Ídolos, inimigos, admirações e arranhões


Aguinaldo Silva, ontem de manhã, indagou no twitter "quem era Ana Paula, sobre quem tanto comentavam". Caí na besteira de responder que era "uma dessas participantes de BBB vivendo seus 15 minutos de fama e que daqui a um mês, provavelmente, ninguém mais se lembraria". Pronto. Isso foi o suficiente pra despertar a ira dos deuses.


Cometi uma falta gravíssima: blasfemei contra uma ex-participante do Big Brother Brasil idolatrada por centenas de milhares de brasileiros, a maioria adolescentes e jovens (a julgar pelos tweets que recebi). Ao longo do domingo, fui xingado, hostilizado e lembrado, dezenas de vezes — em tom acusatório — de que Ana Paula é sim FAMOSA e que permanecerá famosa, que havia sido contratada pela Rede Globo, pela Rede TV!, que vai ter quadro fixo em programa de tevê etc. e tal. Sem falar naqueles que, furiosos, me chamaram a atenção para ex-participantes de BBB que ainda são famosos. 

Tudo bem, isso eu admito. Entre centenas de ex-BBBs, existem uns três ou quatro que se destacam, na mídia, por seu talento ou trabalho — não por serem "ex-BBBs", essa estranha categoria almejada por tantos brasileiros. Grazi Massafera é um ótimo exemplo de jovem que participou do reality show, se sobressaiu, estudou, batalhou e hoje é uma atriz respeitada, dedicada, talentosa e uma figura extremamente carismática e elegante. Jean Wyllys também está aí, assim como Sabrina Sato. 

Não acompanho mais o programa (e deixo claro que NÃO condeno quem o acompanha). Já tive minha fase de assistir e torcer, mas depois da quinta ou sexta edição, perdi o interesse. Hoje, quando assisto, são trechos, além das constantes chamadas e reportagens na tevê.  Pelo que vi de Ana Paula, ela mostrou ter bastante carisma com o público. Agitou o programa, normalmente bem monótono e repetitivo. Virou uma espécie de 'anti-heroína' do reality. Adorada por muitos e repudiada por outros tantos. 


Sinceramente, não consigo ver nela uma Grazi ou uma Sabrina, nem outra celebridade que realmente vá construir uma carreira sólida na tevê, no jornalismo, na política ou em outra profissão de visibilidade pública. Posso estar redondamente enganado, claro, mas até o presente momento é assim que penso. Isso, creio eu, ainda me é permitido expressar.

O que me assustou foi a virulência com que desconhecidos me hostilizaram no twitter, por causa da minha frase sobre "os 15 minutos de fama". Fãs alucinados, feito hordas de zumbis de filme de terror, começaram a me xingar e a me passar sermão, como se eu tivesse cometido um atentado gravíssimo ao arranhar a imagem da musa deles. Até de hater me chamaram. (Moderno demais pra mim). Fiquei surpreso, pois nem acompanho o programa e tampouco torço contra ou a favor de ninguém ali. Estou longe de ser um hater. Resultado: depois de receber insultos o dia inteiro (a maioria de perfis duvidosos e fakes), acabei deletando o tweet, cansado de receber baboseiras.

Essa historinha me lembrou um episódio ocorrido há dez anos, quando eu passeava pelo interior da Alemanha. Estava batendo perna em Freiburg, me deleitando com aquela delícia de cidadezinha, quando avistei, entre os transeuntes, Mick Hucknall, vocalista do Simply Red. Ele vinha andando com uma mulher, que julguei ser sua namorada ou esposa.

Sempre gostei muito da banda, tenho vários CDs, fui a shows etc. Como admirador, não resisti e me aproximei, timidamente. Estava com minha câmera fotográfica e me apresentei como fã, expliquei que era do Brasil e que estava ali a passeio, e perguntei se não poderia tirar uma foto com ele. A mulher que o acompanhava foi extremamente simpática e sorriu, demonstrando achar o fato divertido. Mas nunca vou me esquecer da expressão de aborrecimento de Mick, visivelmente contrariado. Na mesma hora senti profundo constrangimento por tê-lo abordado, ainda que de forma polida e discreta. Senti que o havia importunado. E não tiro sua razão, pois mesmo ali, numa cidadezinha da Alemanha, um fã (do Brasil!) o havia reconhecido e pedido uma foto. Bem, ele aceitou e a mulher que estava com ele tirou nossa foto. Agradeci e tomei meu rumo. 

Senti um misto de orgulho, por ter conseguido uma foto com meu ídolo, e também uma pontada de decepção, por ele ter se mostrado com cara de poucos amigos. Compreendo que pode ter sido coisa de momento. Ele pode ter se sentido invadido, ou simplesmente não estava a fim de dar atenção a nenhum fã naquela hora especificamente. O motivo não importa. Em todas as entrevistas que li ou vi na tevê, Mick sempre foi elegante e descontraído. Nos shows, sempre se mostrou simpático. Minha admiração pela banda e pelo vocalista não diminuiu, mas sua imagem foi levemente arranhada. Como um disco que você curte muito, mas que ganhou um arranhãozinho inesperado. Você ainda aprecia, mas quando ouve o pulo da agulha, se lembra de que naquele trecho há um arranhado.

A foto com Mick Hucknall, tirada em 2006
Lembrei desse episódio ontem, após os ataques que recebi no twitter, e fiquei pensando sobre a idolatria, muitas vezes cega, que os fãs sentem por seus ídolos. Não "arranhei" a imagem de Ana Paula ao predizer que ela estava vivendo seus 15 minutos de fama. Quem sou eu, um simples anônimo, para arranhar a imagem de uma celebridade com tantos seguidores? Os próprios ídolos, cedo ou tarde, se encarregam de arranhar, mesmo que de leve, a própria imagem. Mas me espanta o fato de alguém como Ana Paula, que apareceu há menos de três meses na mídia, como participante de reality show, já ter atraído tamanho exército de seguidores e defensores radicais (coisa que, aliás, é bem comum nesses tempos de agressividade gratuita em redes sociais). Quando falei dos "15 minutos de fama" da ex-participante do programa, foi de forma genérica, tomando como base 90% dos participantes anteriores, que, após o término do programa, caem no esquecimento. Não tive intenção alguma de afrontar os ardorosos fãs da moça, que se sentiram atacados e feridos de morte, tamanha foi a intensidade da rezinga.

As pessoas são livres para idolatrar quem quiserem, venerar e amar incondicionalmente os ídolos escolhidos como objetos de adoração. Mas não deviam se mostrar tão cegas e tacanhas por conta disso. Admirar um artista (ainda que hoje em dia 'ex-BBB' também entre na categoria 'artista') é problema de cada um. Se a fama vai durar, são outros quinhentos. Mas assim como todos são livres para adorar quem quiserem, poderiam também ter um mínimo de educação e respeito ao se dirigirem uns aos outros nas redes sociais. É clichê pedir isso, eu sei. A internet parece ter aberto uma caixa de Pandora, em que as pessoas, escondidas por trás de uma tela de computador, se sentem compelidas a despejar toda sorte de ofensas, hostilidades e ataques, seja nas redes sociais ou em simples comentários de blogs. Infelizmente, hoje, coleciona-se 'inimigas'. 


Os valores estão trocados. Nesse ponto, o sucesso da ex-BBB é patente: vários de seus fãs (agindo como fanáticos) ao me atacarem ontem, provaram que espelham-se em sua musa para, orgulhosos, gabarem-se de colecionar 'inimigos'. (Muito embora eu não esteja entre esses inimigos. Não torço nem pelo sucesso e muito menos pelo insucesso da moça. O que me assustou foi a enxurrada de grosserias que recebi.) 

Grande parte dos internautas querem ser reconhecidos pelo número de pessoas com quem batem boca nas redes sociais. Querem 'aparecer', não importa a que preço. Como li em uma crônica do Manoel Carlos, há alguns anos: "As pessoas não aspiram mais a um trabalho, mas a uma projeção. Não querem ser respeitadas, mas invejadas." Vai entender...

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