica do “realismo do dia a dia” proposto por Manoel Carlos e que, atualmente, é difícil de ser levado ao ar em uma novela.


A estrutura de Mulheres Apaixonadas lembra a dos seriados norte-americanos: várias tramas paralelas que, em determinados momentos, assumiam pesos semelhantes entre si. Esta é mais uma das características de Manoel Carlos, o que, no caso dessa novela, atingiu seu ápice. Normalmente, em suas histórias, há uma protagonista chamada Helena, cujo conflito/problema constitui a espinha dorsal da trama. Em Mulheres, Helena não foi o centro da trama. Pela primeira vez, a personagem esteve no mesmo patamar dos outros, o que causou certo estranhamento da crítica e até mesmo dos telespectadores, acostumados às novelas anteriores de Maneco, em que as Helenas ocupavam uma espécie de lugar central na história.

As irmãs Hilda (Maria Padilha), Helena (Christiane Torloni) e Heloísa (Giulia Gam)
Mulheres Apaixonadas reuniu em uma só história o desejo do autor de retratar diferentes perfis femininos e suas paixões. Mas foram muitos os temas fortes nessa novela: a violência doméstica, o lesbianismo, o preconceito social contra idosos, o alcoolismo, o romance entre homens e mulheres com grande diferença de idade, o ciúme excessivo, a violência urbana, a traição e até o câncer de mama. Uma vitrine que mostrou vários personagens marcantes e até hoje muito lembrados pelo público.





Conhecemos as pessoas no dia a dia aos poucos, e assim foram os personagens ao longo dos 203 capítulos, entre 17 de fevereiro e 10 de outubro de 2003, que também se mostraram aos poucos e ainda vão permanecer por muito tempo na memória do público.


Para a ficha técnica e mais detalhes sobre Mulheres Apaixonadas, acesse o site Teledramaturgia.



O site oficial da novela, em 2003

2 comentários:

  1. Muito bom texto. Ótima análise. Você construiu seu texto com muita riqueza e traçou com perfeição a atmosfera das novelas de Manoel Carlos e seu "cotidianismo". Hoje, com o mundo cada vez mais dinâmico e superficial, este estilo não faz mais sucesso. Acho que ele deveria ter se aposentado com esta novela. Em seus últimos trabalhos eu acho que ele perdeu a "mão".
    Gostei muito das pesquisas que você fez sobre o que saia sobre a novela na imprensa da época. Há 13 anos atrás o público ainda não era acostumado ao modelo de seriados americanos e realitys shows, a baixa demanda por tv por assinatura, internet, netflix ainda permitia a existência deste público fiel de novela das 9h que hoje em dia está em extinção!

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  2. Delícia de texto, amigo! Análise profunda, rica de informações e muito bem ilustrada (delícia relembrar o site original da novela). Parabéns! Fui telespectador fiel de Mulheres Apaixonadas e, confesso, sou louco pra ver de novo. rs

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