Os prazeres e mistérios de gostar de filmes malfeitos, pouco conhecidos e obscuros me fazem enveredar por caminhos tortuosos às vezes, mas não menos fascinantes. Há alguns anos assisti a Poor White Trash 2 (1974), filme de um diretor SUPER obscuro, para quem até já dediquei um post aqui no blog: S. F. Brownrigg. Ele dirigiu e produziu meia dúzia de filmes de terror na década de 1970, todos de baixo orçamento e desconhecidos do grande público. O filme em questão, Poor White Trash 2, também é conhecido como Scum of the Earth.
Como eu já conhecia o trabalho do diretor e o estilo modesto, canhestro e assustador de seus filmes — que muito me agradam, por sinal — foi natural que tivesse assistido a Poor White Trash 2. O mais intrigante, no caso, não foi o filme em si e sim esse "2" no título. Não se trata de continuação de nenhum filme, como eu já havia lido e pesquisado. Logo, por que diabos esse 2?
O que o diretor quis fazer foi um filme que parecesse tão chocante e ousado quanto um dos anos 1950, chamado Poor White Trash (cujo título original era Bayou). As histórias nada tinham a ver entre si, mas ele queria que seu filme fosse o equivalente, em matéria de “ousadia”, àquele que tinha sido feito décadas antes. Daí o nome Poor White Trash 2. Claro que fui atrás do outro filme também, para ver o que ele tinha de tão "repulsivo" assim.
Como é muito comum nos EUA, os filmes costumam ser relançados com títulos alternativos. Bayou, dirigido por Harold Daniels em 1957, também é conhecido como Poor White Trash. É a história de Martin Davis (Peter Graves, o piloto de Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!), um jovem e charmoso arquiteto nova-iorquino que participa de uma concorrência para o projeto de um novo centro cívico em Nova Orleans. O chefe o convida para uma visita à cidade, para ver se Martin vai ganhar a competição e ter seu projeto escolhido. Em uma festa típica da região, o arquiteto conhece Marie Hebert (Lita Milan), a jovem beldade local, uma moça de 17 anos (mas parece ter 30) que vive solta a correr pelas redondezas, é amiga dos pescadores da comunidade e mora com seu velho e pobre pai alcoólatra em um humilde barraco. Martin se apaixona instantaneamente pela sexy e impetuosa Marie. O problema é que ela é o objeto de desejo do sórdido Ulysses (Timothy Carey), o valentão da cidade e praticamente o dono da vila de pescadores. A partir daí, disputas, chantagens, trapaças e ameaças entram em cena. Parece roteiro de novela mexicana.
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Peter Graves e Lita Milan em Bayou/Poor White Trash (1957) |
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Lita Milan e Timothy Carey em Bayou / Poor White Trash (1957) |
No final das contas, trata-se de um melodrama extremamente datado e pobremente realizado, mas com uma história que até prende (talvez pela excentricidade e exotismo dos caricatos personagens). Mais tímido do que ousado, o filme traz uma pequena lição de moral, ainda que de forma superficial: é preciso lutar por nossos direitos. Distribuído pela United Artists, Bayou não causou impacto ao ser lançado em 1957. Em 1960, foi adquirido pela Cinema Distributors of America, que o reeditou, acrescentou novas cenas e mudou seu título para Poor White Trash (não confundir com um filme feito em 2000, também chamado Poor White Trash, do diretor Michael Addis, que nada tem a ver com essa história). A intenção com a mudança de nome foi fazer o filme parecer mais sensacionalista, sórdido e ousado. Relançado em 1961, Bayou — rebatizado de Poor White Trash — acabou conseguindo sucesso comercial e ficou, durante anos, sendo exibido nos circuitos de cinemas de drive-in americanos.
Convém ressaltar o significado da expressão que dá nome ao filme. "White trash", traduzido literalmente, significa "lixo branco". De maneira geral, trata-se de um termo norte-americano depreciativo, usado para se referir a pessoas brancas de classes sociais menos privilegiadas, como operários, camponeses, pescadores e lavradores, entre outros. O dicionário Merriam-Webster informa que o primeiro uso do termo ocorreu em 1822. Mas por volta de 1855, já era utilizado por brancos de classe alta e era de uso comum entre todos os sulistas. A partir da década de 1950, white trash também passou a ser usado, de forma sarcástica e sensacionalista — e não menos pejorativa —, tanto para condenar como para justificar exemplos recorrentes de maus comportamentos característicos das camadas mais pobres da sociedade, como bebedeiras, xingamentos, badernas, promiscuidade, desleixo, sujeira e maus modos, em geral. Portanto, batizar um filme, no final da década de 1950, de Poor White Trash ("pobre lixo branco") significava atrair uma atenção enorme. O público ia querer ver como vivia aquela gente pobre, sem modos e como era aquele estilo de vida tão execrável.
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Scum of the Earth / Poor White Trash 2 (1974) |
A confusão se dá pelo seguinte: Bayou tem como título alternativo Poor White Trash. Voltando ao assunto do início do texto, o diretor S. F. Brownrigg pegou carona nessa ideia e fez, em 1974, o infame Scum of the Earth, que foi rebatizado de Poor White Trash 2 (mas nada tem a ver com o filme de 1957 e tampouco se trata de uma continuação).
Em Scum of the Earth / Poor White Trash 2, Helen (Norma Moore) e seu marido Paul (Joel Colodner) são jovens recém-casados que vão passar a lua-de-mel em uma pacata casa de campo no bosque. Mas o idílio do casal é interrompido quando um misterioso assassino com um machado mata Paul. Em pânico, Helen foge desesperada pelo bosque e encontra Odis Pickett (Gene Ross), que mora na única cabana do local. Ele convence a pobre moça a passar a noite com ele e sua família, que inclui sua esposa Emmy (Ann Stafford), a filha Sarah (Camilla Carr) e o filho retardado Bo (Charlie Dell). Sem ter para onde ir e abalada, Helen acaba ficando com a estranha família de maltrapilhos e percebe que, além de esquisitos, eles são moralmente depravados.
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Scum of the Earth / Poor White Trash 2 (1974) |
Lançado originalmente em 1974 como Scum of the Earth ("escória da Terra"), o filme foi reintitulado e distribuído nos EUA como Poor White Trash 2. Acontece que Scum of the Earth é também o nome de um filme de 1963, que nada tem a ver com o de 1974. Novamente o labirinto trash me levou ao outro Scum of the Earth, uma historinha ingênua que pretendia chocar o público daquele puritano começo dos anos 1960.
Scum of the Earth, dirigido por Herschell Gordon Lewis e lançado em 1963, é um filme americano do tipo exploitation. (Exploitation é um gênero de filmes apelativos, que têm por objetivo obter sucesso comercial abordando, de forma sensacionalista, a temática que tratam. Em geral, são chamados de "filmes B" e não costumam trazer grandes astros, mas contêm chamarizes de apelo como efeitos especiais pobres e exagerados, sexo, violência, drogas, nudismo, bizarrices, rebeldia e coisas do tipo.)

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Scum of the Earth (1963) |
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Scum of the Earth (1963) |
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Scum of the Earth (1963) |
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Scum of the Earth (1963) |
O final, descaradamente moralista, é sombriamente narrado, em off, em tom de advertência: “Para cada garota que escapa da armadilha, outra garota cai na mesma armadilha. Só uma sociedade em alerta pode livrar-se daqueles que caçam em busca das fraquezas humanas, daqueles que são... a escória da humanidade!”
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Scum of the Earth (1963) |
E assim a confusão dos títulos iguais para filmes diferentes foi desfeita. Para os admiradores de filmes B e produções obscuras, recomendo esses filmes. Bayou/Poor White Trash (1957) e Scum of the Earth (1963), apesar de se pretenderem "chocantes", são bem ingênuos, mal produzidos e datados, mas têm aquela característica quase irresistível dos filmes desse gênero. Já Scum of the Earth/Poor White Trash 2 (1974) é um filme incômodo, que mistura terror psicológico e violência, com uma lúgubre atmosfera de degradação. Quanto ao outro filme, feito em 2000 e também chamado de Poor White Trash, não se trata de um filme trash. É apenas uma comédia boba, com alguns nomes que fizeram certo sucesso no passado (Sean Young, William Devane), e satiriza o estilo de vida típico do chamado poor white trash (pobreza, jovens rebeldes e sem modos, famílias desleixadas que vivem em trailers, homens beberrões, mulheres provocantes).
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